“O que mais me deixa feliz é estudar”
Encontrada pela Busca Ativa Escolar em 2019, Maria Vitória continua na escola, irradiando alegria, aprendendo e sendo feliz
“O que mais me deixa feliz é estudar”, dispara Maria Vitória entre um sorriso radiante e outro. Com 14 anos, ela transborda simpatia e coleciona muitos amigos. A adolescente foi encontrada em 2019, pela equipe da Busca Ativa Escolar do município sergipano de Itabaianinha e, desde então, nunca mais deixou a sala de aula.
“Antes, ela não sabia nem fazer a primeira letra do nome dela, hoje ela já sabe ler”, diz, cheia de orgulho, Jocivalda, mãe de Maria Vitória, apontando os avanços apresentados pela filha, que cursa o 6º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Francisco Moreira dos Santos.
A adolescente convive com a paralisia cerebral desde o nascimento e havia deixado de estudar devido a dificuldades de chegar à escola. Quando pequena, a mãe a carregava nos braços, o que se tornou inviável conforme ela foi crescendo, então, Jocivalda tirou Maria Vitória da escola. Quando foi encontrada pela Busca Ativa Escolar, em 2019, tudo começou a mudar. Hoje, a adolescente possui uma cadeira de rodas, tem acesso a um transporte individualizado que a busca em casa, e é acompanhada pela cuidadora Tayrane Santos Costa no trajeto até a escola.
2019
2023
Além de cursar as aulas regulares, Maria Vitória frequenta todas as segundas-feiras o Núcleo de Atendimento Educacional Especializado (Naee), estrutura que integra a Secretaria Municipal de Educação. Lá, ela recebe atendimento educacional especializado e personalizado, e pode estimular suas habilidades para seguir avançando cada vez mais na aprendizagem.
“Antes de eu estudar, eu só ficava em casa e era um tédio. Depois de ela [a Busca Ativa Escolar] vir me procurar, eu só quero escola. Eu até desejo ter aula dia de sábado e domingo!”, conta Maria Vitória, levando todos à gargalhada.
“Esse medo eu não tenho mais”, disse a mãe referindo-se ao receio que tinha, há quatro anos, assim que Maria Vitória voltou a frequentar a escola, de que ela não se tornasse uma menina independente. O rumo dado à trajetória da adolescente após seu retorno à sala de aula deixa claro que estudar significa construir oportunidades para o futuro, mas é também desfrutar o presente. Para além de um espaço de construção de saberes, a escola é lugar de construção de identidade e convivência, de criação de vínculos e amizades.
Essa lição Maria Vitória aprendeu muito bem: foi na escola, no início deste ano, que ela conheceu sua melhor amiga, Maísa Cesárea dos Santos, e desde então elas são inseparáveis. “O que eu mais gosto na Vitória é o sorriso, a alegria e a energia. A energia dela contagia”, aponta Maísa.
Acleciano Ancelmo da Silva, professor de língua portuguesa e produção textual de Maria Vitória há três anos, avalia que a adolescente amadureceu após a vivência na escola. “Percebo que Maria Vitória avançou muito na questão da sociabilidade. Antes, ela se sentia excluída, retraída. E hoje ela se sente confortável em sala de aula”, aponta.
“Ela está tendo mais iniciativa para escrever e para fazer as coisas de que gosta. Ela fez mais amigos e é querida por todo mundo: pelos alunos, professoras, pelas pessoas que trabalham na escola. Ela é uma menina mais feliz, mais alegre”, compara Jocivalda.
“Quando eu crescer eu quero ser blogueira. Quer dizer, eu já sou!”
A adolescente, que há quatro anos sonhava em viver numa casa em que pudesse “ver as pessoas passando”, hoje usa a tecnologia para se comunicar. Seu sonho agora, cada vez mais real, é ser blogueira. Por meio de vídeos que posta em sua página nas redes sociais, Maria Vitória se diverte e diverte amigos, professores e vizinhos.
“O que me deixou mais feliz foi ver minha filha na escola, estudando. Senti dentro do meu coração que minha filha é uma adolescente feliz e que me faz feliz também”, comemora Jocivalda.
Voltar e permanecer na escola
Em Itabaianinha, o impacto da pandemia elevou o número de meninos e meninas em idade escolar fora da sala de aula. Mas, graças à intensificação do trabalho da Busca Ativa Escolar, esse número praticamente zerou no município. Desde à adesão, em 2018, voltaram a estudar 342 meninos e meninas, num universo de pouco mais de 42 mil habitantes.
E para que a evasão não volte a crescer, o município investiu em tecnologia. A partir deste ano letivo, Itabaianinha passou a utilizar em todas as 26 escolas municipais a tecnologia de ID facial para controlar a frequência dos estudantes. Por ser automatizado, o sistema dá mais agilidade ao processo e permite o acionamento imediato da equipe da Busca Ativa Escolar para estabelecer contato com a família e investigar o contexto e os motivos que levaram à ausência do estudante.
A força do trabalho intersetorial
A cadeira de rodas que hoje permite Maria Vitória ter a liberdade de se locomover foi obtida a partir de um trabalho articulado entre as Secretarias de Saúde e Assistência Social de Itabaianinha, após a identificação da demanda pela equipe da Busca Ativa Escolar. “No momento em que o agente de saúde fez a visita domiciliar, e identificou a necessidade física e motora, ele agendou o atendimento com o médico e também com o fisioterapeuta”, explica Estéfane Santos Cavalcante, coordenadora do Núcleo de Educação Permanente em Saúde (NEPS), da Secretaria de Saúde do município.
Essa transformação do cotidiano de Maria Vitória é fruto de um intenso trabalho intersetorial. “Para que ela possa ir para a escola, existe uma rede que precisa funcionar para garantir o seu direito à educação. (...) Quando o trabalho intersetorial acontece na prática, fortalece todos os setores”, destaca Altemar José dos Santos, secretário municipal de Educação de Itabaianinha.
Para a coordenadora operacional da Busca Ativa Escolar no município, Luana Batista Santos, a estratégia é muito significativa na vida das famílias, pois vai muito além do retorno à escola, contribuindo diretamente para a garantia de outros direitos e para o acesso a serviços e políticas públicas disponíveis no município, como foi o caso de Maria Vitória.
Isso porque a metodologia social da Busca Ativa Escolar pressupõe que a política de educação não caminhe sozinha, mas de forma integrada às demais políticas públicas, especialmente a saúde e a assistência social, e aos órgãos que integram o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente.
A estratégia conta ainda com uma ferramenta tecnológica, que funciona como um banco de dados para apoiar aos governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. Além de facilitar a comunicação entre as áreas, a ferramenta armazena informações importantes sobre cada caso acompanhado, oferecendo às gestões subsídios para o aprimoramento das políticas públicas.
Sobre a Busca Ativa Escolar
A Busca Ativa Escolar é uma iniciativa do UNICEF e da Undime, com apoio do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). Para a Busca Ativa Escolar, o UNICEF conta com os parceiros estratégicos B3 Social, BRK Ambiental, EDP, Grupo Profarma, Itaú Social, NEOOH, com o parceiro Bracell e o apoio de Oriba.
Selo UNICEF
O município de Itabaianinha está participando da edição 2021-2024 do Selo UNICEF. Ao se inscrever no Selo, os municípios se comprometem a implementar políticas públicas para redução das desigualdades e garantir os direitos das crianças e dos adolescentes. Entre elas, está a implementação da Busca Ativa Escolar, indo atrás de cada criança, cada adolescente que está fora da escola, ou em risco de evasão, tomando todas as medidas para garantir a matrícula e a permanência na escola, aprendendo.