O lugar onde crianças aprendem que podem pedir ajuda
Em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, mulheres indígenas criam ambientes de escuta e acolhimento que ajudam crianças e adolescentes a reconhecer violências, conhecer seus direitos e fortalecer a proteção comunitária
No início, Odimara Ferraz Matos acreditava que um espaço seguro precisava ser uma construção: um lugar grande, com jogos, livros e atividades para crianças e adolescentes. Foi durante uma formação, em Manaus, que a indígena da etnia Tukano começou a compreender que o conceito ia muito além de um espaço físico. “Eu fui entendendo que o espaço seguro falava da gente. Falava da própria comunidade”, conta.
Aos 35 anos, Odimara é coordenadora local do projeto desenvolvido pelo Instituto Amazônia Açu (IAÇU), parceiro do UNICEF na implementação dos Espaços Seguros em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas. Natural de Iauaretê, iniciou sua trajetória na iniciativa como mentora, indicada pela Associação das Mulheres Indígenas do Distrito de Iauaretê, a AMIDI. Ao longo desse percurso, tornou-se uma figura-chave na territorialização da metodologia, aproximando-a da realidade das comunidades e contribuindo para que pudesse ser adaptada a diferentes contextos.
Hoje, além de conduzir atividades com crianças e adolescentes, ela apoia a formação de outras mulheres indígenas para que a metodologia alcance diferentes comunidades. “Cada comunidade tem uma forma de viver e é bem diferente. Em cada ida, eu tento adaptar a metodologia de acordo com a comunidade”, explica.
Escutar o que os adultos nem sempre conseguem ver
Localizado na região do Alto Rio Negro, próximo às fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, São Gabriel da Cachoeira é o terceiro maior município do Brasil em extensão territorial. São mais de 109 mil km², que reúnem uma das maiores diversidades de povos e línguas indígenas do Brasil, com 23 etnias. Rios, florestas e grandes distâncias fazem parte da vida cotidiana. O deslocamento entre comunidades pode levar horas ou dias, dependendo do transporte fluvial e das condições climáticas. As limitações de conectividade e de acesso a serviços públicos também tornam mais difícil acionar as redes de saúde, educação e proteção.
É nesse contexto que os Espaços Seguros são desenvolvidos. Mais do que locais específicos, eles são ambientes de confiança, convivência e participação, nos quais crianças e adolescentes podem conversar sobre seu cotidiano, reconhecer situações de violência e identificar pessoas e instituições que podem ajudá-los. “O espaço seguro é onde uma criança, um menino ou uma menina, se sente acolhida. É um espaço onde a gente vai estar reunido para falar sobre a vida das crianças e sobre o cotidiano da comunidade”, diz Odimara.
Por meio de conversas, dinâmicas e mapas mentais, meninas e meninos refletem sobre seu dia a dia, seus sonhos e os lugares em que se sentem protegidos. Uma casa, uma escola, uma maloca, uma associação ou uma pessoa da família podem ser reconhecidas como referências de proteção. Mas as atividades também mostram que um lugar considerado seguro por uma criança pode não ser percebido da mesma forma por outra. “Uma criança vai dizer: ‘Minha mãe é um espaço seguro, meu pai é um espaço seguro, minha casa é um espaço seguro’. Outra criança pode dizer: ‘Minha casa não é um espaço seguro, porque isso está acontecendo dentro dela’”, explica.
Crianças que se acolhiam
Uma das experiências que mais marcou Odimara aconteceu em sua própria comunidade. Nos fins de semana, ela observava um grupo de crianças levando lençóis e alimentos para brincar juntas. Algumas permaneciam no local durante toda a noite. Durante muito tempo, aquilo pareceu apenas uma brincadeira.
A compreensão mudou quando Odimara realizou as atividades dos Espaços Seguros com o grupo. Ao falar sobre proteção, algumas crianças explicaram que permanecer juntas era uma maneira de se acolher. Em determinadas casas, havia conflitos relacionados ao consumo de álcool. Em outras, faltava comida. Enquanto os adultos não percebiam a dimensão do problema, as próprias crianças compartilhavam alimentos e procuravam proteger umas às outras. “Eu perguntava: ‘Quando vocês brincam lá fora, vocês acham que é seguro?’. E elas diziam: ‘É porque a gente está se acolhendo’”, recorda.
