“Quando recebi o kit de higiene menstrual, voltei a sentir-me segura na escola”

Por trás de um kit de higiene menstrual, há uma história de superação, dignidade e regresso à escola.

Merlin Andre
Uma menina vestida com uma camisa branca com a mensagem «end child marriage», em pé ao ar livre junto a um cartaz da UNICEF, num cenário rural.
UNICEF Moçambique/2026/Merlin Andre
02 Junho 2026

Pebane, Zambézia - Por trás de um kit de higiene menstrual, há uma história de superação, dignidade e regresso à escola.

Na comunidade de Malaua, no distrito de Pebane, Azia (nome fictício), tenta reconstruir a vida aos 16 anos. A adolescente, hoje de volta à escola, carrega uma trajectória marcada por pobreza, abandono escolar, união prematura, perda gestacional e sofrimento emocional. Ainda assim, voltou a sonhar.

Criada pela irmã mais velha, Azia cresceu em condições de extrema vulnerabilidade. Frequentou a escola até à 6.ª classe, muitas vezes sem uniforme nem material escolar. “Eu ia à escola sem uniforme, sem material, e isso deixava-me envergonhada. Mas mesmo assim eu esforçava-me para continuar a estudar”, recorda.

Com o agravamento das dificuldades económicas, foi forçada a abandonar os estudos. Mais tarde, ao ir viver com a mãe, acabou envolvida numa união prematura, na esperança de encontrar melhores condições de vida. “Pensei que isso iria melhorar a minha vida e ajudar também a minha família”, conta.

A realidade, porém, foi diferente. Depois de engravidar, foi impedida de continuar a estudar e passou a trabalhar na machamba. A situação em casa deteriorou-se rapidamente. Houve fome, perda do bebé e, depois disso, expulsão do lar. “Regressei para casa da minha irmã sem nada, sem apoio e muito fragilizada. Foi uma fase em que senti que a minha vida tinha desabado”, diz.

O ponto de viragem começou num centro de saúde. Durante uma consulta, Azia foi atendida e encaminhada para o Serviço de Saúde para Adolescentes e Jovens (SAAJ), onde teve contacto com o ICDP. Foi ali que começou a receber acompanhamento psicológico e apoio para retomar o controlo da sua vida. “Pela primeira vez senti que alguém estava a ouvir-me de verdade”, afirma.

As sessões individuais e em grupo ajudaram-na a recuperar emocionalmente e a reconstruir a confiança. Mas houve um apoio adicional que teve impacto direto no seu regresso à escola: um kit de higiene menstrual, fornecido pelo ICDP em parceria com o UNICEF.

Antes disso, gerir o período menstrual era mais um obstáculo. Sem recursos para comprar pensos higiénicos, Azia vivia com medo e vergonha. “Houve momentos em que eu manchava a roupa e isso deixava-me muito desconfortável, principalmente em espaços públicos”, relata. A insegurança afectava a sua auto-estima e comprometia a frequência escolar.

Foi esse apoio que lhe devolveu segurança. “O kit de higiene menstrual foi muito importante para mim. Parece algo simples, mas fez uma grande diferença na minha vida. Passei a sentir-me mais segura durante o período menstrual e isso ajudou-me a não faltar às aulas”, diz.

Atualmente, com o apoio do ICDP e da Ação Social, Azia frequenta a 7.ª classe e olha para o futuro com mais esperança. Quer recuperar o tempo perdido e sonha tornar-se médica. “Quero estudar e tornar-me médica para ajudar a minha irmã e outras pessoas”, afirma.

A sua mensagem para outras raparigas é: a união prematura não resolve a pobreza nem substitui a educação. Com apoio certo e no momento certo, uma rapariga pode voltar a acreditar em si mesma e reescrever a própria história.

Ao investir no empoderamento das raparigas e na criação de condições seguras para o seu desenvolvimento, incluindo o acesso a produtos de higiene menstrual e apoio psicossocial, o Programa Global UNICEF–UNFPA para Acelerar a Acção para o Fim das Uniões Prematuras continua a promover o bem-estar, a dignidade e as oportunidades das adolescentes, fortalecendo igualmente os sistemas comunitários que as apoiam.

O Programa Global UNICEF–UNFPA para o Fim das Uniões Prematuras é financiado generosamente pelos Governos do Canadá, da Itália, dos Países Baixos, da Noruega e do Reino Unido, bem como pela Zonta International. Lançado em 2016, o programa está presente em 12 países com elevada prevalência, incluindo Moçambique, promovendo os direitos das raparigas adolescentes e acelerando a eliminação das Uniões Prematuras.