Maria Vitória e uma vida inteira para aprender

Encontrada pela Busca Ativa Escolar de Itabaianinha, Sergipe, a menina voltou para a escola

UNICEF Brasil
Maria Vitória na sala de aula
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

09 janeiro 2020

Quando está em casa, é em uma cadeira de plástico que Maria Vitória passa boa parte do seu tempo. Com 10 anos, a menina de sorriso largo não sabe o que é caminhar. Moradora de Itabaianinha, no interior do Sergipe, ela teve paralisia cerebral após problemas respiratórios durante seu nascimento prematuro. As limitações físicas, aliadas à falta de apoio para a inclusão, impediram Maria Vitória de continuar na escola. A mãe, Jocivalda, já não conseguia carregá-la por 20 minutos na estrada de terra que separava a menina da escola. E não havia outra opção.

A casa da família é de tijolos e tão estreita que impede a entrada da menina com sua cadeira de rodas. As limitações não são apenas físicas. Ela e os três irmãos vivem em um contexto de pobreza extrema que, na maor parte do tempo, lhes tira o direito de brincar, aprender e serem crianças. Os dois mais velhos, Cleiton, de 13 anos, e Danilo, de 15, deixaram a escola para trabalhar e ajudar em casa. Com isso, perderam parte do auxílio que recebiam por mês do Bolsa Família. Hoje, a família recebe apenas 80 reais do Programa, e se sustenta o Benefício de Prestação Continuada (BPC) a que a menina tem direito.

Em 2019, Maria Vitória e os irmãos foram encontrados pela equipe da Busca Ativa Escolar – iniciativa do UNICEF e parceiros para ajudar os municípios a enfrentar a exclusão escolar. Por meio de uma plataforma online, o município consegue reunir equipes de diferentes áreas – educação, saúde, assistência social, entre outras – para encontrar e levar para a escola meninas e meninos que estão fora dela.

Graças à iniciativa, Maria Vitória e os irmãos começaram a trilhar uma nova história. A equipe responsável pela Busca Ativa Escolar em Itabaianinha foi até a casa de Jocivalda, conversou com a família e foi atrás de soluções para levar as crianças de volta à sala de aula. Maria Vitória agora possui transporte para ir à escola, cadeira de rodas, fraldas, uniforme e um atendimento especial, personalizado, no contraturno escolar, que ajuda a menina a se desenvolver melhor e orienta os professores sobre as melhores estratégias para o aprendizado dela.

Jocivalda, que nunca aprendeu a ler e escrever, teve medo no começo, pois não acreditava que a filha conseguiria ser independente. “A Busca Ativa me provou que eu estava errada. Desde o início, eles me falaram que dariam um futuro melhor para os meus filhos. E foi exatamente o que aconteceu. Hoje, Maria Vitória é mais feliz”, diz ela. Além da menina, os irmãos também estão sendo acompanhados para voltar a estudar. “O projeto proporciona aos meus filhos algo que eu não tive. E isso não tem preço”, comemora.

Com a Busca Ativa, Maria Vitória hoje tem muitos sonhos. “Quero ter uma casa com a minha família. E que seja perto da rua para eu ver as pessoas passando. Uma casa em que eu consiga me mover e ter meu próprio quarto. E que caiba a minha cadeira de rodas. Hoje sinto que estou mais perto disso”, afirma.

Em Itabaianinha, o trabalho da Busca Ativa Escolar começou em 2019. Em apenas três meses, 61 crianças, entre 4 e 17 anos, que estavam fora da escola, voltaram para a escola e participam de forma regular. “Fizemos uma mobilização nos 75 povoados do nosso município, no início do ano, e avaliamos cada caso de forma individual para encontrar a melhor solução para cada criança. O resultado tem nos surpreendido”, avalia Adailson de Jesus Silveira, conhecido como Alvinho, responsável pela implementação da iniciativa no município.

Atendimento especializado
Para que Maria Vitória pudesse estar na escola e aprender, a equipe da Busca Ativa Escolar foi atrás dos recursos disponíveis no município. Um deles foi o atendimento especializado no contraturno escolar. Em seu primeiro dia no espaço, Maria Vitória era só sorriso. De acordo com a coordenadora do Programa, Monica Carvalho, o primeiro passo é fazer um diagnóstico detalhado para depois traçar uma plano personalizado. “Ela é uma menina incrível, com boa argumentação. Vemos que a região do cérebro responsável por sua coordenação motora ficou bem comprometida. Mas, visivelmente, o cognitivo dela está preservado. Então, os maiores desafios serão motores”, avalia. Segundo ela, o próximo passo é continuar estimulando para que ela se desenvolva cada vez mais.

Sentada na frente do computador pela primeira vez, Maria Vitória disse que está muito animada por voltar à escola. “Senti muita saudade dos meus amigos, queria muito voltar. Ficar em casa é bom, mas prefiro ficar na minha escola. Ter amigos é muito divertido”, diz toda contente. Sobre suas atividades favoritas, a menina diz, orgulhosa: “Gosto de aprender e de ensinar a minha mãe a ler”.

Sobre a Busca Ativa Escolar
A Busca Ativa Escolar é uma plataforma gratuita para ajudar os municípios a combater a exclusão escolar, desenvolvida pelo UNICEF em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), o Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

A intenção é apoiar os governos na identificação, registro, controle e acompanhamento de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. Por meio da Busca Ativa Escolar, municípios e estados terão dados concretos que possibilitarão planejar, desenvolver e implementar políticas públicas que contribuam para a inclusão escolar.

A Busca Ativa Escolar reúne representantes de diferentes áreas – Educação, Saúde, Assistência Social, Planejamento – dentro de uma mesma plataforma. Cada pessoa ou grupo tem um papel específico, que vai desde a identificação de uma criança ou adolescente fora da escola até a tomada das providências necessárias para a matrícula e a permanência do aluno na escola. Todo o processo é feito pela internet e a ferramenta pode ser acessada em qualquer dispositivo como computadores de mesa, computadores portáteis, tablets, celulares (via SMS ou aplicativo para smartphones). Há também formulários impressos para agentes comunitários e técnicos verificadores que não têm acesso a dispositivos móveis.