Adolescente convoca estudantes a participar das políticas públicas de João Câmara (RN)

Motivada pelos direitos das meninas e pela importância da participação, Letícia, 15 anos, circula nas escolas da cidade para construir propostas de mudança com base na opinião de adolescentes.

UNICEF Brasil
adolescente posa com camiseta do projeto do UNICEF. Ela está com uma mochila nas costas.
UNICEF/BRZ/Pablo Pinheiro

28 Janeiro 2019

A adolescência é uma fase única de desenvolvimento e cheia de oportunidades. Mas, para que, de fato, ela seja vivenciada plenamente, é preciso a garantia de acesso aos direitos de cada adolescente, bem como a participação dos grupos mais jovens da população em processos decisórios.

No município de João Câmara, Rio Grande do Norte, há uma rede de adolescentes engajados na proteção desses direitos e no exercício de sua cidadania. Esse grupo se fortaleceu em 2017, quando o município aderiu ao Selo UNICEF Edição 2017-2020 e criou, como parte da estratégia da iniciativa, o Núcleo de Cidadania de Adolescentes (Nuca) – rede formada por meninas e meninos para discussão e ações de melhoria das políticas públicas locais que impactam o seu desenvolvimento.

Maria Letícia Gomes da Silva, 15 anos, foi uma das primeiras integrantes do Nuca. Como representante do grupo, ela engaja outros adolescentes para mudar a comunidade em que vivem, enquanto aprende a superar os próprios desafios. Neste depoimento, ela conta um pouco de sua história:

“No final de 2017, entrei para o Nuca. O articulador do Selo UNICEF na minha cidade me convidou para integrar o grupo e aceitei porque queria agir sobre temas que eram um desafio para mim. Eu era uma pessoa revoltada com os casos de violência contra a mulher, por exemplo, porque a mulher acaba se achando um ser menor, mesmo sendo a vítima da história. E queria um lugar para falar sobre isso.

Logo que entrei no Nuca, passei a ajudar a mobilizar outros adolescentes. Comecei chamando os alunos da minha escola para uma reunião. Expliquei a importância da participação e disse que o Nuca poderia mudar a vida deles. Lá, eles seriam ouvidos.

Busquei conversar principalmente com os adolescentes mais inibidos. No início das reuniões, percebi que eles sabiam muita coisa, mas guardavam a informação para si, por vergonha. Fui levando o tema da participação de todos para as formações do Nuca, e, aos poucos, conseguimos mudar a visão de muitos deles.

Com o grupo completo, eu e outros adolescentes passamos a nos engajar nos temas relacionados à comunidade. No Nuca [como parte da metodologia do Selo UNICEF], recebemos vários desafios que temos de realizar. É legal porque, assim, conseguimos focar em ações reais que os adolescentes podem realizar no seu bairro.

Começamos a visitar outras escolas da cidade e fizemos campanhas nas ruas. Ao todo, já foram cinco palestras para falar da atuação do Nuca nas escolas, além das ações na rua. Uma delas foi a campanha pelo fim do trabalho infantil e da exploração sexual [como parte da ação municipal pelo Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, 18 de maio].

Além de palestras e campanhas, realizamos rodas de conversa sobre vários temas. Nessas rodas, é perceptível a presença de assuntos como o suicídio, a violência sexual, a importância da participação do adolescente nas decisões do município.

A adolescente Letícia conversa com outros adolescentes na sala de aula
UNICEF/BRZ/Pablo Pinheiro

Como próximos passos, estamos fortalecendo a campanha ‘Fora da Escola Não Pode!’, com o tema do atraso escolar e perguntas que motivam as discussões sobre o assunto nas escolas.

A importância de nos educarmos uns aos outros

Nesse tempo de Nuca, algumas histórias me marcaram bastante. No início de 2018, fomos a uma escola municipal para conversar sobre as ações do Nuca e temas como a saúde sexual e reprodutiva e inclusão escolar. Uma menina de uns 15 anos deu um relato de vida. Ela disse que, se tivesse informação antes, provavelmente não estaria passando por dificuldades para conciliar os estudos com a criação dos dois filhos que já tem. Ainda assim, ela dizia que não queria desistir da escola. Lembro que todos pararam realmente naquele momento para prestar atenção no encontro. Esse depoimento trouxe os adolescentes para perto do debate e eles reconheceram que estávamos conversando sobre a realidade que todos nós vivemos.

Existe uma grande importância em nos educarmos uns aos outros, entre pares. É muito diferente aprender com alguém que vive a mesma fase que você. A linguagem se torna mais fácil e livre da culpa ou do sermão. Hoje, com o Nuca, a vida mudou muito. Alguns adolescentes se sentiam desconfortáveis até para tirar foto. Hoje em dia, os adolescentes conseguem se expressar mais.

Esta fase da gente é uma coisa complicada. O adolescente enxerga muitas possibilidades, mas muitos se dispersam. Precisamos saber que temos direitos e deveres e que, enquanto houver adolescentes pensantes, a sociedade será muito melhor. O município já deu voz ao Nuca nos fóruns comunitários, e queremos ser ouvidos, como prioridade. Somos o futuro, mas somos, principalmente, o hoje.

Minha mãe, que é professora, sempre me influenciou bastante, dizendo que eu poderia ser o que eu quisesse e que eu deveria ir atrás do que acreditava. Ela me dava livros sobre pessoas importantes para eu ler quando eu era pequena. Um dia desses, ela me disse, brincando: ‘parece que tu tá mais inteligente do que eu. Acho que te ensinei demais’”.

E tomara mesmo que Letícia continue aprendendo muito mais! Para encerrar a conversa, ela conta animada que, em 2019, recepcionará os novatos que chegarão à escola. A propaganda para que eles façam parte do Nuca também já está garantida.

Letícia conversa com outros adolescentes numa praça da cidade
UNICEF/BRZ/Pablo Pinheiro

Selo UNICEF

O município de João Câmara está inscrito na edição 2017-2020 do Selo UNICEF, iniciativa do UNICEF voltada a estimular os municípios a implementar políticas públicas para reduzir as desigualdades e garantir os direitos de meninas e meninos previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesta edição, o Selo UNICEF conta com 1.924 municípios inscritos na Amazônia Legal brasileira e no Semiárido, territórios que concentram o maior número de meninos e meninas em situação de vulnerabilidade do País.

Entre as ações que os municípios inscritos no Selo UNICEF devem priorizar, está a implementação de mecanismos de escuta e participação da sociedade (especialmente de crianças e adolescentes) na elaboração e controle social de políticas públicas institucionalizadas. O Núcleo de Cidadania de Adolescentes é um desses mecanismos.

O sucesso do Selo UNICEF é resultado da parceria entre o UNICEF e governos estaduais e municipais por meio da atuação integrada entre diferentes níveis de governo voltados para crianças e adolescentes. A experiência com as edições anteriores comprova que os municípios certificados com o Selo UNICEF avançam mais na melhoria dos indicadores sociais do que outros municípios de características socioeconômicas e demográficas semelhantes que não foram certificados ou não participaram da iniciativa.

Alcançar 1.924 municípios que participam do Selo UNICEF só é possível graças ao apoio de milhares de doadores individuais e de parceiros corporativos como Amil, Instituto Net Claro Embratel, Fundação Itaú Social, RGE, Enel, Coelba, Cosern, Celpe, BNDES, CPFL, Sanofi, Neve, Energisa, Celpa e Cemar.

Mais informações sobre o Selo UNICEF em www.selounicef.org.br.

Janeiro de 2019