Para cada criança e adolescente, 53 vozes

Em comemoração aos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, adolescentes de todo o Brasil uniram suas vozes, na capital do País, para construir a Carta de Brasília, exigindo a efetivação de seus direitos

UNICEF Brasil
19 Novembro 2019

“Somos adolescentes em busca de um país melhor, somos de vários lugares: das cidades, do campo, da floresta, das favelas, dos quilombos, das aldeias, das fronteiras.”

Essa foi a primeira frase escrita por 53 adolescentes de diversas partes do País, recebidos no planalto central brasileiro. Das praias às aldeias indígenas, dos grandes centros urbanos à zona rural, do Brasil à Venezuela, meninas e meninos se reuniram no centro do País com um só objetivo: levar a sua voz para os adultos e exigir seus direitos.

Durantes três dias na capital federal, de 11 a 13 de novembro de 2019, os adolescentes, com idades variando entre 13 e 20 anos, redigiram a Carta de Brasília – manifesto pela preservação da vida e pela garantia dos direitos de cada criança e adolescente –, que está sendo lida nas solenidades de comemoração dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) em várias cidades do País.

diversos adolescentes estão em volta de cartazes que estão no chão de uma sala. Eles olham os cartazes.
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

53 crianças, 53 vozes, cada uma ecoando à sua maneira
O tewte* pendurado no pescoço e o vipuki* no rosto de Rosane Martins, de 16 anos, reafirmam suas origens. A adolescente é do povo indígena puyanawa, que significa caminhada longa, situado a 17 km do município de Mâncio Lima, no Acre. Na aldeia, frequenta a escola indígena e mora na única casa de palha, mantida por seu pai, um dos líderes que almeja manter suas tradições. “Nosso povo foi sofrido no passado. Tivemos nossa cultura praticamente destruída e hoje estamos tentando resgatá-la”, conta. Com apenas 16 anos, Rosane busca reviver a história dos puyanawas e levar esse legado para outros adolescentes da própria comunidade.

Fora do Acre pela primeira vez, veio a Brasília representando sua cultura e suas tradições, para dizer: crianças indígenas também têm voz. “O assunto do encontro me chamou atenção, porque a criança é o futuro da sociedade. Ela que vai crescer e vai ser a liderança. É uma oportunidade única”, alegra-se.

No mesmo grupo, a voz de Gustavo Guedes destaca-se. Membro do Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA), estratégia de participação de adolescentes do Selo UNICEF, o menino de 15 anos busca mobilizar outras crianças e outros adolescentes para que sejam multiplicadores. Multiplicadores de experiências, de conhecimentos e, principalmente, de protagonismo. “Sempre tento levar essa mensagem. O adolescente não é apenas o futuro, é também o hoje. Se existem pessoas que construíram todos esses 30 anos, nós também podemos construir mais 30, mais 60”.

Vindo do município de Picuí, na Paraíba, Gustavo acredita que sua principal contribuição para o manifesto é lembrar que há crianças que ainda têm seus direitos cotidianamente violados no Semiárido brasileiro. Além disso, alegra-se em reafirmar o seu compromisso em mudar essa situação. “Hoje, celebrando os 30 anos com a presença de todos estes adolescentes de vários Estados e que representam várias culturas, estamos mostrando como o Brasil evoluiu nas últimas três décadas e como elas foram importantes para os adolescentes”, diz.

Para Gaby Mencia, a experiência foi um pouco diferente. Moradora do abrigo Rondon I, em Boa Vista, no Estado de Roraima, a venezuelana chegou ao Brasil há poucos meses e ainda está se adaptando a tudo: ao idioma, à cultura, às pessoas e ao País. Mesmo em meio a tudo isso, a adolescente de 16 anos encontrou forças e expressou a sua opinião. Foi até a capital para contribuir com os direitos das crianças migrantes e lembrar que as suas vozes existem.

Para ela, a experiência foi decisiva: ao voltar para Boa Vista, quer ensinar às crianças migrantes sobre os seus direitos. “Quero dar palestras de motivação para crianças e adolescentes dando uma nova esperança. Dizer que podem estudar sem discriminação, que podem alcançar seus sonhos e que não devem deixar de seguir seus sonhos”, conclui.

um grupo de adolescentes segura placas coloridas em um auditório
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

A voz de cada menina e menino na Carta de Brasília
Como Rosane, Gustavo e Gaby, os adolescentes reunidos em Brasília fizeram ecoar um só discurso, escrito a 53 mãos. A Carta de Brasília – nome dado pelos adolescentes ao documento – é o resultado de dias de imersão e expressa suas vozes, identidades e seu direito à participação. Refletindo sobre os avanços que a Convenção trouxe para os direitos da criança, os adolescentes celebraram as conquistas que impactaram diretamente sua vida nos últimos 30 anos. A redução da mortalidade infantil e o Sistema de Garantia de Direitos integral a todas as crianças brasileiras foram algumas das vitórias nessas três décadas.

Porém, os desafios que meninos e meninas ainda enfrentam são muitos – e novos. Homicídios, falta de participação de adolescentes, trabalho infantil e a dificuldade para garantir os direitos das crianças migrantes são apenas alguns dos problemas que exigem ação para ser resolvidos.

Em meio a adultos, os meninos e meninas subiram ao palco na capital do País para alertar: resistiremos sem deixar nenhuma criança ou nenhum adolescente esquecido. E agora viajam o Brasil levando a mensagem a suas comunidades.

Leia o manifesto na íntegra.

*tewte significa colar na língua indígena puyanawa e vipuki é o nome da pintura feita no rosto.