“Jovem, negro, da favela, cresci com HIV e conquistei o meu lugar com a música”

O rapper Filipe Trindade, 27 anos, encontrou na música e no projeto Viva Melhor Sabendo Jovem um jeito de ser ele mesmo e enfrentar o preconceito, sofrido desde criança, por viver com HIV

UNICEF Brasil
o jovem Felipe está com uma camiseta do projeto Viva melhor sabendo jovem e um boné onde se lê Rio Pequeno
UNICEF/BRZ/João Gil

10 Julho 2019

Filipe Trindade, também conhecido como Smoke, tem 27 anos e nasceu no Rio de Janeiro. Ele se mudou para São Paulo quando bebê e cresceu no distrito do Rio Pequeno, Zona Oeste de São Paulo. Com 116 mil habitantes, segundo o censo de 2010, cercado por favelas e condomínios residenciais, o distrito espelha as desigualdades da cidade.

O jovem foi criado pela família paterna, dividindo quarto com o tio e a avó. Foi a avó quem o criou, uma vez que sua mãe faleceu dias depois do seu nascimento, por causa do HIV. Trindade frequentava uma creche, e sempre foi muito agitado e espoleta. Foi então que ele sofreu seu primeiro preconceito, com apenas 8 anos de idade. “Eu prendi o dedo na porta e começou a sangrar, aí os educadores não souberam lidar com a situação. Eles sabiam que eu era soropositivo e me deixaram isolado”, conta.

Após esse episódio, sua mãe, Meire Cardoso (como ele gosta de chamar sua avó paterna que o criou), decidiu mudá-lo de uma creche para uma escola e trazê-lo mais para perto, no Rio Pequeno. Algum tempo se passou, mas Trindade continuou sendo a criança mais levada da escola. Foi no momento em que, durante uma brincadeira, ele caiu, bateu a cabeça e levou cinco pontos, que, pela primeira vez, sua mãe lhe contou sobre o HIV e o porquê de ter que interná-lo com frequência. “Eu estava em casa quando ela me contou os motivos de eu tomar aqueles remédios. Ela falou que eu tinha bichinhos no meu corpo e que os remédios combatiam eles”, relembra.

Felipe pequeno na bicicleta. Ele usa um casaco com capuz.
Arquivo pessoal

Com sua inocência, Trindade não tinha noção e não entendia qual era a gravidade da situação. Ele achava que o vírus era semelhante ao vírus da gripe. Sua rotina de intervalos na escola era focada em tomar os medicamentos. Questionado pelos amigos sobre o porquê do uso contínuo de remédios, Trindade decidiu contar sua soropositividade. “Foi como pisar num formigueiro e as formigas se espalharem. Tinha a impressão de que todas as crianças sabiam o que era isso e eu não. Todas me olhavam diferente. Até os professores me tratavam de um jeito diferente, alguns me tratavam por pena, outros me excluíam mesmo”. Apesar de a situação ser generalizada, Trindade relembra que seu amigo Daniel era o único que o tratava de maneira normal. “Falaram para ele não me tocar porque eu tinha aids. Mas ele não deixou de fazer isso”. Hoje, Trindade completa 20 anos de amizade com Daniel e o considera seu melhor amigo.

Por ter vivenciado duas experiências que diziam respeito à sua soropositividade, Trindade começou a ir atrás para entender o que era “viver com HIV”. Começou a frequentar rodas de conversas da organização Ânima Educação, trocar informações com outras pessoas e descobrir que existiam outras pessoas que eram assim como ele. Esse foi um momento crucial para a vida de Trindade, que viu na música uma maneira de se expressar com mais naturalidade sobre o assunto. Apaixonado pelo rap, o jovem decidiu aliar seu maior hobby àquilo que tanto o distanciava dos outros, mas que, ao mesmo tempo, o fazia se encontrar consigo mesmo. “O Eminem foi minha referência, por causa das letras dele que eram mais sobre sua vida pessoal, e o Racionais MC pela desigualdade social e os preconceitos”.

