Quando estar na escola é a esperança de sair da miséria

UNICEF e parceiros encontraram Yasmin e suas irmãs e levaram-nas para a escola. Agora, elas têm a chance de romper o ciclo do analfabetismo e ter uma vida diferente da de sua mãe e sua avó.

UNICEF Brasil
avó, mãe e filhas em frente de sua casa no Semiárido baiano
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

09 Abril 2018

"Eu tive 13 filhos, cinco faleceram, ficaram oito. Nenhum deles teve estudo. Nem eles, nem eu. Naquela época, tudo era difícil. Eu tive que colocá-los na enxada desde cedo para trabalhar na roça. Aí, eles perdiam a escola. Não existia outro jeito, eles tinham que trabalhar, tinham que sobreviver".

Sentada ao lado da filha e de quatro netas, Silvania Maria de Jesus, 59 anos, se emociona ao contar a saga dessas mulheres, esquecidas no meio do sertão baiano, na zona rural de Euclides da Cunha (BA). A fome e a seca fazem parte da rotina. Nesse dia, o gás tinha acabado, e com ele o dinheiro para o novo bujão. Lá se foi Silvania cortar lenha. O fogão improvisado voltou a funcionar, o almoço da família não podia esperar.

Silvania está cansada, são muitos anos sobrevivendo à pobreza. "Criei todos os meus filhos aqui. Meu corpo é assim, magrinho, porque eu nunca deixei de lutar. Sou analfabeta e hoje estou pelejando para aprender meu nome direito. Só sei escrever até o meio, mas eu estou lutando para aprender".

O tempo está mais ameno naquela tarde, parece que a chuva finalmente vai cair no sertão. As mulheres estão sentadas na sala da pequena casa de Simone dos Santos, filha de Silvania. As paredes de tijolo aparente foram erguidas por um primo. "Ele viu a miséria da minha filha e fez a casa para ela", explica a mãe. Ainda faltam alguns pedaços da casa, que ficaram por construir quando o pouco dinheiro acabou. As paredes do fundo e um pedaço do teto ainda não estão lá. No lugar deles, algumas cortinas improvisadas. Quando a chuva chegar, vai cair dentro do quarto das meninas e molhar os poucos brinquedos que ali estão.

Menina brinca com seus bonecos
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

Falando baixinho, com as filhas no colo, Simone sorri e explica: "a gente vai levando a vida". A trajetória da jovem se confunde com a da mãe. Hoje com 24 anos, mãe de quatro meninas, Simone também não sabe ler e escrever.

"Eu tinha muita vontade de estudar para ter alguma coisa na vida. Cheguei a ir para a escola, mas parei quando tive minhas filhas. Tive a primeira com 14 anos. Foi nessa época que deixei de estudar".

Naquele canto do sertão, as trajetórias dessas mulheres se repetem, em um ciclo de analfabetismo, gravidez precoce e miséria. Silvania está em sua luta diária para cuidar da família, Simone não tem mais sonhos para si.

Mas as duas mulheres se olham e sorriem quando falam da nova geração. As netas de Silvania, filhas de Simone, agora estão na escola. E o ciclo de pobreza pode ser quebrado.

Quando uma criança é encontrada e volta à escola, toda uma família vai com ela
Em janeiro de 2018, a família recebeu a visita da Busca Ativa Escolar. Trata-se de uma iniciativa do UNICEF, em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), os para encontrar e levar para a escola crianças e adolescentes que estavam fora dela. Por meio de uma plataforma gratuita e uma tecnologia social, o UNICEF apoia os municípios para que organizem equipes com representantes das áreas – Saúde, Educação, Assistência Social, entre outras – para encontrar esses meninos e essas meninas, entender as causas da exclusão escolar e garantir não só a matrícula deles na escola, mas também a permanência na sala de aula, a aprendizagem e o sucesso escolar.

O município de Euclides da Cunha está participando da edição 2017-2020 do Selo UNICEF. Ao se inscrever no Selo, os municípios se comprometem a implementar políticas públicas para redução das desigualdades e garantir os direitos das crianças e dos adolescentes.