A escuta permitiu identificar situações de negligência, insegurança alimentar e faltas frequentes à escola. A partir disso, Odimara e outras lideranças conversaram com a comunidade e começaram a buscar formas de responder às necessidades reveladas pelas crianças. “Essa experiência mexeu muito comigo. Como é que a gente, como adulto, não enxerga as coisas que acontecem? Elas conseguiram mostrar uma situação que estava acontecendo e que a comunidade inteira não percebia”, afirma.
Para preservar a segurança e a privacidade das crianças, seus nomes e a comunidade onde vivem não são identificados.
Da escuta à proteção
O trabalho não termina quando uma criança ou um adolescente relata uma dificuldade. Durante as atividades, os participantes também conhecem a rede de proteção e refletem sobre os caminhos que podem ser acionados diante de uma situação de violência, tanto em nível comunitário quanto nas sedes municipais.
Nas comunidades, essa rede começa nas relações de confiança que já existem no território: familiares, lideranças comunitárias e religiosas, professores, profissionais de saúde, equipes do DSEI, associações e organizações indígenas. Na sede municipal, estão o Conselho Tutelar, o CRAS, o CREAS, a Secretaria de Saúde e outros órgãos formais do sistema de garantia de direitos. Acessá-los muitas vezes exige longos deslocamentos pelo rio, o que reforça a importância de fortalecer os vínculos e os caminhos de proteção do nível comunitário ao municipal.
Meninos e meninas participantes dos Espaços Seguros ajudam a identificar os principais problemas e a construir propostas sobre como gostariam de ser apoiados. As demandas podem resultar em conversas com lideranças, atividades nas escolas ou articulação com serviços públicos. “Eles entendem o que é uma violência e constroem um fluxo de como proceder. Os próprios adolescentes encaminham isso para a liderança e dizem como querem ser atendidos”, conta Odimara. “A gente fala para os mais jovens: vocês têm o poder de dizer o que querem e como querem que esse assunto seja trabalhado.”
Antes do início das atividades, a proposta é apresentada às lideranças, e crianças e adolescentes ajudam a escolher os lugares onde se sentem mais à vontade para conversar. Na sede de São Gabriel da Cachoeira, as escolas se tornaram pontos estratégicos para reunir os participantes. Nas comunidades, os encontros também podem ocorrer em malocas, áreas comunitárias ou espaços próximos à natureza. Em cada território, a metodologia é adaptada à realidade local. “Eu não posso chegar a outra comunidade e dizer: ‘Vocês vão trabalhar assim’. Na formação das mentoras, eu coloco cada uma para refletir sobre como vai trabalhar a partir da realidade da sua comunidade”, explica.
Mulheres que multiplicam proteção
As mulheres indígenas desempenham um papel essencial nessa rede. A metodologia é desenvolvida em parceria com o Departamento de Mulheres da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (DMIRN) e com organizações e associações de diferentes territórios. “As nossas mentoras são todas mulheres”, afirma Odimara. “Uma mãe, uma mulher, tem vários elos para entender as problemáticas, as soluções e o futuro de uma criança.”
Além do trabalho comunitário conduzido pelas mentoras, a metodologia é aplicada com profissionais de saúde e educação. Nesses contextos, professores, técnicos do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) e outros profissionais, incluindo homens, também atuam como mentores e ampliam o alcance da proteção. A abordagem ainda inspirou iniciativas em outras áreas, como o enfrentamento ao casamento infantil e a proteção de mulheres indígenas.
Ao longo dos últimos anos, os Espaços Seguros chegaram a diferentes territórios do Amazonas por meio de parcerias com organizações indígenas, serviços de saúde e redes de ensino. Mais de 16 mentoras comunitárias concluíram os ciclos de formação, assim como mais de 50 agentes indígenas de saúde e 54 profissionais da educação. Em experiências anteriores, 678 adolescentes participaram de Espaços Seguros na região do Rio Negro e no Alto Rio Solimões. Mais recentemente, no âmbito do projeto apoiado pelo MPTF, as atividades alcançaram mais de 519 estudantes da rede municipal e 60 da rede estadual em São Gabriel da Cachoeira. Outras 270 meninas e meninos participaram de encontros comunitários conduzidos por mentoras.
