Ouvir, Fazer, Ler e Escrever, nova metodologia capacita Professores em diferentes modos de ensino.

Com um acompanhamento mais preciso e personalizado de cada criança a metodologia busca estimular diferentes modos de aprendizagem.

Kelson Sobrinho
Alunos, beneficiados pelo metodo do Tarl na sala de aula na Huila.
©UNICEF Angola/ ANG-2024/ Breno Luckano.
03 Junho 2024

Na África subsaariana, segundo dados da UNESCO de 2023, apenas 1 em cada 10 crianças são capazes de ler e compreender um simples texto aos 10 anos de idade. Esta desigualdade educacional afecta directamente o desenvolvimento individual das crianças e a sua capacidade de se adaptar a uma sociedade em constante desenvolvimento.

Para atingir os objectivos da abordagem, o Ministério do Educação, com o apoio técnico do UNICEF e a orientação metodológica da organização TaRL África, capacitaram cerca de 500 professores para a implementação desta metodologia educacional de reforço escolar para a  aquisição e consolidação  de competências de base nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática.

Suzana Paulo foi uma de mais de 500 professores/as que tiveram a oportunidade de fazer parte da fase experimental da Aprendizagem na Idade Certa – AIC.

Na província da Huila, nos municípios do Lubango e Humpata, 18 escolas foram seleccionadas para fazerem parte da fase experimental da metodologia. Uma dessas escolas é a escola N.º 60 do Lubango onde lecciona a mais de 30 anos a professora Suzana Inácio Paulo. 

“Quando entrei na formação fiquei muito feliz porque era muito similar aquilo que eu já aplicava e com a formação conheci métodos de como melhorar e aplicar essa nova forma de ensinar os alunos/as com mais dificuldades.”  Afirmou Suzana Paulo.

A experiente professora, conta que iniciou a sua carreira como professora voluntária do ensino de adultos no município da Humpata, onde o foco era alfabetização de camponeses. Então não foi difícil para ela mudar para o ensino primário quando surgiu a oportunidade, pois já ensinava as vogais aos adultos..

“Os meus alunos e alunas para mim são os meus filhos e filhas. Antes de começar as minhas aulas deixou-os contar uma estória e em seguida eu também conto uma estória para criar uma ambiente mais alegre na sala de aula.”

Suzana Paulo.
©UNICEF Angola/ ANG-2024/ Breno Luckano.

O AIC apresenta uma abordagem adaptativa e centrada no aluno podendo ser um modelo a ser expandido à escala nacional. Assegurando assim um acompanhamento mais preciso e personalizado da aprendizagem de cada criança. A metodologia busca  estimular diferentes modos de aprendizagem, com actividades que variam entre ouvir, dizer, fazer, ler e escrever.

Neste método inovador ao invés de se agrupar as crianças por classe, elas são organizadas por níveis de competências no que se refere à leitura e ao cálculo matemático, permitindo que avancem rapidamente de um grupo para outro conforme o seu progresso.

Segundo a professora Suzana Paulo nas primeiras aulas de aplicação do AIC os alunos/as não sentiram muita diferença porque eles não sabiam que estavam a ser diagnosticados para eles continuavam a ter uma aula normal. Eu apenas criava uma ambiente alegre com palavras positivas e encorajadoras quando eles faziam a leitura e contagem dos números.

“ Em poucas aulas os meus alunos e alunas já dominam todas as brincadeiras e actividades que realizamos na sala de aula. Eles ficavam animados e traziam materiais de casa para contribuir nas actividades. Em minha casa também aplico essas metodologias e o meu filho em pouco tempo já domina os exercícios. Em duas semanas deixou de ter dificuldades de leitura no papel e começou a ler tudo que os olhos dele conseguem ver “.

Suzana Paulo.
©UNICEF Angola/ ANG-2024/ Breno Luckano.

Uma das grandes dificuldades para assegurar melhorias nos níveis de aprendizagem dos nossos alunos e alunas, relatada pela professora Suzana e outros professores da escola N.º 60, passa pela falta de responsabilidade e apoio do encarregados de educação.

É necessário que os pais assumam que a sua participação na vida da escola é um direito e um dever. Além de ser um dever cívico, a participação activa dos pais em estruturas da escola (associação de pais e outros grupos pedagógicos) é vista pelos filhos e filhas como uma demonstração de empenho e interesse.

A intervenção Aprendizagem na Idade Certa tem a duração de dezoito meses e deve alcançar cerca de 65 escolas e aproximadamente 22.000 alunos, habilitando professores para a implementação desta metodologia educacional de reforço escolar para a  aquisição e consolidação  de competências de base nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. O AIC contribuirá para a melhoria dos resultados das aprendizagens em Angola.

Resultados anteriores em outros países, como a Zâmbia, país precursor da implementação desta metodologia em Africa, indicam melhorias substanciais nas competências de leitura e cálculo básico e redução significativa do número de alunos nos níveis mais baixos de aprendizagem.

Para a professora Suzana, que entrará para a reforma em 2025, a formação do AIC deveria chegar a muito tempo. Como professora sempre procurei formas de não deixar nem aluno/a para trás, então comecei a separar com base nas suas capacidades, os que já sabem ler, os que sabem contar, os que já sabem interpretar e os que já sabem fazer cálculos. Separei também os que tinham mais dificuldades e comecei a chamar esse exercício de pequena explicação.

Trabalhava com eles separadamente e o meu obejctivo era ter eles todos no mesmo nível em termos de leitura e cálculos básicos.

“Participei no programa de Empoderamento das Raparigas e Aprendizagem para Todos denominado PAT. Mas o AIC completou as minhas ideias dentro da sala de aula. Antes do AIC eu sempre tentava recuperar os alunos que tinham mais dificuldades”,  conta Suzana Paulo.

Alunos, beneficiados pelo metodo do Tarl na sala de aula na Huila.
©UNICEF Angola/ ANG-2024/ Breno Luckano.

Em Angola o UNICEF apoia o Ministério da Educação, na implementação da abordagem com o suporte técnico da organização TaRL África e o financiamento do Banco de Fomento Angola, o Governo da Áustria e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Inicialmente está a ser implementada em aproximadamente 65 escolas das províncias de Benguela, Cunene, Huíla e Luanda, de Janeiro a Junho de 2024.

Foram realizados processos consultivos com Gabinetes Provinciais, Direcções Municipais, directores escolares e professores, foi desenhado um modelo de implementação adaptado ao contexto do sistema educativo angolano. O cronograma de actividades inclui consultas, formações de professores e supervisores, sensibilização de gestores escolares e associações de pais e encarregados da educação. Em Novembro de 2023 foram realizadas as primeiras formações regionais na Huíla e Luanda capacitando 75 formadores e mentores seniores.