Uma biblioteca no Pará que abre caminhos para os sonhos

O Espaço Cultural Nossa Biblioteca, em Belém (PA), além de ampliar o gosto pela leitura, espera que as crianças e os adolescentes participantes envolvam os colegas e a comunidade nesse novo hábito.

UNICEF Brasil
Crianças e adolescentes em uma biblioteca, sentados em volta de uma mesa redonda
UNICEF/BRZ/Luiz Marques

23 outubro 2017

Era uma vez um menino muito esperto chamado Andrei, de 12 anos. Andrei tirava notas baixas em português e tinha dificuldade para ler e escrever. O grande problema dele com a língua portuguesa era a pontuação. Ah! E como ele tinha raiva dos acentos! Eis que o menino decidiu conhecer a biblioteca comunitária do bairro e sua relação com a língua portuguesa e a leitura mudou para sempre.

A história de Andrei parece com a de Leandra, de Marlon, Rayane, Teresa e de outras crianças e outros adolescentes da periferia de Belém (PA). No bairro em que moram, o único espaço de cultura e lazer é o Centro Cultural Nossa Biblioteca – finalista do Prêmio Itaú-UNICEF em 2017.

Há muitos anos, a biblioteca desenvolve um projeto coordenado com as escolas públicas locais para garantir a aprendizagem.

Na biblioteca, meninas e meninos participam de círculos de leitura, oficinas, rodas de conversas e atividades culturais.

As crianças e os adolescentes também são responsáveis por fazer a mediação de leitura, lendo para outros meninos e meninas, ou para os adultos da comunidade.

O contato com os livros fez a diferença na vida de Andrei e seus colegas. Eles conseguiram superar os desafios na escola, desenvolver o hábito da leitura e melhorar as notas. "Eu tinha muita dificuldade para ler e escrever. Não sabia colocar acento, engolia muito as letras. Aí eu tive contato com os livros e o incentivo que recebi aqui me ajudou. Agora que sou mediador, quero repassar o que aprendi para outras crianças", diz o menino.

Raimundo José Rodrigues de Oliveira é professor de história e presidente do Espaço Cultural Nossa Biblioteca. Ele lembra que a média de leitura do brasileiro é de quatro livros ao ano, um desempenho baixo que cai ainda mais quando falamos de Amazônia. E para resolver essa questão, o projeto da biblioteca comunitária entendeu que precisava fazer os jovens gostarem de ler.

educador sentado à mesa
UNICEF/BRZ/Luiz Marques

"Nós buscamos mais do que dar acesso, queremos promover a leitura. E quando a gente muda o sentido do trabalho para o gosto da leitura, nós vemos as crianças mais alegres, mais capazes dentro da escola", comemora.

Além de ampliar o gosto pela leitura, a biblioteca espera que as crianças e os adolescentes participantes envolvam os colegas e a comunidade de forma geral nesse novo hábito.

"Quando nós fazemos essas mobilizações junto da escola, nós procuramos debater e aprofundar as questões do bairro e tornar a escola mais ampla, que se junte ao resto da comunidade e possa garantir um futuro melhor para todos. Hoje nós queremos construir um bairro de leitores", diz.

Uma biblioteca que muda vidas

Leandra tinha 6 anos quando começou a frequentar o Espaço Cultural Nossa Biblioteca. Ela não gostava de ler e não tinha boas notas em português. Hoje, aos 13 anos, com o livro em mãos, Leandra vai mostrando as imagens e contando a história que leu naquelas páginas. Na biblioteca, a menina é mediadora de leitura e explica que realiza essa atividade para um público de todas as idades, inclusive adultos.

"A gente está incentivando nossos pais a ler, porque eles fazem de tudo para a gente estudar e, às vezes, eles não tiveram essa oportunidade. Agora eles estão visitando uma biblioteca e vendo a gente mediar, imagino que seja muito emocionante para eles."

Marlon, 16 anos, sempre busca levar os amigos para dentro da biblioteca, como uma forma de saírem da rua. "A gente traz todo mundo pra cá para ler, discutir, assistir a filmes. Depois que eu vim pra cá, meu círculo de amizades é diferente", diz.

Já Teresa cresceu frequentando o espaço cultural e aprendendo dentro de casa sobre a importância da leitura. A jovem de 18 anos acaba de passar no vestibular para Letras e acredita que o adolescente tem mais possibilidades de leitura por causa da internet.

"Todo mundo aqui tem a possibilidade de ler alguma coisa sem ter que ir à biblioteca. E eu acho que o adolescente tem mais incentivo. A gente vê a influência dos livros nos jogos, filmes ou nas novelas, quando a gente se interessa, sai para procurar mais a fundo sobre o que eles estão falando", comenta.

Menina pegando livro na estante da biblioteca
UNICEF/BRZ/Luiz Marques

Para o professor e presidente do espaço cultural, Raimundo José Rodrigues de Oliveira, desenvolver a leitura das crianças ajuda na compreensão da realidade na qual estão inseridas. Dessa forma, elas passam a investir no lugar onde moram.

"Leitura, para nós, é um elemento fundamental para a construção da cidadania e de um cidadão mais ativo, que possa atuar do processo de transformação da cidade, construir, ter ideias, colaborar e se juntar à sua comunidade e dar um sentido diferente para o seu existir", conclui.