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Como o acesso a oportunidades ajudou Sarai a conquistar o primeiro emprego

Sarai Sofia, de 16 anos, conseguiu seu primeiro emprego em um contexto onde todas as possibilidades pareciam impossíveis

UNICEF
jovem de cabelos escuros vestindo uniforme de trabalho azul olha para o lado esquerdo, ao fundo se vê uma torre de distribuição de energia elétrica
UNICEF/BRZ/Katarine Almeida
08 junho 2026

Aos 16 anos, Sarai Sofia já tem uma rotina intensa. Ela acorda cedo, prepara o próprio almoço, chega ao trabalho antes das 8h e segue a manhã entre arquivos, atendimentos e aprendizados. Quando chega o fim do expediente, ela assume o papel de estudante. E no meio disso tudo, vai construindo algo que, há poucos anos, parecia impossível: um futuro com escolhas.

Indígena Akawayo e imigrante venezuelana, mudou-se para o Brasil aos 11 anos de idade. “Eu gostei da escola, do idioma, das pessoas… do jeito que tratam a gente”, disse. O começo, no entanto, foi difícil.  As palavras não faziam sentido, as provas eram um desafio, e a vontade de desistir apareceu. Entretanto, ela persistiu e aprendeu o idioma aos poucos na escola, nas conversas. E foi nesse processo que encontrou oportunidades que mudaram sua trajetória.

O 1 Milhão de Oportunidades (1MiO), iniciativa do UNICEF Brasil e da Generation Unlimited que conecta adolescentes e jovens a formação profissional, aprendizagem e emprego, esteve em Roraima com uma estratégia adaptada para as escolas públicas e abrigos humanitários da Operação Acolhida. O “Plano de Vida”, como passou a ser chamado pelos profissionais do Súper Panas, substituiu os links pelas apostilas - por conta da falta de acesso a celulares e computadores - e cursos como o de empreendedorismo, que aconteciam no meio digital, passaram a ser ministrados de forma presencial para que os adolescentes pudessem participar. Foi nesse ambiente que Sarai começou a pensar no futuro de forma concreta. Com o Plano de Vida, a adolescente descobriu as oportunidades que existem no Brasil, aprendeu sobre as profissões e como se preparar para uma entrevista de emprego.

jovem de cabelos compridos e escuros vestindo uniforme de trabalho azul e crachá segura papeis nas mãos e posa para foto em um escritório empresarial
UNICEF/BRZ/Katarine Almeida

O Instituto Pirilampos, parceiro de implementação do UNICEF no Plano de Vida, também dedicou parte do processo para ensinar os participantes a mexer no computador e fazer seus próprios currículos. Mais do que aprender técnicas, Sarai começou a se enxergar com possibilidade e planejar o seu futuro. Fez cursos de informática, comunicação e empreendedorismo, buscou qualificação por conta própria e se inscreveu para oportunidades. Com apoio de um assistente do Súper Panas que ministrava o Plano de Vida, ela se inscreveu no Sistema Nacional de Empregos (SINE) e foi chamada para sua primeira entrevista.

“Quando eu fui chamada para a entrevista, eu corri para contar para o Fernando (assistente no Súper Panas), e ele me ajudou a me preparar. Me ajudou com as possíveis perguntas, como responder, como me portar. E tudo que ele me ensinou, eu usei. Muitas das perguntas que treinamos apareceram na entrevista”, contou entusiasmada.

A aprovação veio pouco depois. Sarai conquistou sua primeira vaga como jovem aprendiz em uma empresa energética em Boa Vista, a Roraima Energia. Antes de chegar a exercer a função na empresa, a adolescente passou seis meses tendo aulas e se preparando no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), e agora, há pouco mais de um mês, já está integrada na rotina do seu primeiro local de trabalho.

“Acredito muito na importância de ter um processo bem estruturado, que garanta acesso para todos, mas sem perder de vista as situações de vulnerabilidade. É preciso olhar para mérito e comportamento, sim, mas com sensibilidade”, destaca Alessandra Lemos, gerente de Recursos Humanos da Roraima Energia. “Sempre falo para os jovens aproveitarem essa oportunidade, porque aqui também é um espaço de aprendizado. Muitos vêm de uma formação estruturada, como no SENAI, mas encontram uma dinâmica diferente no dia a dia da empresa, e isso faz parte do processo. A gente também aprende muito nesse caminho”.

Para Sarai, o trabalho trouxe renda, mas também autonomia. Com o primeiro salário, comprou roupas, guardou dinheiro e começou a planejar o futuro. Sarai pretende viajar, continuar estudando e pensa em cursar Direito ou Psicologia. 

“Eu mudei muito. Hoje eu tenho mais responsabilidade, mais organização. Eu quero mostrar para todos que eu consigo, que posso ter estabilidade e construir uma história diferente daquela que todos achavam que eu teria”, destaca.

Passaporte para o futuro

No mundo todo, milhões de jovens ainda enfrentam dificuldades para acessar oportunidades reais de formação e trabalho. Falta acesso a habilidades relevantes, caminhos claros de aprendizagem e formas de comprovar o que sabem fazer. Para enfrentar esse desafio, a iniciativa 1 Milhão de Oportunidades (1MiO), do UNICEF, desenvolve ações que visam apoiar o desenvolvimento de habilidades que possibilite uma transição positiva da escola para o mundo do trabalho.

Parte dessas atividades envolve a oferta de cursos de capacitação na plataforma digital Passaporte para o Futuro (Passport to Earning), apoiada globalmente pelos Parceiros Principais Accenture, Dubai Cares, Global Affairs Canada e Microsoft Elevate. No Brasil, o objetivo dessa parceria é contribuir para a formação de adolescentes e jovens, sobretudo nos territórios prioritários de atuação do UNICEF no País, como a Amazônia, o Semiárido e grandes centros urbanos. Desde 2021, quase 6 milhões de jovens já foram certificados em diferentes países, incluindo o Brasil; isso inclui 2 milhões treinados especificamente em habilidades digitais e de IA.

No país, quase 9 milhões de jovens ainda não estudam nem trabalham, e as desigualdades atingem com mais força meninas, jovens indígenas, negros e outros grupos historicamente excluídos. Sarai sabe disso. E, por isso, quando fala com outras meninas como ela, deixa um conselho. “Não deixe a baixa autoestima te parar. Sempre vai ter gente negativa, mas a vida é uma prova individual.”

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