“O dia a dia no campo me torna mais ser humano”

Rawena, 24 anos, é youtuber e nasceu em São Luís, Maranhão, mas foi em São Paulo que fez a mudança de vida que sempre quis.

UNICEF Brasil
Rawena olha para a câmera sorrindo, ela está usando a camiseta do projeto Viva Melhor Sabendo Jovemm.
UNICEF/BRZ/João Gil

21 março 2019

Natural de São Luís, Maranhão, Rawena mudou-se para São Paulo com 21 anos. Largou a casa do pai, com quem sempre morou e dividiu diversos momentos como homem, e partiu em busca de uma nova vida. A viagem foi longa: de São Luís para Bauru, no interior do Estado. Era o começo de uma transformação. Seu primeiro emprego foi como caixa em um restaurante. “Meu uniforme era uma touca, um avental e uma camiseta bem larga. Ficava praticamente um vestido”, diz. Os clientes do restaurante perguntavam para a dona quem era aquela mulher no balcão. “Foi ali que comecei a me transformar, deixei meu cabelo crescer, dei início à transição hormonal, e fui virando a Rawena. Eu sempre quis ser a Rawena”, conta ela.

Com medo de rejeição por parte da família, Rawena só começou a assumir o gênero feminino quando alcançou a maioridade e saiu da casa do pai. “Eu achei que minha família não me aceitaria, apesar de saber que eles sempre me apoiaram. Achei que meu pai não fosse me aceitar como Rawena, mas foi totalmente diferente. Meu pai me ama”.

Depois da passagem por Bauru, a jovem decidiu tentar a vida na capital paulista. Sem muitas bagagens nas mãos, desembarcou em São Paulo e foi morar na casa de uma conhecida, onde tinha de trabalhar exaustivamente. “Era muito sofrido”, relembra Rawena.

Uma noite, enquanto caminhava pelo bairro da Barra Funda, na Zona Oeste da cidade, Rawena se deparou com a equipe do Barong, organização parceria do UNICEF no projeto Viva Melhor Sabendo Jovem. Era o começo de uma nova fase na vida dela. “Eu fui fazer a testagem e conheci a Vera, enfermeira do Barong. Nós mantivemos contato até que ela me mandou uma mensagem com a divulgação dos cursos de formação do projeto. Foi assim que eu entrei para o Viva”, conta.

Em um primeiro momento, Rawena viu o projeto como uma forma de se integrar melhor na cidade, conhecer pessoas novas e mudar sua rotina de trabalho. Mas o Viva lhe trouxe muito mais do que isso. O projeto mudou a forma como a jovem enxerga o mundo e se relaciona com ele. “Eu tinha muito preconceito, achava que com qualquer coisa eu pegaria uma doença. Depois de entrar para o Viva e fazer os cursos, aprendi muitas coisas novas e entendi realmente sobre as IST (infecções sexualmente transmissíveis)”, conta ela.

Rawena relembra um curso em especial, o de comunicação interpessoal, com brilho nos olhos. A jovem, que é youtuber, percebeu quanta diferença seus vídeos tiveram depois das aulas (youtube.com/blogdarawens). “Eu aprendi muito sobre como me expressar, como agir no vídeo, e como fazê-lo melhor. Eu passei a me entender melhor e me identificar mais comigo mesma”.

um grupo de jovens, entre eles, Rawena, posa para um fotógrafo, que aparece de costas na foto. Eles vestem a camiseta do projeto Viva Melhor Sabendo Jovem e atrás deles há balões coloridos azuis e laranjas.
UNICEF/BRZ/João Gil

Vivência no campo
Como multiplicadora do Viva, Rawena tem o papel de abordar as pessoas por meio da educação entre pares – de jovens para jovens – em diversos pontos da cidade. A jovem enxerga o projeto como uma oportunidade de facilitar o acesso às testagens para o público mais vulnerável, principalmente aqueles que vivem com HIV. “Ter acesso fácil é muito importante, porque existem pessoas que têm vergonha de ir para o laboratório, e ali não, a gente já aborda, já conversa e aí a pessoa se sente confiante para fazer o exame”, diz.