O município em que a família de Silvania vive também fez adesão à proposta de Busca Ativa Escolar do UNICEF e saiu a campo para encontrar cada uma das crianças e cada um dos adolescentes excluídos. Nessa busca, Lucijane Neves, coordenadora operacional da iniciativa no município, e Marly Matos, vice-diretora da escola da região (EM Luís Valeriano Dias), souberam que ali no sertão havia crianças fora da escola e com baixa frequência escolar, e foram até lá.

Crianças saem do transporte escolar em frente à escola
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

"Eu fiquei muito feliz quando elas chegaram aqui em casa e disseram que havia vaga para a Yasmin na escola. No começo, eu estava com medo de ela ir. Aí explicaram que a escola era boa, que daria boa educação, e coloquei ela. Achei que ela gostaria e realmente aprenderia na vida", diz Simone.

Yasmin está com 4 anos, idade a partir da qual a Educação é obrigatória no Brasil. A mãe não tinha muita informação e não pensava em matriculá-la por enquanto, queria que a menina crescesse um pouco mais. As duas irmãs mais velhas, Nicole (5 anos) e Mikaele (10 anos), estavam matriculadas, mas faltavam bastante às aulas e estavam em risco de evadir.

A equipe da Busca Ativa Escolar fez a matrícula de Yasmin na hora e orientou a família sobre a importância da frequência escolar das três meninas. "Sabíamos que, para aquelas meninas, estar na escola era a chance de escrever um futuro diferente", diz Marly. "E não podíamos perdê-las. A partir daquele dia, passamos a acompanhar de perto as três para que não deixem a escola".

Professora faz pintura com suas alunas
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

O apoio próximo da Busca Ativa Escolar está dando resultados. "Agora minhas três meninas já estão na escola. Só falta esta pequena aqui, a Luciene, de 7 meses. Agora entendi que, quando ela tiver com 4 anos, tenho que matriculá-la também", diz Simone.

Ao ver a filha falar convicta sobre a educação das netas, dona Silvania se emociona novamente. O acesso das meninas à escola é a prova de que ela não viveu em vão. "Nós não estudamos. É a causa da nossa fraqueza. O meu prazer é ver estas netinhas na escola, formadas, para amanhã e depois sobreviver, ter o pão de cada dia e poder dar uma vida melhor para a mãe delas. Sei que um dia vou ouvir elas dizerem ‘eu vou dar essa alegria à minha avó, que lutou tão bem por mim’".

Sobre o Selo UNICEF
O município de Euclides da Cunha (BA) está participando da edição 2017-2020 do Selo UNICEF. Ao se inscrever no Selo, os municípios se comprometem a implementar políticas públicas para redução das desigualdades e garantir os direitos das crianças e dos adolescentes previstos na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Entre os resultados esperados, está a implementação da Busca Ativa Escolar, voltada à inclusão e acompanhamento de crianças e adolescentes na escola.

Para saber mais, acesse http://selounicef.org.br/

Sobre a Busca Ativa Escolar
A Busca Ativa Escolar é uma plataforma gratuita para ajudar os municípios a combater a exclusão escolar, desenvolvida pelo UNICEF em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

A intenção é apoiar os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. Por meio da Busca Ativa Escolar, municípios e estados terão dados concretos que possibilitarão planejar, desenvolver e implementar políticas públicas que contribuam para a inclusão escolar.

A Busca Ativa Escolar reúne representantes de diferentes áreas – Educação, Saúde, Assistência Social, Planejamento – dentro de uma mesma plataforma. Cada pessoa ou grupo tem um papel específico, que vai desde a identificação de uma criança ou adolescente fora da escola até a tomada das providências necessárias para a matrícula e a permanência do aluno na escola. Todo o processo é feito pela internet e a ferramenta pode ser acessada em qualquer dispositivo como computadores de mesa, computadores portáteis, tablets, celulares (via SMS ou aplicativo para smartphones). Há também formulários impressos para agentes comunitários e técnicos verificadores que não têm acesso a dispositivos móveis.

Euclides da Cunha, abril de 2018