"A gente quer ter a força de viver mais um dia, se encontrar. Viva a vida. Viva hoje!"

Bianca* tem 17 anos, vive numa família sorodiscordante e é multiplicadora, em São Luís, do projeto Viva Melhor Sabendo Jovem, de enfrentamento do aumento do HIV/aids entre adolescentes.

UNICEF Brasil
Foto de adolescente. A foto está escurecida para não revelar a identidade da menina.
UNICEF/BRZ/Brenda Hada

01 dezembro 2018

Bianca* tem 17 anos. Seus pais vivem com HIV há 16.

Joana*, irmã mais nova de Bianca, tem 15 anos. Nasceu quando os pais já viviam com HIV, mas não conheciam o tratamento. A menina contraiu o vírus por transmissão vertical, e hoje vive com HIV.

Roberto*, o caçula da família, nasceu quando os pais já estavam em tratamento. A mãe recebeu o apoio necessário durante a gestação, e o menino nasceu sem o vírus.

Viver em uma família sorodiscordante – em que parte vive com o vírus e parte não – fez com que Bianca se engajasse na causa. A adolescente, que mora em São Luís, é multiplicadora do Viva Melhor Sabendo Jovem – estratégia de saúde do UNICEF, Ministério da Saúde e parceiros para ampliar o acesso de adolescentes e jovens ao teste do HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, bem como para o início imediato do tratamento e a adesão, ou seja, permanência no tratamento.

Bianca foi uma das primeiras adolescentes a integrar o projeto, que chegou à sua cidade no início de 2017. No começo, a adolescente não entendia quais ações, na prática, poderia realizar para mudar a percepção da população sobre um assunto. Ela sabia que o tema era importante, envolvia diretamente o bem-estar da própria família. Ao mesmo tempo, tinha consciência de que se engajar significaria lidar com o preconceito da comunidade.

"O fato de eu ter pessoas na família com soropositividade fez com que fosse mais fácil eu entender e me abrir para novas informações. Até então, sabia que a aids era uma doença sem cura. Mas não entendia, por exemplo, que as células de defesa não conseguiam se defender. Uma gripe, para quem vive com o vírus, é duas ou três vezes mais forte do que em uma pessoa que não o tem. E os meus pais, como ficam? A forma que a gente aprende a prevenir é se cuidando e entendendo como os medicamentos funcionam no corpo", conta ela.

Bianca lembra bem os primeiros aprendizados que teve nas capacitações do projeto. "Aprendemos a fazer os testes de fluido oral em nós mesmos. Em cinco minutinhos, saiu um resultado, rápido e certo. A informação ali na frente, coisa que não tínhamos antes. É louco ver como a mente das pessoas pode ser desenvolvida por meio dos projetos sociais", comemora a adolescente.

Com o tempo, Bianca também foi conhecendo outros adolescentes e aprendeu que ela precisava ser proativa para conversar com a população sobre a prevenção do HIV.

Cinco meses de capacitação se passaram, e a adolescente, junto com os 30 primeiros multiplicadores do projeto, vestiu a camisa – que eles próprios desenharam com elementos da cultura local. Passou a visitar as escolas do município e, de forma dinâmica – de jovem para jovem –, abriu debates sobre a importância do respeito a todas as formas de ser e gostar, sobre igualdade de gênero, pertencimento e identidade. Outros temas como drogas, depressão e suicídio também fizeram parte dos diálogos nas escolas por onde passou.

Nas ruas, a atuação é mais orgânica, mas a mensagem é a mesma. "A gente foi para o centro histórico de São Luís, em festinhas, para fazer distribuição de preservativos. A gente apresentava o Camisildo (mascote da campanha), com a cara e a coragem. Se a gente não oferecia a camisinha, eles (jovens) nos procuravam”, conta ela. Bianca comenta que é comum a desinformação e o desconhecimento sobre o uso do preservativo, sobretudo do feminino. Nesses momentos, os próprios multiplicadores indicam o uso correto. “Era uma coisa que ocorria de jovem para jovem e isso fazia toda a diferença. Geralmente, quando a gente chega a um posto de saúde a gente já é mal olhado. Muitos pensam ‘nossa, nessa idade pegando preservativo!’".

