O projeto que transformou a escola, que transformou o menino, que transformou a escola

Em Bonito (PE), o Programa de Educação Integrada, apoiado pelo UNICEF, criou um elo mais forte entre a escola e os estudantes. E alunos como Emerson Vieira, 14 anos, mudaram sua postura e a forma de olhar para a vida.

UNICEF Brasil
Adolescente posa para foto com camiseta de projeto do UNICEF.
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

30 Outubro 2018

Antes mesmo de entrar na Escola Municipal Maria do Carmo Coelho de Melo, em Bonito (PE), há oito anos, Emerson Vieira, 14 anos, recebeu as primeiras lições. Foi instruído por seus primos e irmãos mais velhos a se impor e ser “fortão”. Do contrário, seria alvo de chacotas e saco de pancadas. Entendeu que deveria ser “o encrenqueiro”.

Era 2010, e a escola convivia com muitos casos de violência e depredação. A falta de infraestrutura e o clima hostil se retroalimentavam, negativamente. E Emerson foi crescendo nesse ambiente. Desempenhou tão bem o papel que acabou lhe sendo imposto que ele mesmo acreditou, e criou fama. Com certo desconforto, ele conta que os amigos e os professores “tinham desistido” dele. “Eu era daqueles que não prestava pra nada, que ninguém aguentava. Na escola, só fazia criar confusão e, quando chegava em casa, lá pelas 11h, não tinha o que fazer também. Então, ia bagunçar por aí”, relembra.

Essa era sua rotina até o ano passado. Em 2017, a escola passou a ser de tempo integral e começou a participar do Programa de Educação Integrada (PEI), que tem como objetivo desenvolver estratégias de formação de professores e gestores, além de qualificação de ambientes pedagógicos para potencializar práticas comprometidas com a aprendizagem inclusiva e no tempo certo, contribuindo com a melhoria dos resultados e indicadores de escolas públicas em Pernambuco.

Como uma ação complementar às mudanças conceituais e pedagógicas, a escola foi reformada, teve as rachaduras e vazamentos consertados. Num novo ciclo, os hábitos também mudaram. A gestão resolveu enfrentar o medo da violência e confiar nos novos comportamentos: trocou os pratos, copos e talheres de plástico por vidro e talheres “de verdade”. “Aproveitamos a vinda do Programa para mudar a escola. Pensei que, se conseguíssemos implantá-lo nessa escola, conseguiríamos fazer em todas”, conta a secretária de Educação do município, Elza Silva.

No segundo turno e com atividades que foram fortalecidas pela implementação do PEI, a escola passou a discutir questões como valores, projetos de vida e protagonismo dos adolescentes. Aos poucos, as discussões foram sensibilizando Emerson. “Percebi que as pessoas estavam se afastando de mim por eu ser tão agressivo, e os amigos que eu tinha não queriam andar mais comigo com medo de se meter em confusão. Eu estava só”, afirma, apontando o começo de sua mudança interna.

Adolescente posa em frente ao logotipo do programa de educação integrada
UNICEF/BRZ/Raoni Libório

Hoje, Emerson tem planos. Gosta de desenhar e quer ser arquiteto. É dele o desenho que ilustra a transformação da escola, com um antes e depois, em uma atividade realizada pelo município como acompanhamento de resultados do PEI. A presidente do Conselho Municipal de Defesa e Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica) de Bonito, Nadja Teixeira, também acompanhou essas duas mudanças: a da escola e a de Emerson. Ela conta que, antes, recebia muitas queixas relacionadas à violência, com alunos armados e até uso de drogas naquele ambiente escolar.

Com o início do Programa de Educação Integrada, esclarece Nadja, a forma de os alunos olharem para a vida foi modificada. “O Programa criou um elo mais forte com a escola. A partir daí, a postura dos alunos mudou e começamos a ver a diferença. Era hora de ir atrás dos faltosos, de envolver a família e tudo foi se transformando”, afirma.

Para a secretária de Educação, não há melhor termômetro de transformação do que a fila de espera por matrículas na Escola Municipal Maria do Carmo Coelho de Melo. “Antes, os pais estavam tirando seus filhos dessa escola por medo das mazelas presentes no ambiente. Hoje, temos fila de espera, inclusive de estudantes que estão na rede privada”, diz Elza. Outro indicador, reforça, é o bom resultado do município na avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Bonito ficou entre os três municípios pernambucanos com melhor desempenho do Ideb nos anos iniciais e finais, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A nota dos anos iniciais, em 2017, inclusive, ficou em 7,2 – maior do que a meta estabelecida para o Brasil em 2021. “Conseguimos uma mudança física, de cultura, social, de relacionamento e aprendizagem”, lista, satisfeita e confiante, o novo ciclo de mudanças.  

PEI – O Programa Educação Integrada é uma iniciativa do Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Educação, e tem o UNICEF como parceiro técnico e a Celpe e o BNDES como parceiros financiadores. O trabalho envolve a formação de mais de 3.500 professores e beneficia mais de 70 mil crianças de 15 municípios pernambucanos.

Pernambuco, outubro de 2018