“O que aprendemos na escola é nosso para sempre”

O professor indígena warao Israel Arintero é um dos 97 professores que foram capacitados pelo UNICEF e seus parceiros para atuar nos Espaços de Aprendizagem que funcionam em Boa Vista e Pacaraima.

UNICEF Brasil
um professor e seus alunos em um espaço de aprendizagem temporários
UNICEF/BRZ/João Laet

12 Dezembro 2018

O professor da etnia warao Israel Arintero dedicou grande parte de sua vida à educação de crianças e adolescentes de comunidades indígenas do município de Antonio Diaz, em Delta Amacuro, na Venezuela. Hoje, aos 46 anos e vivendo no Brasil, ele enfrenta um novo desafio: educar meninas e meninos indígenas venezuelanos que migraram para Roraima em busca de uma vida melhor, assim como ele.

Israel vive com a esposa e os quatro filhos em um abrigo para imigrantes das etnias warao e e’ñapa no município brasileiro de Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. O local, que foi batizado de Janokoida – ‘casa grande’ na língua warao –, tem sido morada para cerca de 450 pessoas, entre elas, 200 crianças e adolescente.

Inquieto e com a vontade de fazer a diferença, o professor começou a lecionar logo que chegou ao abrigo. Com o grande número de crianças fora da escola e querendo uma oportunidade de estudar, rapidamente o número de mãos colaboradoras também cresceu. Desde maio, Israel coordena o espaço de aprendizagem do local, uma iniciativa do UNICEF em parceria com a Fraternidade Internacional e a paróquia do município.

“O projeto educativo foi elaborado por nós mesmos, para as necessidades que temos. A escola não é como a tradicional. Nós estamos preparando as crianças e os adolescentes para aprender a ler, escrever, realizar operações básicas e para que eles tenham conhecimentos de história, geografia, tanto da Venezuela quanto do Brasil. Estamos preparando-os para que, no futuro próximo, possam ingressar em uma escola regular daqui”, explicou Israel.

um professor e seus alunos em um espaço de aprendizagem temporários
UNICEF/BRZ/João Laet

Mais de 450 crianças e adolescentes venezuelanos são atendidos diariamente por dez professores e monitores indígenas e dois brasileiros. A cultura do “povo do barco” – tradução da palavra warao –, aprendida por Israel na infância, enquanto brincava de canoa pelas águas do Araguabis, não é deixada de lado pela escola. No espaço de aprendizagem, as crianças e os adolescentes também aprendem seu idioma tradicional e as tradições de sua etnia.

“Meus pais me diziam que eu tinha que ir à escola para aprender. Eles me falavam que é importante estudar porque o que aprendemos na escola é nosso para sempre. Foi isso que fiz e é isso o que ensino aos meus alunos até hoje.”

Israel Arintero

A vinda para o Brasil – A morte da neta recém-nascida acabou trazendo Israel e sua família para o Brasil. Prematura, a bebê morreu aos três meses em decorrência de falta de assistência médica adequada.

“Naquele dia, fomos ao hospital com ela. A enfermeira já não sabia mais o que fazer. Além da minha netinha, morreram outras quatro crianças na mesma noite. Foi naquele momento que decidimos vir para o Brasil”, contou Israel. Em fevereiro, quando conhecidos que viviam em Pacaraima sinalizaram que o abrigo Janokoida para imigrantes havia sido inaugurado, a família se mudou para Roraima.

Espaços de Aprendizagem – Os espaços de aprendizagem são uma iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) criados em parceria com a Fraternidade – Federação Humanitária Internacional. Ao todo, dez espaços funcionam desde maio de 2018 em Boa Vista e Pacaraima. Nesse período, mais de 1,8 mil crianças e adolescentes já foram atendidos nos locais que funcionam como uma escola de transição e são usados em contexto de crises. Os espaços não substituem a escola regular, mas ajudam a diminuir o impacto quando as crianças forem restabelecidas no ensino tradicional.