Uma nova esperança para Gabriel

Gabriel tinha apenas treze anos quando sofreu um ataque sangrento, perpetrado por dois vizinhos e, alegadamente, um familiar.

Claudio Fauvrelle
Uma nova esperança para Gabriel
UNICEF Mozambique/2011/Mark Lehn
01 Março 2013

Beira, Sofala - Gabriel tinha apenas treze anos quando sofreu um ataque sangrento, perpetrado por dois vizinhos e, alegadamente, um familiar.

Gabriel era órfão de pai e vivia com a família paterna, juntamente com dois irmãos mais novos. A sua mãe – que sofre de deficiência mental – tinha sido obrigada a viver longe da aldeia após o falecimento do marido, seguindo a tradição da região da Zambézia, de onde é natural (“quando morre o homem, considera-se que a mulher também está morta”, explica uma fonte).

Um dia, estando Gabriel a brincar com alguns amigos, três homens da sua aldeia – uma pequena localidade de 15 famílias – levaram-no para um sítio isolado e extraíram-lhe os olhos e os órgãos genitais. A sangue-frio. Abandonado num bananal, ninguém podia imaginar que Gabriel sobreviveria.

“Ficaram convencidos que ele, naturalmente, iria morrer e foram-se embora”, explica José Diquissone, Director Provincial da Mulher e da Acção Social na província de Sofala.”Tiraram os órgãos porque tinham um compromisso com um curandeiro”.

A extracção de órgãos humanos, em Moçambique, está associada a práticas tradicionais prejudiciais, em particular a feitiçaria, e não a transplantes.

Liga dos Direitos Humanos de Moçambique

Segundo a Liga dos Direitos Humanos (LDH) de Moçambique, a extracção de órgãos humanos, no país, está associada a “práticas tradicionais prejudiciais”, em particular a feitiçaria, e não a transplantes.

Para a organização, o objectivo do uso de partes do corpo humano “é criar uma medicina tradicional poderosa, no alcance dos seus propósitos, que são, por exemplo, curar doenças, ajudar as pessoas a progredir economicamente, ou prejudicar os seus inimigos”.

A dimensão desta prática é muito maior do que se possa imaginar. Conforme explica o técnico jurídico Manuel Mapendera, são poucos os casos que vêm a público. Na maior parte das ocorrências a vítima simplesmente desaparece.

No caso de Gabriel, os atacantes estavam a executar uma encomenda de um curandeiro local, que lhes havia prometido cerca de 5.000 meticais pelos órgãos.

“Mata-se por muito pouco. Ainda teriam que dividir aquele valor entre os três”, lamenta Mapendera, que acompanhou o caso na qualidade de secretário executivo da delegação regional da LDH.

Através da Liga, o processo jurídico foi acompanhado até à fase de julgamento, estando dois dos atacantes a cumprir agora a pena máxima, numa prisão em Quelimane. Um terceiro – que dizem ser primo do falecido pai de Gabriel – terá conseguido escapar.

Como consequência do ataque, Gabriel perdeu a visão e ficou sujeito ao uso permanente de uma algália, fazendo deslocações quinzenais ao hospital para substituir o dispositivo.

Inicialmente, foi levado para o Malawi, que fica a poucos quilómetros da aldeia, bastando atravessar o Rio Chire para lá chegar. No entanto, devido à complexidade do caso, a Direcção Provincial da Mulher e da Acção Social da Zambézia encaminhou-o para o Hospital de Quelimane e, posteriormente, concertou esforços com a Direcção Provincial de Sofala para o enquadramento de Gabriel no Instituto de Deficientes Visuais, situado na Beira.

Com a integração de Gabriel no Instituto, que está sob a tutela daquele Ministério, foram criadas condições para garantir o seu acesso à escola, a readaptação e a convivência com outras crianças que enfrentam os mesmos desafios. Aos poucos, foi recuperando a confiança e fazendo amigos. Um deles é Xavito, que nos mostra, muito orgulhoso, onde cada um dorme e onde guardam a roupa.

Apesar do ambiente seguro em que Gabriel passou a viver, demorou até que recebesse apoio psicossocial em consultas com pessoal qualificado. “É uma das lacunas que temos”, admite o responsável do IDV, Padre Romão.

