O direito à opinião

As crianças têm o direito de dar suas opiniões livremente e participar das discussões que as afetam. Gustavo Guedes, 15 anos, da Paraíba, luta para mudar a cultura de que “em conversa de adulto, criança não se mete”

UNICEF Brasil
o adolescente Gustavo olha para a câmera sorrindo. Ele usa uma camiseta azul em celebração aos 30 anos da CDC
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

20 Novembro 2019

 

Artigo 12: Respeito pela opinião das crianças
As crianças têm o direito de dar suas opiniões livremente em questões que as afetam. Adultos devem ouvir e levar as crianças a sério.

“No Brasil, temos uma cultura de que, em conversa de adulto, criança não se mete. Esses 30 anos [de vigência da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC)] vêm tirando essa cultura. É só ver estes adolescentes que estão aqui hoje”, diz Gustavo Guedes, de 15 anos, sentado a mais de 2 mil quilômetros de casa. Ele foi longe para fazer o que sabe de melhor: mostrar sua voz.

Gustavo saiu de Picuí, na Paraíba, para participar do encontro em comemoração aos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança em Brasília, junto com outros 52 adolescentes de diferentes partes do País. Membro do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA), estratégia de participação de adolescentes do Selo UNICEF, o menino busca mobilizar outros meninos e meninas para que sejam multiplicadores. Multiplicadores de experiências, de conhecimentos e, principalmente, de protagonismo.

Se adulto fala, criança fala também
O artigo 12 da CDC garante que as crianças tenham o direito de dar suas opiniões livremente em questões que as afetam, as quais devem ser respeitadas pelos adultos. Para Gustavo, no entanto, é muito comum que esse direito não seja respeitado. E é essa realidade que ele procura mudar.

“Eu sempre tento levar a mensagem de que você pode ser multiplicador, você pode mostrar sua voz ativa, pode mostrar que o jovem não é apenas o futuro,
ele é o hoje também”

Gustavo, 15 anos

Natural de Brasília, foi para a Paraíba aos 5 anos. Hoje, é paraibano de sotaque, de coração e de alma. O município de Picuí, onde cresceu e mora, está inscrito na edição 2017-2020 do Selo UNICEF, iniciativa voltada a estimular os municípios a implementar políticas públicas para reduzir as desigualdades e garantir os direitos de meninas e meninos do Semiárido e da Amazônia Legal brasileira.

Foi lá que Gustavo descobriu, no NUCA, o amor por espalhar protagonismo e a voz ativa para outros adolescentes. “O NUCA é um oleiro na minha vida, que pega a argila e me molda em um belo vaso para que eu também possa transformar outros vasos”, aspira.

Estudante do 1º ano do ensino médio técnico em análises clínicas, Gustavo leva a escola e sua personalidade comunicativa a sério, olhando para decisões profissionais. “Escolhi análises clínicas porque meu sonho é fazer medicina, eu amo o dom de cuidar de pessoas, eu amo mostrar que elas podem se sentir especiais”.

A facilidade de Gustavo para se comunicar também se expressa visivelmente na sua participação fora da sala de aula. Além de membro do NUCA, é presidente do grêmio e participa de um movimento da cidade que luta por levar grêmios a todos os colégios municipais. Para ele, essa tem sido uma causa constante e complicada, pois muitas escolas não possuem em seu estatuto esse mecanismo de participação de adolescentes.

“O grêmio é essencial para uma escola, é quem leva e desenvolve a voz ativa dos adolescentes”, afirma o adolescente, que bem sabe o que é expressar sua opinião. “Sempre gostei de mostrar minha voz, de mostrar que nós adolescentes somos capazes. Se hoje existe o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente], é porque outros adolescentes deram o seu sim. Então eu acredito que o meu sim vai contribuir para que futuros adolescentes possam vivenciar seus direitos”.

O objetivo de Gustavo é claro: mostrar que cada criança, cada adolescente tem uma opinião, e elas devem ser ouvidas. E sua voz soou para que a Paraíba, Brasília e o Brasil inteiro ouvissem.

Gustavo fala no microfone no púlpito do auditório do TSE, em Brasília. Atrás dele estão duas adolescentes e um adolescente. Todos vestem a camiseta azul dos 30 anos da CDC
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

Levantando a voz em Brasília
Encantado, pela primeira vez de volta a sua terra natal, Gustavo desembarcou em Brasília. De cara, a primeira experiência marcante foi conviver com outros adolescentes de diferentes lugares do Brasil, conhecendo novas culturas. “Todo mundo traz uma cultura diferente do seu Estado e o adolescente é quem sabe falar, sabe levar um pouquinho da sua cultura, porque é quem mais a vivencia”.

Ele também levou um pouco da própria realidade, e acredita que sua principal contribuição para o manifesto foi lembrar que há crianças que ainda têm seus direitos cotidianamente violados no Semiárido brasileiro. Além disso, alegra-se em reafirmar o seu compromisso em mudar essa situação. “Hoje, celebrando os 30 anos com a presença de todos estes adolescentes, estamos mostrando como o Brasil evoluiu nas últimas três décadas e como elas foram importantes para os adolescentes”, diz.

Gustavo e mais 52 vozes escreveram a Carta de Brasília, manifesto apresentado pelos adolescentes durante as celebrações dos 30 anos da CDC, que narra os avanços e desafios da infância e da adolescência no Brasil nas últimas três décadas. Para Gustavo, participar desse momento é uma forma de confirmar a sua luta. “Se existem pessoas que construíram todos esses 30 anos, nós também podemos construir mais 30, mais 60”.

Por isso, deixa um conselho para todos os adolescentes que quiserem ouvir: “nunca ter medo, nunca cessar sua voz, ser ativo. Onde você tiver oportunidade, fale. Você é multiplicador, você é capaz de mudar o Brasil, a história, basta você querer e lutar sempre pelo seu direito”.

Leia o manifesto na íntegra.