Durante sua primeira ação em campo, Rawena foi surpreendida. Ela estava na Cracolândia, área no centro da cidade onde há maior incidência de drogas, e conheceu Wesley*. Preenchendo a ficha de cadastro dele, Rawena começou uma conversa, explicando ao jovem sobre as IST, o HIV e como o teste é realizado. Foi uma conversa boa. Em seguida, Wesley* foi então encaminhado para o local do teste e, depois, para receber o resultado.

Quando voltou, Wesley* entregou uma carta a Rawena, como agradecimento. “Ele fez uma carta de Natal dizendo que eu era uma pessoa maravilhosa e que tinha gostado muito do meu atendimento. Eu fiquei muito feliz, dei um abraço nele, porque aquele ato foi uma forma de carinho. Disse para ele que eles não estão sozinhos, que as pessoas gostam deles”, relembra.

Rawena conta que nem sempre a abordagem no campo faz com que as pessoas sejam convencidas a fazer os testes. Ela relembra que, durante uma atividade na Praça Roosevelt, no centro da cidade, abordou dois jovens. Um queria fazer o teste, o outro não. Rawena não estava entendendo o porquê e se sentiu no meio de um conflito. Depois de alguns minutos de conversa, ela descobriu que os dois haviam tido relações sexuais com a mesma mulher sem o uso de preservativo. “Eu fiquei conversando e percebi que um deles não estava preparado para fazer o teste”, diz. Rawena não insistiu e disse que, quando quisessem, eles poderiam voltar e fazer o teste.

Essas e outras histórias foram ajudando a jovem a entender seu papel no projeto. Em um primeiro momento, ela achou que a prática seria difícil, mas se sentiu bem recebida e foi ganhando confiança. “Depois de cada ação, eu venho aprimorando mais o meu conhecimento, o meu modo de abordar também, eu já consigo entender mais se as pessoas querem fazer o exame”, explica.

A atuação no campo muda a vida das pessoas, e a de Rawena também. Com um simples sorriso no rosto, um “obrigada”, ou até mesmo um abraço, ela sente que está exercendo um trabalho de qualidade. “A cada ação de que eu participo, vejo que as pessoas ficam felizes com o meu atendimento. Depois que elas recebem o resultado, muitas me abraçam e saem satisfeitas”, conta. A jovem lembra que levar o conhecimento para as pessoas faz totalmente a diferença.

“Eu trato todo mundo igual, não existem diferenças.
A convivência com as pessoas e o dia a dia no campo me tornam mais ser humano.”

Rawena, 24 anos

Assim como São Paulo encantou a jovem, Rawena acolhe e ao mesmo tempo se sente acolhida pelas pessoas que aborda e atua no projeto. Ela se sente transformada e hoje carrega consigo uma bagagem de conhecimentos sobre HIV, IST, uso de drogas, mas principalmente de carinho e gratidão por toda a experiência que o território lhe proporcionou.

“Meu pai quer que eu volte para o Maranhão, mas eu não quero, eu gosto de São Paulo. Lá, muita gente conhece o meu passado. Acho que aqui eu sou a Rawena de verdade. A Rawena de hoje é mais ser humano, mais pessoa e mais acolhedora”, conclui.


Sobre o Viva Melhor Sabendo Jovem – O Viva Melhor Sabendo Jovem – uma parceria do UNICEF, com o Instituto Cultural Barong e o Programa Municipal de DST/Aids (PM DST/Aids), da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de São Paulo – tem como objetivo ampliar o acesso de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos aos testes de HIV, sífilis e hepatites B e C, bem como a retenção ao tratamento em caso de positividade do(s) exame(s) e o acesso às informações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Para isso, leva uma van a locais que os jovens mais frequentam, e utiliza a metodologia de educação entre pares, isto é, jovens abordando e orientando jovens. O resultado dos testes é informado em cerca de 30 minutos.