UNICEF apoia municípios do Centro-Sul do Ceará na prevenção de violências contra crianças e adolescentes
A mobilização responde a uma demanda dos municípios em decorrência do aumento recente da violência armada na região. Objetivo é fortalecer redes de proteção qualificadas para a notificação e gestão dos casos de violência
Fortaleza, 8 de outubro de 2026 – O UNICEF visitou o Centro-Sul do Ceará, entre 29 de setembro e 2 de outubro, para apoiar municípios da região na implementação de uma metodologia que responda, de forma célere e eficaz, às violências contra crianças e adolescentes, a partir de um trabalho conjunto envolvendo diferentes áreas da gestão pública. As atividades partem de demandas dos próprios municípios e articulam estratégias já desenvolvidas pelo UNICEF, como o Educação que Protege, a boas práticas de outros territórios. Esse primeiro momento foi de escuta e diagnóstico com profissionais de Saúde, Educação e Assistência Social.
“Essa reunião começou com o feminicídio de uma adolescente aqui na região. Nós percebemos que tinha algo mais a ser feito”, disse Rui Aguiar, chefe do escritório do UNICEF em Fortaleza, durante conversa com representantes da gestão municipal de Piquet Carneiro. O município é um dos nove que compõem a iniciativa piloto para fortalecer um trabalho integrado da rede local de proteção. Também participam Acopiara, Cedro, Deputado Irapuan Pinheiro, Milhã, Mombaça, Pedra Branca, Senador Pompeu e Solonópole.
“Esse é um primeiro momento de escuta para entender como os municípios estão se organizando na prevenção e resposta às violências. Estamos construindo uma metodologia, juntos, para a gestão de casos de violência com foco em proteger crianças e adolescentes”, explicou Madeline Abreu, oficial de Proteção do UNICEF em Fortaleza.
Boa prática de Beberibe é ponto de partida para outros municípios
A proposta de trabalho apresentada pelo UNICEF parte da experiência de Beberibe, município litorâneo do Ceará, no enfrentamento às violências. A partir da identificação de um cenário de subnotificação das violências, a gestão municipal reorganizou sua rede de proteção, desenvolvendo instrumentos compartilhados de registro e acompanhamento das violações. Para isso, criou um sistema unificado de notificações de violências, a Ficha Municipal de Violência Interpessoal e Autoprovocada e um núcleo de gestão e acompanhamento dos casos.
A experiência foi sistematizada pela Associação para o Desenvolvimento dos Municípios do Estado do Ceará (APDMCE) e pela prefeitura do município, com apoio técnico do UNICEF. Agora, a iniciativa inspira a construção de uma metodologia que poderá ser adaptada às realidades de outros municípios.
"A maioria dos casos de violência começa na negligência e vai escalando até os casos extremos de mortes de crianças e adolescentes, então percebemos que precisávamos de uma rede local de proteção que fizesse a notificação e a gestão desses casos. Isso foi o município que nos mostrou", reforçou Rui Aguiar. "Queremos ampliar a nossa capacidade de resolução dos casos", acrescentou.
Cedro, Piquet Carneiro e Solonópole sediaram, de 29/9 a 1º/10, rodas de escuta com conselheiros municipais da infância e adolescência e com técnicos das Vigilâncias de Saúde, Educação e Assistência Social das nove cidades participantes do piloto. Os encontros foram articulados por UNICEF e APDMCE. Um dos principais desafios é transformar a notificação das violências em uma prática institucional, que não dependa apenas da iniciativa individual dos profissionais, para tornar o fluxo de respostas mais rápido e proteger vítimas e profissionais da rede.
As escutas vão subsidiar os próximos passos do trabalho para a construção de soluções que ampliem a capacidade dos municípios de identificar, acompanhar e responder às situações de violência. O UNICEF deve realizar, ainda neste ano, uma rodada de capacitações com os profissionais da região para a construção conjunta desse plano de trabalho.
Uma escola que protege
A importância da atuação integrada também orienta o programa Educação que Protege, outra iniciativa em fase inicial de implementação, que contempla 15 municípios do Brasil, sendo quatro no Ceará: Piquet Carneiro, Quixadá, Salitre e Caucaia.
Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, Piquet Carneiro também recebeu o UNICEF em atividades para apoiar a construção de estratégias de prevenção e enfrentamento das violências que atingem o ambiente escolar. A programação incluiu visitas e conversas com professores e gestores de três das cinco escolas que participarão da iniciativa no município: Escola Pingo de Gente, Escola São Sebastião e Escola Mestre Júlio. As unidades também são atendidas pelo programa Previne, do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).
“A ideia é fazer uma autoavaliação do que os municípios estão fazendo. Muitas vezes, a gente não tem tempo de parar e avaliar o que está sendo feito. A violência não é um problema só da escola. Sozinha, a escola não vai conseguir resolver essa questão”, destacou Nilson Silva, oficial de Educação do UNICEF em Fortaleza. Segundo ele, a proposta é estimular os municípios a avaliarem suas próprias práticas, identificando o que já funciona e os aspectos que precisam ser aprimorados.
Durante a formação, representantes municipais conheceram a matriz de autoavaliação das capacidades das redes para uma educação que protege. A ferramenta busca apoiar a identificação de potencialidades, desafios e oportunidades de melhoria, orientando a construção de uma mandala que represente a atuação de cada município na prevenção e na resposta às violências.
Calendário de prevenção de violências deve ser permanente
Para Polimnia Cassimiro, consultora nacional do Educação que Protege, a iniciativa possibilita a ampliação do intercâmbio de experiências entre os municípios. “O que a gente percebe é que os municípios estão atuando bastante, mas não têm conhecimento de práticas de outros municípios que podem ajudar nesse trabalho”, afirmou.
A consultora defendeu a importância de olhar para a escola como um espaço que integra a comunidade e que precisa de acolhimento e apoio para lidar com as violências. “Nós queremos trazer o tema da educação que protege e da prevenção da violência para a institucionalidade, para ser algo mais naturalizado no nosso discurso, e não apenas em datas específicas”, acrescentou.
Erick Rastelli, consultor da estratégia no Ceará, ressaltou que a matriz permitirá identificar áreas que precisam de maior investimento e outros atores que podem contribuir para a rede de proteção. A proposta é que cada escola desenvolva estratégias de acordo com seus próprios desafios, reconhecendo que a prevenção das violências exige a participação de diferentes setores.
Após essa etapa inicial, os 15 municípios participantes do Educação que Protege deverão integrar comunidades de prática, com encontros virtuais quinzenais e acompanhamento técnico do UNICEF. A proposta é reunir gestores escolares, professores e representantes das áreas de Educação, Saúde e Assistência Social para compartilhar experiências, discutir desafios e construir soluções coletivas.
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