Esse alcance se distribui por diferentes territórios do Amazonas. No nível comunitário, a metodologia foi desenvolvida em Manaus, no bairro Colônia Antônio Aleixo; em Barcelos, na comunidade Yanomami Cachoeira do Aracá; e em São Gabriel da Cachoeira, na comunidade Yanomami de Maturacá e no Triângulo Tukano, em Pari-Cachoeira, Taracuá e Iauaretê. Por meio do DSEI Alto Rio Solimões, chegou a comunidades de Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá e Santo Antônio do Içá. Nas escolas, a parceria com a SEDUC alcançou Cucuí e Assunção do Içana; com a SEMEDI, as atividades chegaram a Assunção do Içana e a três escolas da sede de São Gabriel da Cachoeira. Experiências anteriores também foram realizadas com a Associação de Mulheres do Alto Rio Negro (AMARN), em Manaus, no Triângulo Tukano, na Terra Indígena Yanomami e nas comunidades de Umariaçu I, Umariaçu II e Belém do Solimões.
Para Odimara, proteger a infância indígena também significa proteger o território e a biodiversidade que sustenta a vida das comunidades. A floresta, os rios e as áreas comunitárias são fontes de alimento e espaços de aprendizagem, onde conhecimentos sobre plantas, animais, ciclos da natureza e formas de cuidado são transmitidos entre gerações. “O que a natureza nos oferece e o que a gente está fazendo com ela têm uma conexão direta com o nosso território, com a alimentação e com o dia a dia”, afirma.
Uma metodologia construída em parceria
A iniciativa dos Espaços Seguros é apoiada pelo UNICEF e construída com organizações indígenas e instituições públicas, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), seu Departamento de Mulheres (DMIRN), o Instituto Amazônia Açu (IAÇU), a Rede de Mulheres Makira E’ta, a AMIDI, a AMARN, escolas municipais e estaduais em São Gabriel da Cachoeira, DSEI Alto Rio Solimões e associações comunitárias.
Ao longo da trajetória, a metodologia também contou com apoio de associações indígenas de diferentes territórios, como a Associação de Mulheres Yanomami Kumirãyõma (AMYK), as associações Yanomami Parawame, Xoromawe e do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA), a Associação dos Artesãos Indígenas (ASSAI) e a Associação Indígena de Barcelos (ASIBA). Do poder público, o DSEI Alto Rio Negro, a Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira, o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e o Conselho Tutelar de São Gabriel da Cachoeira.
Os aprendizados acumulados no Amazonas deram origem ao Guia Metodológico de Espaços Seguros para Meninas e Meninos em Territórios Indígenas, lançado em setembro de 2026. A publicação reúne orientações para que organizações indígenas, gestores públicos e organizações da sociedade civil possam implementar ou adaptar a abordagem em outros territórios.
O Guia e as ações dos Espaços Seguros integram o projeto “Proteção Integral e Promoção dos Direitos de Crianças, Adolescentes e Jovens Indígenas na Amazônia Legal Brasileira”, realizado no âmbito do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (MPTF, na sigla em inglês). Coordenado pelo UNICEF e implementado em parceria com outras seis agências das Nações Unidas, o projeto promove ações nas áreas de saúde, educação, proteção contra violências, participação e fortalecimento da governança territorial.
Essa abordagem também se conecta aos objetivos do MPTF Amazônia de valorizar os conhecimentos indígenas, fortalecer a participação das populações da região e promover a proteção dos territórios e da biodiversidade.
Para Odimara, o apoio recebido permitiu transformar uma experiência iniciada em sua comunidade em uma rede de mulheres capazes de multiplicar conhecimentos e fortalecer a proteção de crianças e adolescentes. “Eu aprendi uma coisa e hoje estou compartilhando com outras mulheres como trabalhar”, conta. “Quando a gente trabalha junto, as coisas acontecem.”
Ao acompanhar crianças e adolescentes desenhando seus mapas dos sonhos, Odimara reconhece neles desejos que também fizeram parte de sua infância. “Eu espero que cada uma dessas crianças que quer ser professora, doutora ou médica chegue lá e possa pegar um diploma”, diz. “O que me emociona é tentar lutar pela vida de todas as crianças e acompanhá-las para que tenham um futuro melhor.”