Tudo era na base do improviso. Trindade gravou sua primeira letra, o Rap da Adesão – que fala sobre adesão a tratamentos, mas não abertamente sobre o HIV –, com um celular antigo. “Comecei a estudar sobre edição de música. Eu ia pra casa dos meus amigos, que tinham internet, pegava emprestado um HD e baixava alguns vídeos tutoriais”. Na época, ele estava frequentando aulas de leitura e escrita na Ânima e não demorou muito tempo para ele se sentir à vontade e querer mostrar para o público as letras que havia escrito. “Eu cantei pela primeira vez no CEU [Centro Educacional Unificado] Butantã. Naquele momento, vi que tinha potencial e decidi continuar escrevendo”.

o jovem Felipe está num descampado. Atrás dele há um muro grafitado e um prédio. Ele usa camiseta branca, boné e óculos escuros.
UNICEF/BRZ/Mélanie Layet

Naquela época, Trindade havia se encontrado na música, mas se desencontrado nos estudos. Foi reprovado três vezes no 1º ano do ensino médio e, por isso, decidiu fazer o supletivo. “Eu tenho certeza de que eles queriam me ver longe de lá, por isso, me passaram direto [no supletivo], por causa do HIV. Não existe outro motivo, eu não era tão bom na escola”, conta. Desmotivado, Trindade acabou largando os estudos e se mudando para Carapicuíba com sua mãe, onde morou durante seis meses.

Tempos depois, seu pai, que não havia sido presente nessa fase da adolescência, faleceu de pneumonia e do agravamento do HIV, que já havia passado para o estágio da aids. Uma das poucas lembranças marcantes que tem de seu pai é de uma redação que escreveu para a escola sobre sua história de vida. “Eu tenho a redação original até hoje, está guardada com a escrita do meu pai, com a sua letra. Eu e ele revisamos juntos”, relembra.

Após o falecimento de seu pai, Trindade decidiu desabafar e externar seus sentimentos, também por meio da escrita, mas dessa vez, na criação de seus raps. De letras mais animadas, suas composições passaram a ficar cada vez mais pesadas e complexas. “Tudo que eu não conseguia falar na escola, por conta do preconceito, eu mandava na letra. Eu falava sobre o preconceito na escola, a morte dos meus pais, a questão dos remédios, o fato de ser um jovem portador, negro, que cresceu na comunidade, na favela”, diz. Essa fase, quando tinha 19 anos, marcou a rebeldia de Trindade e, ao mesmo tempo, seu processo de aceitação sobre sua soropositividade. “Depois da morte do meu pai, eu fiquei até seis meses sem aderir ao tratamento. Jogava o remédio fora, no ralo, no vaso, mas aí criei coragem para encarar o vírus e me aceitar. Eu só tive noção de que havia contraído o vírus por transmissão vertical, durante a gravidez de minha mãe, com o passar do tempo”, conta.

Trindade passou por um processo de mudança também de endereço. Uma amiga o inscreveu no curso de informática da Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etec) e, apesar de ter trabalhado em lan house, bicicletaria e como agente de prevenção, o jovem não conseguiu se manter em São Paulo. Fez uma última tentativa no distrito do Jaguaré, onde morou num barraco, mas não aguentou nem seis meses. Por isso, se mudou para Itanhaém, litoral norte de São Paulo, onde continuou seus estudos. “Foi uma mudança muito drástica sair de São Paulo para uma cidade pequena, litorânea, não conhecer ninguém, eu até tive uma pequena depressão, ficava no meu quarto, sem tomar os remédios, cheguei a emagrecer muito mais. Ficava isolado mesmo”, lembra.

