“Quando você tem um aconselhador jovem e LGBT, cria uma identificação com o público testado”

Paulo Cléssio, 29 anos, atua como aconselhador em relação às ISTs e comprova que dar o resultado do teste, de jovem para jovem, faz a diferença no campo

UNICEF Brasil
Paulo com a camiseta do projeto Viva Melhor Sabendo Jovem posa para a foto. Ele está num jardim e sorri.
UNICEF/BRZ/Mélanie Layet

03 maio 2019

“Acabei tendo uma relação de risco, alguns amigos também, então a gente combinou de fazer o teste todo mundo junto. Eu tinha 20 anos”, conta Paulo Cléssio. Caminharam juntos para essa jornada e testaram, nas suas próprias peles, o estigma social que está por trás de receber um resultado de HIV/aids e, principalmente, na dificuldade e preconceitos com quem é soropositivo. “Chegamos para fazer os testes e a maioria acabou dando não reagente, ou seja, estava saudável. Mas alguns amigos deram reagente por sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), inclusive positivo para HIV. Pensei que tínhamos que fazer alguma coisa para ajudar”, lembra Paulo Cléssio, hoje, com 29 anos.

Uma trilha que parecia rápida, acabou levantando uma bandeira e motivou Paulo a seguir, em passos largos e determinados, na militância do HIV, que começou quando o jovem tinha 20 anos. Paulo foi atrás de especializações na área para atuar como agente de prevenção, na cidade de São Paulo. Conhecendo melhor as atividades que esse trabalho lhe proporcionaria, o jovem acabou desistindo do curso de enfermagem e ingressou em psicologia. “Eu acabei entrando num Centro de Tratamento e Aconselhamento (CTA), conheci o papel do aconselhador e pensei que pudesse unir meu conhecimento em psicologia social e comunitária na área da saúde”, conta.

Com atuação focada nas ruas, Paulo acredita que projetos que têm a educação entre pares – de jovem para jovem – como parte de suas metodologias fazem a diferença em todas as etapas (abordagem, testagem, aconselhamento e vinculação). “De jovem para jovem, fica bem mais descontraído, você entende o que eles estão falando, frequenta os mesmos lugares, então você cria uma afinidade que fica mais fácil de intervir”, relata.

Paulo conheceu então, em 2018, o Viva Melhor Sabendo Jovem, um projeto do UNICEF, em parceria com o Barong e o Programa Municipal de DST/Aids da Prefeitura de São Paulo. Logo se interessou pela proposta: levar conhecimento sobre as ISTs e testagens aonde a população mais vulnerável está, por meio da educação entre pares, além de poder falar abertamente sobre sexo e sexualidade. “Me chamou atenção porque era algo que eu estava vivendo também e dizia muito respeito àquela situação que eu tinha enfrentado com os meus colegas, da relação de risco”, relembra.

O jovem conseguiu, então, testar na prática o papel de aconselhador quem aconselha sobre novas formas de prevenção de ISTs, bem como dá o resultado dos testes –, uma das atuações mais desafiadoras durante o processo de testagem. “É preciso entender por que o jovem agiu de um jeito ou de outro, compreender e dar o resultado do teste da melhor forma. Até antes do resultado chegar, você está disposto a intervir nessas situações, levando conhecimento para as pessoas”. Muitos meninos e meninas não sabem a diferença de HIV e aids, quais tipos de testes existem, as práticas sexuais, bem como a redução de danos no uso de drogas.

“Acho que o projeto tem o poder de mudança, porque, quando você tem um aconselhador jovem e LGBT, cria uma identificação com o público testado”.

Com uma visão de mundo aberta, Paulo sente que a diferença ocorre nas ruas, no contato com as pessoas e no ambiente que o Viva Melhor Sabendo Jovem proporciona para o público. “O projeto me transforma porque percebo que temos muitas lacunas a ser preenchidas, tanto em conhecimento quanto em enxergar como uma pessoa pode ser parte de algo maior. Acho que conseguimos impactar a vida de outras pessoas de maneira positiva. Me sinto realizado”, comenta.

O jovem reforça que a educação entre pares possibilita um atendimento mais aberto e um ambiente no qual as pessoas se sentem mais à vontade. É no clima de questionamentos como “Ah, você sabe como é, né?”, que Paulo comprova, diariamente, a diferença de conversar de jovem para jovem, sobre ISTs, práticas sexuais, uso de drogas e tratamento. Olho no olho, o jovem ri, abre um sorriso e acena sim com a cabeça.


Sobre o Viva Melhor Sabendo Jovem – O Viva Melhor Sabendo Jovem – uma parceria do UNICEF, com o Instituto Cultural Barong e o Programa Municipal de DST/Aids (PM DST/Aids), da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de São Paulo – tem como objetivo ampliar o acesso de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos aos testes de HIV, sífilis e hepatites B e C, bem como a retenção ao tratamento em caso de positividade do(s) exame(s) e o acesso às informações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Para isso, leva uma van a locais que os jovens mais frequentam, e utiliza a metodologia de educação entre pares, isto é, jovens abordando e orientando jovens. O resultado dos testes é informado em cerca de 30 minutos.