Hoje, em São Luís, são cerca de 600 adolescentes e jovens multiplicadores que têm contribuído para tornar a cidade mais inclusiva e protetora de direitos. Além de às escolas, eles vão ao encontro de meninos privados de liberdade, pessoas em situação de rua e que vivem em asilos. Foi também por meio desses adolescentes que o projeto chegou até Pedrinhas, uma comunidade na estrada da BR 135, uma das mais carentes. A escola local foi a última do município a multiplicar o projeto.

Bianca, que também é moradora de comunidade, enfrenta os tabus sociais que a desinformação traz. "Se tu chegas à tua casa e teu pai te vê com preservativo, acontecem brigas, ainda mais em comunidade, com meninas do interior. Isso é só uma pessoa se prevenindo, então deveria ser considerado normal pela sociedade. Lidar com o tema do HIV também não é fácil por conta do grande preconceito. ‘Será que passa pelo toque?’, eles pensam. Muita gente tem medo de comer no próprio talher da pessoa soropositiva", diz a adolescente.

Com essa tomada de consciência, Bianca passou a engajar a família no projeto. Chamou os tios, os primos e a irmã, Joana, que hoje também é multiplicadora do projeto. "Minha irmã pode dar a opinião dela. Pode contar como, vivendo com HIV, quer ser tratada e como se sentiria confortável. Minha irmã diz que quer que as pessoas não tenham medo de abraçá-la".

Feliz, Bianca também conta sobre os esforços da Prefeitura de São Luís para a assinatura do município da Declaração de Paris – compromisso que tem o objetivo de acelerar ações e respostas de cidades do mundo inteiro a epidemia do HIV/aids, até 2030.

No final da conversa, a adolescente lembra um momento memorável, que marcou sua vida. Foi um ano atrás, 1º de dezembro de 2017, Dia Mundial da Aids. Ela e outros jovens criaram um laço humano com as mãos, perto de um dos postos de saúde do município que trata especialmente de adolescentes que vivem com HIV. "A gente fez o laço vermelho, símbolo do HIV. Foi bem marcante porque era um grito de viva para a vida. Era uma mostra de que a gente quer ter a força de viver mais um dia, de querer se encontrar. Viva a vida! Viva hoje, para que a gente possa garantir o próximo encontro com todos os jovens que estão ao nosso redor".

Vida na comunidade e sonhos
A trajetória de Bianca foi marcada por grandes desafios e conquistas. Em 2012, a família saiu de uma casa grande para morar em uma casa própria de um cômodo. Ela lembra que, depois disso, a família passou a olhar mais para o próximo. "Quando a gente mudou foi estranho, porque era um lugar muito diferente da nossa realidade anterior. Depois que cheguei à comunidade, a gente aprendeu o que era a dança cacuriá (dança tradicional de festa junina na cidade) e passei a ver mais crianças brincando e correndo na rua".

Entre as dificuldades que eles enfrentam, estão os alagamentos, que eram comuns dentro de casa. A adolescente dormia na rede da sala e acordava de madrugada para resolver a situação. No local, também não há saneamento e esgoto adequado até hoje. O caminhão de lixo passa longe da sua rua, que é divisa entre duas comunidades.

"Meu sonho mesmo é ajudar a minha família, porque a gente ainda mora no mesmo lugar. Agora, o sonho de querer ser algo na vida, a gente sempre tem. Com o Viva Melhor, fui aprendendo o que eu queria ser e como eu podia ajudar as pessoas com uma certa profissão. A psicologia é uma coisa que eu visualizo bastante. É entender a cabeça da outra pessoa, ver como ela se sente e levar informação".

Viva Melhor Sabendo Jovem

Para enfrentar o aumento do HIV/aids entre adolescentes, o UNICEF no Brasil criou o Viva Melhor Sabendo Jovem. Trata-se de uma estratégia em saúde do UNICEF e seus parceiros para ampliar o acesso de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos ao teste do HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis e o início imediato do tratamento. A iniciativa também tem como prioridades a retenção ao tratamento dos jovens soropositivos e o acesso às informações sobre prevenção.


*Os nomes das personagens foram alterados para preservar sua identidade

São Luís, 1º de dezembro de 2018