“Via pela internet meus amigos na escola, enquanto eu estava vivendo na rua”

Depois de enfrentar muitos desafios, a venezuelana Ronneilys Corredor, 15 anos, reencontrou o prazer de aprender em espaço educativo do UNICEF em Boa Vista (Roraima).

UNICEF Brasil
Ronnielys posa sorridente para a foto
UNICEF/BRZ/Inaê Brandão

08 Fevereiro 2019

“Na Venezuela, lutei muito para chegar ao quarto ano da escola e poder usar um uniforme bege, como os meus primos e amigos. Em 2018, quando esse momento estava chegando, nem sequer usei a blusa porque vim embora para o Brasil. E aqui, via pela internet todos os meus amigos com o uniforme, na escola, estudando e aproveitando, enquanto eu estava vivendo na rua”. O curto relato da venezuelana Ronneilys Corredor, de 15 anos, resume um pouco a trajetória dessa adolescente, que quer seguir seu sonho de estudar em uma boa escola, mas enfrentou – e enfrenta – grandes desafios.

Agora, as chances estão cada vez mais reais. Ronneilys viveu, por dois meses, no abrigo para imigrantes Jardim Floresta, em Boa Vista (Roraima). Lá, ela frequentou o Espaço de Aprendizagem montado no local pelo UNICEF e pela Fraternidade – Federação Humanitária Internacional, onde participou de atividades educativas que a preparam para ingressar na escola regular.

No Espaço, crianças e adolescente aprendem português, entre outras atividades educativas, e retornam à rotina escolar, trazendo de volta a sensação de que sua vida está voltando à normalidade. Além disso, especialistas fornecem apoio psicossocial.

Nascida na cidade de Los Teques, no estado Miranda, na Venezuela, hoje ela vive com a mãe na cidade de São José, no interior do Estado de Santa Catarina, e se prepara para o início das aulas. Mas, até chegar esse momento, foi um período de muita angústia.

Da Venezuela, a adolescente trouxe alguns objetos pessoais e boas memórias. Ronneilys conta que cresceu em um lar amoroso na casa de seus avós maternos. Ela nunca havia morado com a mãe, Karen Hernandez, e não conheceu o pai biológico, que morreu antes de ela nascer.

Com muito esforço, seu avô, que trabalhava como caminhoneiro, conseguia o suficiente para alimentar a família, mas faltava dinheiro para coisas básicas, como materiais escolares, produtos de higiene, roupas.

Uma nova casa, um novo país – Em busca de uma vida melhor, em 1º de agosto de 2018, Ronneilys se mudou para Roraima com os dois irmãos para viver com a mãe, que já estava na capital Boa Vista havia oito meses. Naquele momento, essa parecia a melhor decisão. A mãe estava trabalhando em um emprego fixo e já podia pagar o aluguel de uma casa pequena.

Porém, um mês depois da mudança, Karen perdeu o emprego. Sem dinheiro, a família acabou indo morar na rua, em frente à Rodoviária Internacional de Boa Vista. “Foi a primeira vez na minha vida em que morei na rua, foi a primeira vez em que tive que pedir comida, que fiquei realmente sozinha porque cada um tinha que se virar. Passamos um mês e três semanas assim e foi muito difícil”, Ronneilys recorda com tristeza.

Dormindo sobre um papelão, a adolescente passou momentos que, infelizmente, nunca vai esquecer. “Em uma noite, teve uma confusão e acordei com a polícia jogando bomba de gás na gente e dando tiros de borracha. O meu nariz e minha garganta ardiam”, relata. Episódios de violência não eram isolados, lembra a menina. 

“Também era comum, de madrugada, pessoas passarem em carros, xingando a gente, mandando voltar para a Venezuela, jogando coisas. Pegavam areia e atiravam quando estávamos dormindo.
Isso tudo já aconteceu comigo.”

Finalmente, uma vida melhor – No final de setembro de 2018, a situação começou a melhorar. A família conseguiu uma vaga no abrigo Jardim Floresta e se mudou para o local. “A vida no abrigo é muito diferente da vida na rua. Ia para a escola pela manhã, e à tarde sempre jogávamos um esporte. Era um lugar seguro, onde sabia que nada me aconteceria e não seria humilhada. Havia um colchão para dormir e não passávamos frio. Tínhamos comida todos os dias e não precisávamos pedir. Além disso, estava estudando”, diz a adolescente.

Ronneilys frequentava com outros adolescentes o Espaço de Aprendizagem, mantido pelo UNICEF. No local, educadores brasileiros e venezuelanos ensinam português, espanhol, matemática e outros assuntos para crianças e adolescentes que ainda não frequentam a escola regular. A ideia é prepará-los para ingressar em uma escola regular no Brasil.

Com apoio do governo brasileiro, sua mãe conseguiu um novo emprego e, mais uma vez, toda a família empacotou seus poucos pertences e foi rumo ao sul, destino: São José, Estado de Santa Catarina.

Agora, a mais de 5 mil quilômetros do abrigo em que viveu em Boa Vista, Ronneilys se sente mais preparada para sua nova jornada escolar e para realizar seu sonho de infância de ser dentista.

Apesar das saudades dos avós, ela segue com esperança. “Não é fácil, mas acredito que dias felizes virão. Temos que mudar a mente, os sentimentos e esquecer das coisas ruins que passamos. Não dá para viver triste o tempo todo. É necessário mudar o foco do pensamento porque, quando você vira imigrante, sempre vai existir alguém para sentir saudade”, lembra Ronneilys.

Educação para todos O UNICEF e seus parceiros têm trabalhado para garantir o direito à educação de todas as crianças e adolescentes venezuelanos no Brasil. Atualmente, encontram-se em operação nos abrigos para migrantes, 12 Espaços de Aprendizagem, que já atenderam mais de 2,2 mil meninos e meninas. Os espaços funcionam como uma escola de transição e são usados em contexto de emergência. Eles não substituem a escola regular, mas ajudam a diminuir o impacto quando as crianças forem restabelecidas no ensino regular.

Além disso, o UNICEF está trabalhando para incluir crianças e adolescentes que vivem em abrigos de Roraima na educação formal. Nos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019, desenvolveu uma estratégia de busca ativa de criança e adolescentes vivendo nos abrigos que estavam fora da escola e garantiu a matrícula de quase 700 meninas e meninos nas escolas públicas.


Boa Vista, fevereiro de 2019