Concluiu o curso de informática e ingressou, na sequência, no curso de meio ambiente. Durante esse processo, havia criado seu canal no YouTube, mas não inseria muitos conteúdos, nem falava sobre o HIV. Após três anos da criação do canal, Trindade escreveu Eu Sou Exagerado Pra C* e lançou, pela primeira vez, a música Eu Sou Juiz, no YouTube. “Eu Sou Juiz não fala só sobre mim, mas como as pessoas julgam quem usa roupa larga, é negro, pelo cabelo, pelo jeito de falar com gírias. Ela é uma música genérica que serve para outros jovens que são julgados por ser altos, baixos, gordos, negros, asiáticos, mas não fala do HIV”.

o jovem Felipe segura um microfone. ele usa uma jaqueta, boné e óculos escuros
UNICEF/BRZ/João Gil

A partir daquele momento, o jovem estava cada vez mais à vontade e aberto para falar em público sobre sua soropositividade e o que havia passado na adolescência. Trindade se apresentou, mais um ano, no coral da Ânima, dessa vez cantando Eu Sou Juiz. “Aquela foi a primeira vez que ganhei dinheiro com a música e comprei meu primeiro microfone... ah, aquilo ali foi a melhor coisa que me aconteceu. Quando eu cantei abertamente pela primeira vez, eu senti liberdade, e senti também que estava fazendo um favor, passando informação por meio da minha vida”, relembra. Essa foi a sua grande virada de chave. Trindade, naquele momento, sentiu que se consagrou como compositor, criando até seu nome artístico. “Eu tinha um skate escrito smoke, e aí os moleques falaram que, como eu gostava de rap, eu deveria usar esse nome como nome artístico. Aí eu olhei pro skate, olhei pros caras, e pensei... é, agora eu vou ser o Smoke. Muita gente me chama de Smoke, ou Trindade. Aí o Smoke virou o vulgo do rap”, conta.

Seu sentimento de liberdade, de falar abertamente e em público sobre viver com HIV, os preconceitos que enfrentou, trouxe a questão de ser ativista, que veio amadurecendo com o tempo. “Desde que eu comecei a entender essa ideia do que é ser ativista, eu coloquei na cabeça que queria trabalhar numa ONG, de uns três anos pra cá, que é a minha cara, é o que eu já vivo, o que eu já faço”. Foi então que a diretora da Ânima viu no projeto Viva Melhor Sabendo Jovem uma oportunidade para Trindade. “O projeto foi um grande pontapé para mim. Gosto de preencher fichas porque é possível conhecer as pessoas e entender melhor a sociedade”, conta.

Durante uma ação na Praça Princesa Isabel, região central de São Paulo, Trindade abordou uma mulher que havia contraído o vírus do ex-marido, mas seus filhos não eram soropositivos. Quando ele falou também sobre sua soropositividade, sentiu que a moça ficou mais tranquila e se reconheceu. “Antigamente o HIV tinha uma certa “cara”, como o Cazuza: magro, debilitado e fraco. Hoje não tem mais isso, as pessoas olham para mim e falam ‘Nossa! você tem HIV? Nem parece’, e eu falo: ‘precisa parecer?’”. Por isso, Trindade acredita que o projeto é importante por justamente passar informações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) para jovens, de uma maneira leve, que eles entendem. “O VMSJ é importante porque ele dá informação para o jovem passar informação mais para frente. É uma troca, e isso é ser um multiplicador. Um garoto que sofria preconceito, não falava sobre isso, se escondia, com medo, não falava para ninguém... nem me imaginava na ideia de lutar pela causa”.

O projeto proporcionou para o jovem inúmeras experiências, trocas de conhecimento, contato com realidades distintas e, além disso, conseguiu uma bolsa de estudos para fazer um curso de DJ e trilhar carreira conciliando a música e a disseminação de informação sobre o HIV. “Meu maior sonho? É fazer sucesso na música, quero viver disso”, diz.

Sobre o Viva Melhor Sabendo Jovem – O Viva Melhor Sabendo Jovem, uma parceria do UNICEF com o Instituto Cultural Barong e o Programa Municipal de DST/Aids (PM DST/Aids), da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de São Paulo, tem como objetivo ampliar o acesso de adolescentes e jovens entre 15 e 24 anos aos testes de HIV, sífilis e hepatites B e C, bem como a retenção ao tratamento em caso de positividade do(s) exame(s) e o acesso às informações sobre prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Para isso, leva uma van a locais que os jovens mais frequentam, e utiliza a metodologia de educação entre pares, isto é, jovens abordando e orientando jovens. O resultado dos testes é informado em cerca de 30 minutos.