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"Foi no Brasil que tivemos a oportunidade de estudar pela primeira vez”

Com o projeto Laços Educativos, escolas da rede municipal de Boa Vista se preparam para se tornar mais inclusivas e sensíveis às necessidades de todos os estudantes.

UNICEF
duas estudantes se abraçam enquanto sentadas em uma mesa de biblioteca escolar
UNICEF/BRZ/Jesús Cova
02 dezembro 2024

Em um bairro periférico de Boa Vista, capital do estado de Roraima, corredores e salas de aula são tomados por sotaques, línguas e dialetos diferentes. A estrutura da escola transmite essa diversidade em suas sinalizações com placas poliglotas, desenhos e figuras que refletem os estudantes. Na entrada da escola, há um desenho que diz em português, espanhol e na língua indígena warao “Bem-vindos/Bienvenidos/Yakera Yarokotu”. “Gostamos muito de estar aqui, nos sentimos bem”, conta Zulibetty Galindo, de 13 anos, enquanto brinca com a irmã mais nova, Diocelin Herrera, de apenas sete anos. Morando há menos de um ano no Brasil, é a primeira vez que as meninas venezuelanas frequentam uma escola.

Foi por conta dessa dinâmica de acolhimento que a Escola Municipal Nova Canaã se tornou o cenário perfeito para a implementação do projeto Laços Educativos, uma iniciativa do UNICEF com a prefeitura de Boa Vista e a Universidade Federal de Roraima, que visa, por meio da troca de conhecimentos entre acadêmicos bolsistas, professores supervisores e estudantes das escolas municipais, desenvolver novas práticas que respeitam diferentes culturas e realidades linguísticas, oferecendo um acolhimento sensível às necessidades de todos os alunos.

“Quando eu e Diocelin chegamos aqui, não sabíamos ler ou escrever o nosso próprio nome. Não sabíamos falar português”, explica Zulibetty. “Mas foi no Brasil que tivemos a oportunidade de estudar pela primeira vez”, completa.

Para muitas crianças, um novo universo se expande ao ir à escola. Elas começam a acessar espaços e objetos curiosos que, até então, eram inacessíveis: livros, quadras, lousas, pátios e massas de modelar. Há uma nova rotina, novos procedimentos e novas relações sociais. E em Roraima, que recebe um expressivo número de alunos de diferentes culturas e nacionalidades, um novo universo também se expandiu aos professores, que agora enfrentam um inédito desafio em suas carreiras: o de ensinar e alfabetizar crianças em um contexto bilíngue.

professora ajuda aluno com atividade no quadro branco
UNICEF/BRZ/Jesús Cova “O projeto Laços Educativos está me preparando para me tornar uma boa professora. Uma professora que consegue adequar suas práticas à realidade posta em sala de aula”, conta Islla Carolyne.

No seu primeiro dia como bolsista do projeto Laços Educativos, a estudante Islla Carolyne, que cursa pedagogia na UFRR, se deu conta da diferente realidade que a espera no futuro dentro de sala de aula.

“Em Roraima estamos vivendo um contexto muito singular, que é diferente do que a gente aprende na faculdade. Nas escolas, temos alunos que apresentam diferentes níveis de aprendizado em uma mesma sala e cada uma delas deve ter esse apoio, independentemente de onde vem”, explica.

Foi durante o primeiro dia como bolsista do projeto, enquanto observava os estudantes em sala de aula, que Islla percebeu que Diocelin não conseguia desenvolver as atividades propostas.

“Eu achava que era por conta do idioma, mas mesmo em dupla com outra criança que fala espanhol, ela ainda apresentava muita dificuldade”, explicou a acadêmica. “Mas um dia, enquanto estávamos fazendo uma atividade em que algumas questões tinham figuras, ela demonstrou mais facilidade para responder. Eu comentei com minha supervisora e com a professora da sala, e utilizamos dessa estratégia para integrá-la”.

A partir dessa estratégia, Diocelin aprendeu a escrever o próprio nome e a participar mais ativamente das atividades em sala de aula. Ela brinca com os colegas enquanto faz os exercícios propostos e, simultaneamente, aprende a ler, escrever e a falar em português.

Durante sua passagem pela escola, Islla acompanhou salas do primeiro ao quinto ano e teve contato com a irmã de Diocelin, Zulibetty. Ela relata que a adolescente é uma estudante proativa em sala de aula e que tem muitos amigos, tanto venezuelanos, quanto brasileiros. A acadêmica explica que Zulibetty aproveita do espaço de acolhimento que a escola proporciona para testar as novas palavras que aprendeu em português, enquanto complementa em espanhol as lacunas das palavras que ainda vai aprender.

Zulibetty é uma entre os 348 adolescentes entre 12 e 17 anos com distorção idade-série matriculados em turmas do 1º ao 5º ano das dez escolas onde o projeto é desenvolvido. Por estar frequentando pela primeira vez a escola, ela está no terceiro ano do Ensino Fundamental e, com ajuda do projeto Laços Educativos, está se preparando para avançar cada vez mais em sua trajetória escolar.

“Quando vim para a escola pela primeira vez, me senti feliz, mas nervosa pelo que estava por vir. Depois de alguns dias, conheci mais a escola e gostei de como ela é. Meus professores me ensinaram muito”, ressalta a adolescente.

A professora supervisora do projeto na escola Nova Canaã, Rita Isabelle, destaca que as escolas estão prontas para se reinventar a partir dos novos desafios que surgem.

“Queremos mostrar aos alunos que eles pertencem a este lugar. Trabalhamos isso nos mínimos detalhes”, frisa.

crianças fazem atividade educativa no chão
UNICEF/BRZ/Jesús Cova “Me impacta ver o quanto Diocelin está feliz desde que chegou aqui. Ela ama vir para a escola, ama estudar e estar com seus colegas. Ela já até fala um pouco de português. Era um sonho dela, ela vivia dizendo para minha mãe que queria estudar”, conta entusiasmada a irmã, Zulibetty.

Laços Educativos

O projeto Laços Educativos está presente em dez escolas municipais de Boa Vista - Roraima, selecionadas por seu trabalho com práticas pedagógicas de alfabetização e letramento. Nessas escolas, que atendem uma significativa quantidade de estudantes migrantes, principalmente venezuelanos, professores têm enfrentado o desafio de alfabetizar crianças de diversas culturas e nacionalidades.

Entre maio e novembro de 2024, 30 estudantes da Universidade Federal de Roraima, dos cursos de Pedagogia, Letras e Artes Visuais, participaram de atividades pedagógicas supervisionadas por professores de dez escolas municipais de Boa Vista. Cada grupo, composto por três bolsistas, atuou em uma escola, desenvolvendo e registrando suas experiências em relatórios mensais, que serviram como base para reflexões e análises do projeto, implementado pelo Instituto Pirilampos.

O projeto Laços Educativos conta com o apoio financeiro do Governo dos Estados Unidos, da União Europeia e da Espanha, por meio do Escritório para População, Refugiados e Migração do Departamento de Estado dos Estados Unidos (PRM, na sigla em inglês), do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO, na sigla em inglês) e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID).