Mantendo o contacto à distância: mentoria entre pares durante a pandemia da COVID-19

Ajudar outras raparigas a entender os seus direitos sexuais e reprodutivos é uma missão próxima do coração da Célia.

Leonor Costa Neves
“Eu digo às meninas que elas devem falar se algo acontecer com elas" – Célia Carare, 21 anos
UNICEF Moçambique/2020/Ricardo Franco
11 Junho 2020

NAMPULA, Moçambique – Célia Carare, de 21 anos, senta-se à porta da sua casa usando uma máscara de pano, enquanto espera a visita de uma das raparigas a quem que aconselha sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos.

A Célia costumava reunir-se todas as semanas com as raparigas a quem aconselha em sessões de grupo, mas desde que o Governo de Moçambique declarou um estado de emergência devido ao surto da COVID-19, elas agora mantêm o contacto por telefone ou individualmente na casa de Célia, observando dois metros de distância entre si.

Ajudar outras raparigas a entender os seus direitos sexuais e reprodutivos é uma missão próxima do coração da Célia. Quando tinha 18 anos, a Célia foi vítima de violação, mas na altura era tímida demais para contar a alguém o que tinha acontecido. Hoje, a Célia quer garantir que outras jovens se sintam confortáveis ​​em denunciar a violência. "Eu digo às meninas que elas devem falar se algo acontecer com elas", diz a Célia.

Foi na sua escola que a Célia ouviu falar pela primeira vez no programa Rapariga Biz, ao ver raparigas que vestiam camisolas roxas e falavam sobre sexualidade e direitos reprodutivos. Elas pareciam-lhe confiantes e assertivas, e a Célia pediu para ingressar no programa, mas pouco tempo depois descobriu que estava grávida como resultado da violação.

Depois de o seu bebé nascer, foi convidada a tornar-se uma mentora pela Coalizão da Juventude Moçambicana, uma das organizações da sociedade civil que implementa o Rapariga Biz. A Célia foi treinada e já aconselhou 27 raparigas nos últimos dois anos.

Mentoras do programa Rapariga Biz reagem a um golo marcado durante um jogo de futebol organizado durante o Dia Internacional da Menina em Quelimane, Moçambique. Devido ao surto da COVID-19, os encontros de mentoria em grupo foram substituídos por sessões telefónicas ou encontros entre pares, mediante solicitação.
UNICEF Moçambique/2020/Ricardo Franco

O encerramento das escolas durante o surto da COVID-19 significa que raparigas e jovens mulheres correm maior risco de violência, mas têm menos oportunidades para denunciar. 

Maior risco de violência, mas menos oportunidades para denunciar


O Rapariga Biz é um programa conjunto das Nações Unidas, liderado pelo Governo Moçambique, que visa reduzir as uniões prematuras e a gravidez na adolescência nas províncias de Nampula e Zambézia. Entre outras intervenções, o programa treina raparigas e mulheres jovens para aconselhar os seus pares sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos, bem como sobre competências essenciais para a vida. No âmbito da Iniciativa Spotlight, as mentoras recebem capacitação sobre violência baseada no género.

Uma em cada quatro mulheres em Moçambique sofre de violência e mais de um terço nunca procura ajuda. Embora as estatísticas nacionais revelem um quadro melhor do que a média a nível global, ainda assim é crucial que as mulheres jovens e raparigas conheçam os seus direitos e saibam onde obter apoio e serviços – especialmente durante uma pandemia. Com as escolas fechadas devido à COVID-19, as raparigas correm maior risco de violência, mas têm menos oportunidades de confidenciar em alguém ou denunciar abusos.

Geralmente, as mentoras do Rapariga Biz conduzem sessões semanais de grupo em espaços seguros, tais como a escola ou a casa de uma mentora, mas o programa foi forçado a adaptar-se durante a pandemia. “As mentoras substituíram as sessões semanais em grupo por telefonemas ou reuniões individuais, mediante solicitação”, disse Margarida Jeiambe, coordenadora da Coalizão para o Rapariga Biz em Nampula.

Devido ao surto da COVID-19, os encontros de mentoria em grupo foram substituídos por sessões telefónicas ou encontros entre pares, mediante solicitação.

Devido ao surto da COVID-19, os encontros de mentoria em grupo foram substituídos por sessões telefónicas ou encontros entre pares, mediante solicitação.
UN Mozambique/2020/Philip Hatcher-Moore

"Informar raparigas vulneráveis ajuda-me a seguir em frente"

Enquanto mãe e estudante, Célia leva uma vida agitada, mas ainda assim encontra sempre tempo para acompanhar as sessões. "Informar raparigas vulneráveis sobre os seus direitos sexuais e reprodutivos ajuda-me a seguir em frente", diz a Célia.

Quando tem dúvidas sobre um determinado tópico, a Célia pode enviar uma mensagem de texto para o SMS Biz – uma plataforma de aconselhamento entre pares – onde pode obter informações sobre saúde sexual e reprodutiva em tempo real usando o seu celular.

Para alcançar um público ainda mais amplo, o programa “Rapariga Biz na Rádio” foi lançado em Maio com a Rádio Moçambique. O programa é liderado por mentoras e foca-se na violência baseada no género, nos direitos sexuais e reprodutivos e nos serviços disponíveis para as jovens. É transmitido em Português e na língua local Macua.

Desde o início do programa em 2016, o programa Rapariga Biz já treinou 5.600 mentores e alcançou mais de 699.000 raparigas e mulheres jovens. A Iniciativa Spotlight irá replicar a abordagem de mentoria do Rapariga Biz nas províncias de Gaza e Manica.

Rapariga Biz é um programa conjunto das Nações Unidas, liderado pelo Governo de Moçambique, e implementado pelo UNFPA, UNICEF, ONU MULHERES e UNESCO. O programa visa alcançar um milhão de raparigas e jovens mulheres vulneráveis nas províncias da Zambézia e Nampula, com informação sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos, liderança, empoderamento, cidadania e direitos humanos, com o objectivo de prevenir as uniões prematuras e a gravidez na adolescência. A iniciativa é financiada pela Embaixada da Suécia e pelo Governo do Canadá.