A Sombra e a Luta: As Marcas que Moldaram a Minha Alma
"O meu sorriso pode trazer as marcas de um passado violento, mas a minha voz é hoje inquebrantável."
Maputo, Moçambique - Crescer não foi um caminho de abraços, mas sim uma travessia por entre cacos de vidro e silêncios pesados em Mugoriondo. Éramos um grupo de treze pessoas a partilhar o mesmo tecto sob os cuidados da nossa avó, num ambiente onde a sobrevivência diária já era, por si só, uma batalha exaustiva. Dentro daquela casa, o peso da incompreensão feria mais do que a escassez. Lembro-me das minhas tias, que se voltavam contra mim com uma fúria cega, batendo-me violentamente porque recusavam aceitar o meu desejo de estudar. Para elas, buscar os livros e o conhecimento não passava de capricho, de uma petulância de quem "gostava de uma vida boa", como se sonhar fosse um crime imperdoável.
Eu sou a Graciela William, nascida em julho de 2002, e cresci na localidade de Mugoriondo, no distrito de Manica. Conhecerão através da minha história as marcas do lugar onde cresci e a dureza da realidade que me cercou. Aprendi da forma mais dolorosa, com o próprio mundo, que uma rapariga que não é autossuficiente acaba por enfrentar todo o sofrimento e o peso do mundo sobre os seus ombros.
Perante todos estes desafios, vivi na ausência quase total de amor: quer da família, dos meus próprios pais, quer de pessoas de fora. Foram raras as mãos e os corações que me estenderam algum afecto. No entanto, a vida ensinou-me algo extraordinário: crescer sem saber o que era o amor transformou-me, paradoxalmente, numa pessoa profundamente amável. Houve momentos de um desespero tão profundo, em que a escuridão parecia não ter fim e ninguém queria ouvir-me.
Em 2017, numa tentativa desesperada de mudar o meu destino e encontrar uma saída, fui até à cidade de Manica à procura de uma família que pudesse acolher-me e permitir que eu continuasse os meus estudos. Foram dias exaustivos de busca por alguém que me estendesse a mão. Quando voltei para casa de mãos vazias e tentei explicar à minha tia o que se passava, ela recusou-se sequer a ouvir ou a tentar compreender. A fúria dela foi desmedida: pegou numa vara que estava acesa no lume — com brasas e fogo — e bateu-me com ela. O fogo queimou o meu cabelo todo e feriu gravemente o meu braço, deixando marcas profundas na minha pele que residem em mim até aos dias de hoje. Ela não conseguia nem queria entender a minha vontade de estudar, nem aceitava que eu quisesse fugir daquela comunidade que, para mim, era a certeza de um futuro sem horizontes.
As marcas dessa violência não ficaram apenas na pele ou nas memórias traumáticas; elas rasgaram a minha adolescência e juventude de forma brutal. No silêncio conivente de quem devia proteger-me, sofri agressões devastadoras. Além de toda essa dor física e emocional, carregar o peso do mundo com o estômago vazio esmagava qualquer tentativa de progresso. Aprendi da forma mais visceral uma grande verdade: não dá para estudar com o estômago vazio. A fome real somava-se a outra barreira terrível: a da língua. Durante muito tempo, eu não sabia praticamente nada de português; era um verdadeiro apanhado; eu gaguejava de medo e de insegurança, incapaz de articular o que ia na minha alma. Antes de 2018, o que eu tentava fazer era apenas tactear no escuro.
Foi exactamente entre 2018 e 2020 que decidi mudar o rumo da minha vida; fui à cidade de Manica e, posteriormente, a Pemba, onde terminei o ensino secundário, suprindo as necessidades escolares vendendo pequenos insumos (sumos de malambe, batata-doce), escapando do destino de uma união prematura que outras mulheres da minha família enfrentaram. Eu transformei a minha mente: peguei nos livros, forcei-me a ler e a escrever muito, até finalmente dominar a língua portuguesa com firmeza e clareza, transformando o silêncio em voz.
Não digo que já aprendi tudo, mas sim que estou sempre a aprender. No entanto, o abismo que atravessei moldou a jovem multifacetada que sou hoje.
A Cores do Presente: Quem Sou Hoje
Ainda não cheguei onde o meu coração deseja ir; estou em constante movimento, a aprender, a tropeçar, a crescer e a reerguer-me todos os dias. Não digo que já aprendi tudo, mas sim que estou sempre a aprender. No entanto, o abismo que atravessei moldou a jovem multifacetada que sou hoje.
Afirmo-me com orgulho como uma escritora independente — tecendo as minhas obras e a minha verdade com o suor do meu próprio esforço, sem tutelas ou favores —, além de transitar com paixão e talento pela arte da confeitaria (criando bolos), pelas lentes como fotógrafa e pela sensibilidade da escrita como poetisa e pensadora, com reflexões profundas disponíveis ao mundo. Como empreendedora do digital, actuo também como publicitária, criando páginas e redes sociais e partilhando o seu saber através de mentorias. Assumo ainda com dedicação a presidência da Associação Lápis&Prato.
O meu sorriso pode trazer as marcas de um passado violento, mas a minha voz é hoje inquebrantável. A nossa origem e a família de onde viemos podem tentar influenciar o nosso caminho, mas a verdade é que eu não dependi disso para vencer. Até hoje, o motor da minha vida é o fogo que arde dentro de mim e a certeza de que Deus me ama tanto. Sou a prova viva de que, por mais fundo que nos enterrem na lama, a alma que escolhe florescer acaba sempre por romper a terra.
Se estás a viver violência, não guardes a dor em silêncio. Tu não tens culpa do que te acontece e mereces ser protegida, ouvida e amada. Procura ajuda e denuncia através da Linha Fala Criança 116. Lembra-te: pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é um acto de coragem. A tua voz importa, a tua vida tem valor e existe esperança para um futuro melhor.
Afirmo-me com orgulho como uma escritora independente — tecendo as minhas obras e a minha verdade com o suor do meu próprio esforço, sem tutelas ou favores. O meu sorriso pode trazer as marcas de um passado violento, mas a minha voz é hoje inquebrantável.