O poder da voz que afronta

MC de 20 anos vence concurso de freestyle sobre o combate à Covid-19, promovido pelo Viva Melhor Sabendo Jovem

UNICEF Brasil
24 julho 2020
jovem está parado em frente a um painel colorido, ele tem uma mão na cabeça e outra na cintura
Divulgação
Afronta MC, de Vila Velha (ES), batalha no hip hop e na vida para vencer preconceitos.

Em dez minutos a letra estava pronta. Tempo suficiente para Afronta compor a música vencedora do desafio proposto: mandar seu recado em 45 segundos sobre a pandemia do novo coronavírus. Falou sobre os milhares de mortos, sobre o contexto político, sobre como se prevenir e não disseminar o contágio, o que fazer em casa na quarentena, e por fim agradeceu aos profissionais da área de saúde.

Afronta MC tem apenas 20 anos, mas suas palavras carregam a força de seus ancestrais negros, especialmente as mulheres pretas e faveladas como sua mãe. A costureira Regina é inspiração e aparece nos versos rimados que saem metrificados no silêncio de casa ou no barulho da rua.

Jovem de muitas batalhas – as do hip hop e as da vida –, Afronta venceu o concurso cultural que marcou o encerramento do Viva Melhor Sabendo Jovem, em Vitória. Uma iniciativa do UNICEF e da Associação Gold, em parceria com a Prefeitura de Vitória e a Secretaria Estadual de Saúde do Espírito Santo, o projeto atuou durante nove meses para prevenir HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre adolescentes e jovens na capital capixaba, além de promover a testagem rápida e o acesso ao atendimento adequado de saúde de novos casos.

A etapa final do projeto foi atravessada pela pandemia do novo coronavírus. E o encontro de hip hop que estava planejado para mobilização e valorização da juventude deu lugar a um concurso a distância, vencido por Afronta.

Foram 714 votos no Instagram, o segundo lugar ganhou 429 votos. O prêmio foi um celular. “Minha função social como artista é fazer denúncias e protestos, gritar contra o que está errado. Procuro ressignificar as coisas. Peguei o tema do coronavírus e tentei criar algo que fizesse as pessoas refletirem. Juntei informações da mesma forma que faço nas batalhas de rua e rodas de poesia”, conta.

Afronta é a identidade escolhida após anos sendo alguém que não nasceu para ser – uma escolha difícil que lhe trouxe liberdade e força. “Comeu o pão que o diabo amassou” na escola, quando sua essência foi reprimida com crueldade. As dores daquele tempo de descoberta Afronta transforma em versos.

“Não existe lista negra, eu não vou te matar depois. Compare minha rima com a sua e você vai ver que é vezes dois. Duas vezes mais dor, duas vezes mais prantos, duas vezes mais vivência, duas vezes mais encanto”, Afronta canta na música “Cura Gay”, seu primeiro vídeo no YouTube, de fevereiro, que tem mil visualizações. “Pode parecer pouco, mas para mim é muito”, diz, com a humildade de quem aprendeu a lutar.

Identifica-se com o gênero não binário, que não se limita ao ser masculino nem ao feminino. Ver Afronta cantar de forma tão explosiva e debochada, como nos dois vídeos do seu canal, dá uma ideia dos preconceitos que precisou e ainda precisa enfrentar – na universidade, na lanchonete, no ônibus, na rua, cantando nas batalhas.

Também no hip hop, um mundo dominado por homens heterossexuais, precisa enfrentar todos os dias a discriminação. Mesmo em ambientes tradicionalmente marginalizados, pessoas não binárias são incompreendidas.

“Se hoje eu tô no hip hop, é porque faz parte de mim. Trago no peito a inocência do pequeno curumim. Na minha boca levo o grito de todo meu ancestral. E no meu flow venho afrontando e matando cada boçal”, canta, também em “Cura Gay”.

Estudante de serviço social na Universidade Federal do Espírito Santo, Afronta vive com a mãe, a companheira da mãe e seu irmão caçula, Davi, de 12 anos. Recentemente seu pai também passou a viver com a família, em uma favela de Vila Velha, perto de Vitória. Em dias normais, saía de casa às 7h e voltava às 23h. Além das aulas na faculdade, estuda teatro e faz estágio.

Desde que a pandemia começou, trabalha na lanchonete de sua irmã mais velha, Lorrayne, de 23 anos. E ajuda a mãe a vender as máscaras de proteção facial que ela tem feito.

“Vou de bicicleta todos os dias para a lanchonete, é perto, mas só eu sei o que passo no caminho. Os comentários homofóbicos eu ignoro. Só me apego aos elogios à minha beleza”, afirma Afronta, que teme infectar-se com a Covid-19. “Nem todos que morrem são do grupo de risco. É um terror. Mas preciso trabalhar para ajudar em casa”, diz.

As ideias não têm hora nem lugar certo para chegar. A letra que venceu o desafio sobre a pandemia, escrita em apenas dez minutos, foi criada na sala da casa do seu namorado. “Já escrevi letra dentro do ônibus, faço isso em qualquer lugar. Mas também já demorei três meses para compor”, afirma.

Seu último clipe do YouTube, lançado no dia 12 de junho, foi “Poder da Voz”. A letra mostra o poder de alguém que já sofreu tanto, mas que consegue transformar dor em encanto. “Pensam em me rebaixar, só porque eu não tenho prêmio. Escuta bem o que eu vou dizer. Afronta MC será a voz do milênio”.