Quando Gabriel entra no gabinete do director, o seu sorriso ilumina a sala. “Padre Romão está aqui?”, pergunta, sem saber que tem um leque de visitas à sua espera. Deslocando-se com as mãos à frente para guiar o caminho, vai tacteando o ar até encontrar o administrador do centro. “Está aqui mesmo!”, exclama com satisfação.

Apesar da doçura que envolve os seus gestos, é incalculável o trauma que terá ficado gravado no seu íntimo, fruto da experiência que viveu.

“Quero ir no carro do Padre Romão à minha casa”, afirma Gabriel em tom alegre e determinado.

Para os educadores, que diariamente lidam com o jovem, este é um grande passo.

a extracção de órgãos humanos em moçambique, está associada a “práticas tradicionais prejudiciais”, em particular a feitiçaria, e não a transplantes
UNICEF Mozambique/2011/Mark Lehn
“Enquanto estiver vivo, nunca deixarei de visitar Gabriel e nunca deixarei de ser o seu padrinho”, Padre Romão.

“No primeiro ano em que aqui esteve, não manifestava nenhuma saudade. Agora já mostra vontade de ir”, referem. Entretanto, a pedido da família, Mapendera tornou-se padrinho de Gabriel e sente-se pessoalmente responsável pelo seu futuro.

“Enquanto estiver vivo, nunca deixarei de visitar Gabriel e nunca deixarei de ser o seu padrinho”, garante o técnico jurídico.

Conversando, no final de uma recente visita a Maputo, conta-nos que leva na bagagem brinquedos para oferecer a Gabriel, quando regressar à Beira. Já conhece os gostos do afilhado e sabe o que lhe dá mais prazer: um par de óculos escuros e auscultadores para ouvir as suas músicas preferidas.

Sensibilizados pelo caso particular de Gabriel, uma rede de parceiros e indivíduos solidários – abrangendo dois Estados (moçambicano e português), parceiros de cooperação (incluindo UNICEF), Ministérios, Direcções Provinciais, sociedade civil, confissões religiosas e cidadãos anónimos – mobilizou-se para que o menino pudesse beneficiar de uma cirurgia altamente especializada, em Portugal.

A intervenção tornou-se possível depois de Gabriel ter passado umas férias no Infantário Provincial, na cidade da Beira.

Tomando conhecimento do caso, o médico cirurgião que acompanhava os meninos daquele centro, Hélder de Miranda, e a DPMAS de Sofala estabeleceram uma panóplia de contactos a nível nacional e internacional, no sentido de se encontrar uma solução para melhorar a qualidade de vida de Gabriel.

Foi assim que, em Janeiro de 2013, Gabriel embarcou num avião em Maputo, na companhia de Miranda e Mapendera, a caminho de Lisboa para ser operado no Hospital Pediátrico D. Estefânia.

A cirurgia, autorizada pela Junta Nacional de Saúde e realizada ao abrigo de acordos bilaterais na área da Saúde, permitirá a reconstrução das vias urinárias e a colocação de próteses oculares. Com esta iniciativa reconhece-se a importância do investimento na acção social, bem como da mobilização do Governo e da sociedade para que as crianças vítimas de abuso e violência sejam vistas de forma indissociável do seu contexto familiar e comunitário, e possam ser readaptadas à vida social.

Pretende-se assegurar que as que são vítimas de violência e abuso tenham acesso a serviços de protecção integral, por meio de políticas públicas articuladas, com vista à plena garantia dos direitos, e possam vencer os seus medos, possibilitando assim a sua reinserção social.

Após a recuperação da cirurgia, Gabriel passará algum tempo em Portugal, em convalescença, estando previsto o seu enquadramento em actividades de desenvolvimento intelectual e lúdicas.

Com a mobilização dos parceiros, conseguiuse que Mapendera ficasse em Lisboa a acompanhá-lo, mesmo após o regresso à Beira do cirurgião Miranda, que despoletou a intervenção.

Assim, de Moçambique a Portugal, Gabriel vai contagiando todos com a sua espontaneidade e alegria de viver.