Sete comportamentos cruciais para salvar vidas nas comunidades em Angola.

Práticas básicas, como o consumo de água segura, podem evitar doenças e reduzir a procura desnecessária por cuidados hospitalares.

Manuel Castelo
Sete comportamentos cruciais para salvar vidas nas comunidades em Angola
UNICEF Angola/2026
20 Julho 2026

Luanda 15 de Julho 2026 - Num passo decisivo para reforçar a saúde pública em Angola, a Direcção Nacional de Saúde Pública (DNSP), com o apoio técnico e financeiro do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e de outros parceiros, realizou, no mês de Julho em Luanda, uma jornada técnica para o desenvolvimento da Estratégia Nacional de Mudança Social e de Comportamento em Saúde. O encontro reuniu especialistas, decisores e agências de cooperação e permitiu reduzir uma lista de 126 comportamentos ideais a sete prioridades. O propósito é concentrar recursos, orientar os profissionais e ajudar as famílias a prevenir doenças antes que estas exijam atendimento nas unidades sanitárias.

A jornada realizou-se no ano em que se assinalam quatro décadas da Carta de Ottawa, adoptada em 1986, que consolidou a promoção da saúde como um processo que capacita as pessoas e as comunidades a exercerem maior controlo sobre a sua saúde. Este princípio é particularmente relevante em Angola, onde a prevenção, a confiança nos serviços e a participação comunitária são essenciais para melhorar os resultados de saúde.

Para o Dr. Frederico Brito, Chefe dos Programas de Saúde e Nutrição do UNICEF em Angola, ao falar na abertura do Workshop, esta iniciativa reafirma que a saúde não se produz apenas em hospitais e centros de saúde: começa nas famílias e nas comunidades.

“Queremos colocar a saúde como bandeira, e não fabricá-la apenas nos hospitais ou nos centros de saúde. A saúde começa nas famílias e nas comunidades”, afirmou, destacando o compromisso do UNICEF em apoiar as prioridades do Ministério da Saúde, com assistência técnica e equipas preparadas no terreno para proteger crianças e mulheres.

Sete comportamentos cruciais para salvar vidas nas comunidades em Angola
UNICEF Angola/2026

Por sua vez, Dra. Helga Freitas, da DNSP, reforçou que os ganhos em saúde não dependem apenas de infra-estruturas, medicamentos, vacinas e profissionais qualificados. Dependem também das condições de vida, das escolhas quotidianas e das normas sociais que influenciam os comportamentos. 

“O nosso papel é ensinar, mas também aprender com as comunidades, para harmonizar as suas necessidades com as nossas intervenções”, explicou.

Sete comportamentos cruciais para salvar vidas nas comunidades em Angola
UNICEF Angola/2026

Das 126 práticas a sete prioridades

Durante as sessões de trabalh os parceiros analizaram uma extensa lista de 126 comportamentos considerados ideais dificultava a monitorização e a sensibilização das populações. Durante a jornada, por meio de debates e avaliações em grupos de trabalho, o número foi reduzido primeiro para 22 e, posteriormente, para sete comportamentos prioritários.

Vagno Gomes, gestor de projectos da World Vision, sublinhou que a redução permitirá maior foco aos profissionais e parceiros. Destacou ainda o carácter participativo do processo: as prioridades não foram impostas externamente, mas identificadas localmente, com base no impacto esperado e na realidade das comunidades angolanas.

Segundo a Dra. Filomena Wilson, coordenadora do Gabinete de Promoção da Saúde da DNSP, os sete comportamentos são: realizar todas as consultas pré-natais recomendadas; iniciar a amamentação na primeira hora de vida; praticar o aleitamento materno exclusivo até aos seis meses; cumprir o calendário completo de vacinação; procurar atendimento imediato em caso de doença; aderir ao tratamento do VIH; e proteger as crianças contra situações de risco e violência.

A médica de família recordou ainda que a saúde deve ser analisada à luz dos determinantes sociais. Práticas básicas, como o consumo de água segura, podem evitar doenças e reduzir a procura desnecessária por cuidados hospitalares. Com prioridades claras, acrescentou, os técnicos terão melhores condições para medir resultados e reforçar as acções de prevenção.

Sete comportamentos cruciais para salvar vidas nas comunidades em Angola
UNICEF Angola/2026

Comunidades no centro da resposta

A abordagem adoptada por Angola está alinhada com a Estratégia Regional para o Envolvimento Comunitário 2023–2030 da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Região Africana, que coloca as comunidades no centro da prevenção, preparação e resposta às emergências sanitárias.

Olívio Gambo, responsável de comunicação da OMS em Angola, explicou que esta visão valoriza a capacidade das pessoas para criarem condições de protecção nas suas próprias estruturas sociais. “Quando priorizamos os comportamentos com base na realidade local e na evidência, os recursos e os esforços são melhor aplicados”, afirmou.

O encerramento da jornada marca o início de uma nova etapa. O documento resultante servirá de base para consultas provinciais e diálogos com a sociedade civil, de modo a integrar na estratégia a diversidade geográfica, social e cultural do País. Esta participação será decisiva para transformar os sete comportamentos em práticas compreendidas, aceites e adoptadas pelas famílias.

O desafio é agora duplo: os profissionais do sector devem assumir o compromisso técnico de incorporar estas prioridades no trabalho diário; e as comunidades devem participar activamente na definição das soluções, com o apoio de autoridades locais, líderes comunitários, igrejas, escolas, meios de comunicação e organizações da sociedade civil.

Como sintetizou a Dra. Helga Freitas, “a mudança social e de comportamento não acontece por decreto, nem resulta apenas da transmissão de informação. Constrói-se através da confiança, da participação e da mobilização”. É nesta combinação entre serviços de qualidade, escolhas informadas e envolvimento comunitário que Angola poderá prevenir doenças, proteger crianças e mulheres e aliviar a pressão sobre as unidades sanitárias.