“Eu quero influenciar outros adolescentes a não desistir da escola”

Gustavo desistiu da escola e acabou repetindo o 7º ano, mas deu a volta por cima e descobriu o gosto pelos estudos. Desde então, por onde passa, incentiva outros estudantes a continuar na escola e aprender.

UNICEF Brasil
Adolescente com uma camiseta azul onde está escrito 'fora da escola não pode' sorri para a câmera. Ele está ao lado de uma estante de publicações e na frente de uma divisória de vidro.
UNICEF/BRZ/Brenda Hada

30 Agosto 2018

Gustavo Sathler Diniz Barteles, 16 anos, nasceu e cresceu em Vila Velha, no Espírito Santo. Todos os dias, ele percorre de ônibus o caminho até Vitória, capital do Estado, para chegar à escola no período da tarde. O trajeto de duas horas faz parte do esforço diário do adolescente para garantir seu direito de aprender. Além de a escola, Gustavo frequenta, duas vezes na semana, um cursinho pré-vestibular na capital e enfrenta o trânsito carregado da região metropolitana para voltar para casa. Na agenda, há espaço, ainda, para participar dos diálogos temáticos da Plataforma de Centro Urbanos – estratégia do UNICEF para promover os direitos de cada criança e adolescente, com forte participação dos próprios adolescentes –, em Vitória, e falar sobre o direito de todos à educação.

O esforço para se manter na escola faz parte das lembranças de Gustavo “desde que se entende por gente”, como diz. Ele teve uma vida marcada por várias mudanças de casa. Os pais se separaram cedo, mas sempre se fizeram presentes na vida do adolescente. Já na escola, o menino não encontrou o mesmo acolhimento.

Gustavo conta que experimentou a falta de infraestrutura das escolas por onde passou e a desmotivação de alguns professores. “Eu ia da escola pública para a privada, da privada para pública. A matéria toda ficava complicada de entender. Havia escolas em que os professores não tinham um compromisso com o aluno. Não existia um laço entre estudante e professor”, conta o adolescente.

Tantos problemas fizeram com que Gustavo perdesse o interesse pelos estudos. “Eu estava bem atrasado nos conteúdos e comecei a ‘matar’ muitas aulas. Eu me deixei levar pelas influências de outros na escola. Depois, eu é que passei a ser uma má influência. Para mim, estar na escola era muito chato. Eu não via o porquê de ir para lá. Essa foi a única vez na vida em que eu desisti de alguma coisa”, conta.

Era 2015, Gustavo tinha 13 anos, e foi reprovado no 7º ano do ensino fundamental.

Foi então que aconteceu a grande virada. Gustavo foi morar com o pai em Vitória, capital do Estado, e lá encontrou uma escola da rede pública, a EMEF Álvaro de Castro Mattos, que ele descreve como “a melhor escola da vida”.

“Foi uma escola em que me acolheram, em que eu vi que era importante estudar.
Passei a ter mais gosto de estudar.”

Tanto a gestão escolar, quanto professores e colegas de turma tiveram papel essencial nessa adaptação.

Um ano depois, o pai de Gustavo veio a falecer. Na época, o adolescente ficou emocionalmente abalado, chegando a ter dificuldades na escola. O que fez com que ele não desistisse foi a própria figura do pai, que era policial militar e no qual o menino se espelhava para manter-se firme em seus objetivos – “eu queria honrar a memória dele”.

“Meu pai sempre falou ‘eu nunca tive o que você tem hoje, então aproveite ao máximo’”, explica o adolescente. “‘Enquanto você está aqui, estudando, existe gente que nem isso tem’. Essa é uma frase do meu pai que vou guardar a minha vida inteira. Todos deveriam ter esse mesmo direito”, ele diz.

Decidido a fazer diferente e influenciar outros adolescentes, Gustavo defende uma escola em que possa haver aulas mais dinâmicas, conectadas, que promovam novas experiências e que tenham espaços livres para debate. Ele acredita na figura do professor como alguém que pode mostrar o lado bom de aprender conteúdos aparentemente afastados da realidade nas comunidades.

Nas ações do UNICEF, Gustavo também tem contribuído com o debate sobre temas que impactam sua geração e ultrapassam a sala de aula, como o trabalho infantil, a violência doméstica e a criminalidade nas periferias, por meio de sua participação nos diálogos temáticos da Plataforma de Centro Urbanos, na região metropolitana de Vitória. Ele também esteve no “Seminário Promoção de Trajetórias de Sucesso Escolar", promovido em agosto de 2018, em Brasília, pelo UNICEF e o Ministério da Educação, com apoio da Samsung e, lá, fez questão de perguntar sobre a situação do trabalho infantil no Brasil. No País, 6,2% das crianças e dos adolescentes de 5 a 17 anos exercem trabalho infantil doméstico ou remunerado.1

Hoje, Gustavo traça o objetivo de entrar no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES). Quer ser veterinário, um sonho de infância, e continuar sendo exemplo para meninas e meninos. “Eu quero influenciar outros adolescentes a estudar também. Quero compartilhar minhas ideias justamente para poder ajudar, ao máximo, a tirar as pessoas da rua e levá-las de volta para a escola”, ele conclui.

1 – Dados estão apresentados no relatório do UNICEF “Pobreza na Infância e na Adolescência”, de agosto de 2018.