Busca Ativa Escolar leva filho e mãe de volta às salas de aula

Na busca pelo adolescente ausente, estratégia leva mãe e filho de volta à escola e resgata sonhos

UNICEF Brasil
09 dezembro 2020
mãe e filho posam para foto. o menino está de máscara
Arquivo pessoal

Após um grande número de faltas, Douglas Batista de Sousa, 16 anos, perdeu a vaga na escola em que estudava, na periferia de Fortaleza (CE), em 2019. As ausências não eram por acaso: abalada por ter perdido um filho para a violência no antigo bairro em que moravam, Maria das Dores, mãe de Douglas, entrou em depressão. Além de não ter forças para reagir naquele momento, o medo que sentia pelos outros dois filhos fez com que ela os mantivesse em casa. Ademais, Douglas é autista e toma remédios fortes, que o fazem acordar tarde, interferindo nos horários da escola.

A mãe, mesmo em meio às dificuldades, reconhece o valor da educação e sempre fez o possível para que os filhos estudassem. “Eu nunca estudei, aprendi as letras numa cartilha do abc que ganhei de uma vizinha quando era pequena e uma prima me ensinou a fazer meu nome. Quando a gente é criança, precisa do interesse de algum adulto pra matricular na escola, mas não tiveram esse interesse”, recorda. “Todos os meus filhos sabem ler, tenho uma filha formada em psicologia. Qual mãe não quer ver seu filho formado? O estudo dá uma vida melhor!”.

O interesse e compromisso que a mãe diz não ter recebido quando criança, agora, se materializaram no filho. No início deste ano, após o sinal de alerta ter sido acionado pela ausência da rematrícula de Douglas, Maria recebeu, com surpresa, em sua casa uma das 36 agentes contratadas pela Prefeitura de Fortaleza para realizar a Busca Ativa Escolar na capital. A agente designada foi Marília Pires, que, desde fevereiro, se somou à equipe da Secretaria Municipal de Educação, resgatando alunos e alunas que abandonaram ou estão em vias de abandonar a escola. O caso de Douglas foi um dos primeiros atendidos por ela. Ele estava fora da escola desde setembro de 2019 e teve a matrícula efetivada em fevereiro de 2020.

A agente da Busca Ativa Escolar teve a sensibilidade de perceber o desejo latente da mãe e usá-lo como impulsionador de uma nova etapa de vida para Maria e Douglas. “Para mim foi muito gratificante conseguir rematricular um aluno que havia abandonado os estudos, pois eu acredito que a escola é o caminho que promove muitas transformações na vida do ser humano. Me senti ainda mais feliz por saber que a mãe realizaria o seu sonho de aprender a ler e escrever. É valoroso saber que estamos sendo agentes de mudança na vida das pessoas”, celebra, reforçando que é sempre hora quando se tem o desejo de aprender.

“Esse é um serviço ótimo, ajuda pessoas que têm interesse, mas não sabem onde procurar sozinhas. Ela me ouviu, me deu força e a gente chegou à conclusão que todos da família precisavam estudar, até eu”, afirma Maria das Dores. Hoje, mãe e filho estão matriculados na educação de jovens e adultos da Escola Municipal Creusa do Carmo Rocha, no bairro Granja Portugal. Maria não vê a hora de a pandemia da Covid-19 passar para poder finalmente sentar numa sala de aula e aprender.

“Eu sinto falta demais de não saber ler. Você ter um celular e não saber ler uma mensagem? É triste! Douglas também sente falta da escola e vai ser bom quando a gente for estudar juntos”.

Maria das Dores de Sousa, Fortaleza

Em sua trajetória de busca ativa, Marília foi procurar resolver um caso de abandono escolar e terminou resgatando mais do que um aluno: resgatou sonhos e alimentou esperanças em uma família.

A Busca Ativa Escolar
A Prefeitura de Fortaleza aderiu a plataforma da Busca Ativa Escolar, em 2018, visando ampliar o resgate de crianças e adolescentes que estão fora da escola, impulsionando o trabalho já realizado nas escolas e ampliando a qualidade do monitoramento de casos. Passados dois anos, os resultados são positivos e as surpresas no processo de busca comprovam o quão importante é dar apoio às famílias e às instituições de ensino, num esforço coletivo para resgatar o vínculo entre estudante e escola.

A agenda faz parte das prioridades levantadas pela Plataforma dos Centros Urbanos (PCU), iniciativa do UNICEF em cooperação com parceiros, para promover os direitos das crianças e dos adolescentes mais afetados pelas desigualdades existentes dentro de cada cidade. Em 2018, 6.314 meninos e meninas estavam fora das escolas da rede municipal e estadual apenas em Fortaleza. Desses, 156 tinham alguma deficiência. Nesse universo de escolas municipais e estaduais, mais de 66 mil estudantes têm dois ou mais anos de atraso escolar, o que tende a estimular o abandono e requer um acompanhamento intenso da frequência e desempenho.

A estratégia – A Busca Ativa Escolar é uma plataforma gratuita para ajudar os municípios a combater a exclusão escolar, desenvolvida pelo UNICEF em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). A intenção é apoiar os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. Por meio da Busca Ativa Escolar, municípios e estados terão dados concretos que possibilitarão planejar, desenvolver e implementar políticas públicas que contribuam para a inclusão escolar.