Quando não dá pra ir pra escola

Hiago dos Santos passou por muitos desafios para continuar na escola. Com três anos de atraso escolar, ele começou a recuperar a aprendizagem e avançar

UNICEF Brasil
Hiago esta sentado à mesa em casa com um livro aberto.
UNICEF/BRZ/João Laet
06 janeiro 2021

* Fotos tiradas antes do início da pandemia de Covid-19.

Hiago dos Santos, de 16 anos, chega em casa depois de passar a manhã em um projeto social em que participa de oficinas profissionalizantes. Ativo, por volta de meio dia está em casa apenas para se preparar para a escola. Coloca o uniforme, pega a mochila e a bicicleta, que em 10 minutos o leva até a Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, uma das escolas-piloto da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE), parceria do UNICEF com o Instituto Claro e a Secretaria de Educação da capital de Roraima, Boa vista.

Mas essa rotina nem sempre foi assim. O menino já acumulava dois anos de atraso escolar quando foi morar com a família em Jundiá, município do interior de Roraima. Houve uma greve de ônibus escolares na cidade e ele teve de abandonar os estudos. “A escola era longe, só dava para ir de ônibus. Ele queria continuar os estudos, mas a escola era a 32 km de distância”, relembra sua mãe, Maria Conceição. Sem condições de bancar outras formas de chegar à escola, Hiago passou um semestre inteiro sem estudar.

No meio daquele ano, quando voltou com a família para Boa Vista em busca de uma vida melhor, o adolescente já não conseguiu uma vaga na escola. Em meio a tudo isso, acabou ficando um ano inteiro sem estudar.

Com três anos acumulados de atraso, em 2020, Hiago renovou sua esperança com uma oportunidade que sua escola oferece: turmas voltadas a estudantes em atraso escolar. Com uma metodologia pensada com base nas dificuldades e potencialidades de cada estudante, essas turmas permitem que eles aprendam e avancem nos estudos – cursando duas séries em um ano.

Hiago, de uniforme escolar e com mochila nas costas, pedala uma bicicleta. Ele está olhando para trás.
UNICEF/BRZ/João Laet

A esperança de Hiago
Hiago entrou na escola na idade certa, aos 4 anos de idade. Quando chegou ao 1º ano do ensino fundamental, com 6 anos, a família se mudou para o Maranhão, onde o menino seguiu estudando. Mas ao voltar para Boa Vista, um ano depois, a mãe conta que alguns documentos para a matrícula na escola ficaram faltando para comprovar que o menino deveria avançar de série. Sem documentos, acabou cursando a mesma série novamente, aos 7 anos. Esse foi o seu primeiro ano de atraso escolar.

O segundo ano de atraso veio quando repetiu o 6º ano do ensino fundamental. Já com 13 anos, em 2018, o menino fez a série pela segunda vez e foi aprovado para o 7º ano. No ano seguinte, veio a mudança de cidade e a greve de ônibus e a volta para Boa Vista, sem vaga. E mais um ano de atraso.

“Quando Hiago repetiu, ficou triste. E depois quando chegamos aqui, ele chorava pra eu conseguir uma vaga para ele, não queria ficar sem estudar”, emociona-se a mãe. Assim, somados, o adolescente acumulou uma defasagem de três anos.

A situação começou a melhorar em 2019, quando Hiago conseguiu uma vaga na Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, próxima à sua nova casa em Boa Vista. Primeiro, cursou o 7º ano regularmente e foi aprovado.

Em 2020, além da alegria de seguir estudando, Hiago teve a oportunidade de avançar mais e corrigir o seu fluxo escolar. Com 16 anos, o adolescente começou a cursar o 8º e 9º ano do ensino fundamental para, enfim, entrar no tão esperado ensino médio. “Eu pensei que seria mais difícil”, ri. “Mas assim vai me ajudar a terminar os meus estudos”, diz, esperançoso. Caçula de quatro filhos, nenhum dos irmãos de Hiago terminou a escola. Mas ele continua em busca do desejo de cursar uma faculdade de administração no futuro, e mudar a situação de sua família.

Já é quase uma da tarde quando o adolescente precisa ir para a escola, e passa sorrindo pelo portão de casa com sua nova bicicleta, com a certeza de que em 10 minutos estará lá.

Hiago está em pé ao lado de uma professora sentada à mesa. Eles estão vendo alguma coisa em um livro aberto em cima da mesa.
UNICEF/BRZ/João Laet

Cada estudante na idade certa
A história de Hiago é uma em meio a tantas diferentes realidades dentro das turmas que estão desenvolvendo propostas específicas para o enfrentamento da distorção idade-série. E esse olhar – voltado para a construção de um currículo que permite a todos aprenderem com significado e no qual professores e estudantes são coautores das atividades – é a visão que o UNICEF e a Secretaria de Educação de Roraima propõem às escolas com a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar.

Fruto da parceria do UNICEF com o Instituto Claro, a estratégia tem como foco o enfrentamento da cultura de fracasso escolar no Brasil. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre a distorção idade-série no País – quando um estudante está com dois ou mais anos de atraso escolar – e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso, permanência e aprendizagem desses estudantes. A proposta é contribuir com as redes públicas de ensino para que desenvolvam propostas e metodologias adequadas à realidade local, às necessidades e potencialidades desses estudantes.

Em Roraima, turmas de correção de fluxo já existem há pelo menos uma década. Agora, com o apoio do UNICEF, a Secretaria Estadual de Educação oferta formação e apoio aos educadores, aprimorando o trabalho. “Quando o Trajetórias de Sucesso Escolar traz formações para os professores, eles percebem, por exemplo, a importância de analisar os aspectos sociais do aluno. E isso faz com que tenham outro olhar na sala de aula”, explica Leonilto Manoel, diretor da Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante. É um esforço conjunto, voltado ao direito de aprender de cada estudante, sem exceção.