“Não caio mais, só levanto”

Estudante diagnosticado com HIV/aids transforma o choque do teste em autocuidado

UNICEF Brasil
20 julho 2020
um gato está deitado em um sofá com uma almofada atrás
Arquivo pessoal
A gata Frida Kahlo, muitos livros e uma centena de plantas: a nova casa de José é o seu recanto de paz.

José apoiou as costas na parede e deixou-se escorregar lentamente até sentar no chão. Era a primeira semana de dezembro de 2019. Estava na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e acabara de receber uma notícia com a qual ninguém sonha. Uma informação que mudaria sua vida.

José é um nome fictício. O jovem estudante de 22 anos prefere assim. Sua família, do interior do Estado, ainda não sabe que ele testou positivo para HIV/aids no fim do ano passado, quando a equipe do projeto Viva Melhor Sabendo Jovem Vitória visitou o campus da Ufes. Acostumado a cuidar-se em suas relações sexuais, foi pego de surpresa.

“Foi um choque, fiquei muito triste com o resultado do teste. Por mais que tenha tratamento, HIV é para a vida toda. Comecei a pensar no meu namorado: será que passei para ele? Como ele vai lidar com a situação? Como eu mesmo vou lidar com algo que nunca esteve nos meus planos?”, recorda.

A equipe do Viva Melhor Sabendo Jovem Vitória realizou 940 testes na capital, em uma iniciativa do UNICEF e da Associação Gold, em parceria com a Prefeitura de Vitória e a Secretaria Estadual de Saúde. Durante nove meses, o projeto buscou prevenir HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre adolescentes e jovens na cidade de Vitória, além de promover a testagem rápida e o acesso ao atendimento adequado de saúde de novos casos. No decorrer do projeto, 11 casos deram reagente positivo para HIV, e 32 para sífilis.

O resultado dos testes de HIV, feito a partir de uma pequena coleta de saliva, fica pronto em 15 minutos. “O importante, em primeiro lugar, é saber. Depois é cuidar”, afirma Déborah Sabará, presidenta da Gold.

Hoje José conversa serenamente sobre a tempestade que despencou em sua vida, e se sente em paz consigo mesmo. Seu namorado testou negativo, e os dois estão juntos até hoje. Ele sempre morou em repúblicas estudantis em Vitória, mas decidiu mudar e viver sozinho – precisava respirar novos ares. Alugou um apartamento para onde levou seus livros e plantas. Adotou Frida Kahlo, uma gata frajola, sua companheira de quarentena.

Logo na primeira consulta médica, em um centro de referência para onde a equipe do Viva Melhor Sabendo Jovem o encaminhou, uma conversa com sua médica foi marcante para a forma de encarar o diagnóstico. "Isto não é um atestado de morte. É um atestado de vida", ela lhe disse. Mas ele demorou quase dois meses até começar o tratamento.

“Não sei por que, acho que não tinha me adaptado à nova condição, ou talvez tenha dado uma de doido mesmo. Fingia que estava tranquilo, tentando me forçar de algum modo a ficar bem. Eu não queria me tratar, mas entendi que precisava. Comecei a contar para meus amigos e, ao falar com as pessoas, fui ficando tranquilo”, conta.

Foi então que um mundo de possibilidades se abriu diante de José. Como resposta ao impacto do que aconteceu, passou a dar mais valor ao tempo, aos seus prazeres e afazeres. Começou um curso de costura. Antes da quarentena, passava o dia na rua, estudando e trabalhando em seu estágio. Hoje, o trabalho é remoto.

“Cuido da gata, cuido das plantas, estou com vontade de aprender artesanato. Não sei se quero bordar, fazer crochê ou alguma outra coisa”, diz. Por causa do novo coronavírus, está isolado com Frida, e só sai de casa para ir ao mercado. “É a minha terapia. Ver a rua, olhar as pessoas um pouco, mas com todos os cuidados”. Ele diz que só lembra da soropositividade na hora de tomar os remédios, às 22h, dois comprimidos por dia.

Morar sozinho faz parte de um novo momento – intenso, desafiador, mas cheio de descobertas. Uma oportunidade para ele se aprofundar em si mesmo, em seus estudos de educação popular e movimentos sociais na América Latina, e no seu maior prazer: cuidar de plantas, algo que herdou de sua avó.

José tem em casa uma floreira cheia de rosas (“estão todas floridas, por sinal”, diz), espadas de São Jorge, duas rosas do deserto, pés de abacaxi e inhame ornamentais, jiboia, costelas de adão, samambaias, e mais de 60 cactos e suculentas. Desde criança, ele tem a mão boa para mexer com plantas.

“Se não colocamos a beleza no centro de tudo, ficamos concretados e cinzas como as cidades”, ele reflete, enquanto rega suas plantas.

Ele não se ilude. Diz que não é motivo de felicidade saber que é soropositivo, “mas tampouco é um motivo para eu me jogar na fossa”. Seu autocuidado é muito maior hoje do que antes daquela noite de dezembro em que recebeu o diagnóstico. Seu amor próprio se expandiu.

“Está sendo um divisor de águas na minha vida. Hoje não caio mais. Só levanto”.