UNICEF alerta que os impactos climáticos na educação poderão resultar numa perda de receitas de 380 mil milhões de dólares na África Oriental e Austral
Nova análise destaca a necessidade urgente de mobilizar financiamento e reforçar os sistemas educativos para fazer face às perdas e danos relacionados com o clima e proteger a aprendizagem das crianças.
NAIROBI/Maputo – As catástrofes relacionadas com o clima já custaram aos sistemas de educação da África Oriental e Austral 1,3 mil milhões de dólares em perdas e danos directos nas escolas e nas infraestruturas de ensino, e perturbaram a aprendizagem de 130 milhões de crianças, de acordo com um novo relatório do UNICEF e da Dalberg, intitulado ”Proteger o Futuro da Aprendizagem das Crianças: Quantificar as Perdas e Danos Relacionados com o Clima na África Oriental e Austral”. A análise estima que estas perturbações resultaram em até 140 mil milhões de dólares em rendimentos futuros perdidos, valor que poderá ascender a 380 mil milhões de dólares até 2050, à medida que os impactos climáticos se intensificam e afectam até 520 milhões de estudantes.
“As crianças estão a pagar o preço mais alto por uma crise que não criaram”, afirmou Etleva Kadilli, Directora Regional do UNICEF para a África Oriental e Austral. “Pela primeira vez, este relatório mostra a dimensão das perdas e danos relacionados com o clima na educação, mas o impacto nas crianças continua, em grande parte, invisível nas decisões de financiamento. Isto tem de mudar.”
O relatório do UNICEF e da Dalberg inclui uma análise aprofundada da situação em Moçambique, na Etiópia, no Quénia, na Somália e na Zâmbia, demonstrando como os fenómenos meteorológicos extremos, cada vez mais frequentes e intensos, incluindo inundações, secas, ciclones e ondas de calor estão a destruir as infraestruturas escolares, a obrigar as crianças a abandonar as salas de aula e a afectar de forma desproporcional as raparigas, as crianças com deficiência e as comunidades marginalizadas.
Em Moçambique, as mudanças no clima comprometem o acesso a direitos e serviços básicos como educação (70% das escolas estão localizadas em zonas de alto risco de cheias e ciclones), saúde, água potável, alimentação segura e saneamento adequado. Ao mesmo tempo, forçam o deslocamento massivo de comunidades, intensificam a desnutrição e ampliam a exposição a doenças de origem hídrica, criando um ciclo vicioso de pobreza e vulnerabilidade. Em meio a esse cenário, as crianças e jovens integram um dos grupos mais afectados. Das 16 milhões de crianças em Moçambique, mais de 5,5 milhões estão em alto risco de sofrer impactos severos de ciclones tropicais.
Apesar destes impactos, a educação recebe menos de 1,5% do financiamento global para o clima, deixando os sistemas educativos expostos a ciclos repetidos de perdas e recuperação.
A análise do UNICEF e da Dalberg revela que reforçar as escolas para que resistam aos choques climáticos não só protege a educação como gera um forte retorno económico, sendo que cada dólar investido gera até 13 dólares em benefícios, através da redução de danos e interrupções, salvaguardando a continuidade da aprendizagem e preservando o desenvolvimento e a produtividade das crianças a longo prazo.
“Sem uma maior priorização no financiamento climático, a educação continuará a suportar o peso dos impactos climáticos, provocando perturbações repetidas», continuou a Sra. Kadilli. «Temos de conceber sistemas educativos que antecipem os choques, protejam a aprendizagem precoce e fundamental e mantenham as escolas abertas. Caso contrário, o verdadeiro custo das perdas e danos climáticos será medido em potencial humano perdido.”
À medida que o Conselho de Administração do Fundo para a Resposta a Perdas e Danos (FRLD) se reúne em Livingstone no final desta semana, é essencial reconhecer as crianças não apenas como as mais afectadas, mas como titulares de direitos com necessidades, capacidades e vozes que devem moldar a recuperação e a resiliência. Para proteger o futuro das crianças e promover ainda mais o desenvolvimento a longo prazo de África, o UNICEF insta os governos, os doadores e os fundos climáticos a:
- Reforçar a integração da educação nos quadros climáticos nacionais: referir explicitamente a educação nos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) e nas Contribuições Nacionalmente Determinadas a Nível Nacional (NDC), para ajudar a desbloquear o acesso ao financiamento para o clima e para perdas e danos.
- Aplicar uma perspectiva de risco climático ao financiamento da educação a nível nacional: Assegurar que as alocações orçamentais destinadas à educação tenham em conta as questões climáticas, dando prioridade à fase crítica e fundamental da aprendizagem das crianças e à continuidade da educação face a choques climáticos.
- Ampliar e direcionar o financiamento internacional para o clima destinado à educação: Assegurar que os principais fundos climáticos, incluindo o Fundo Verde para o Clima, o Fundo de Adaptação e o Fundo de Resposta a Perdas e Danos (FRLD), aloquem recursos específicos para a educação, com o FRLD a apoiar especificamente as perdas inevitáveis quando os impactos climáticos excedem a capacidade de adaptação dos sistemas educativos.
Nota aos editores:
Link para o relatório: UNICEF and Dalberg Protecting Children’s Learning Futures: Quantifying Climate-Related Loss and Damage in Eastern and Southern Africa, on Loss and Damage in Education: bit.ly/4u0q27V
Link multimédia: https://weshare.unicef.org/Share/il1846kaxmde720yt1ff5p4v5ap53yj1
As análises por país no relatório do UNICEF e da Dalberg incluem:
- Quénia: as inundações de 2024 interromperam a escolaridade e ampliaram as disparidades de género na reinscrição, particularmente para raparigas e crianças com deficiência.
- Somália: secas, inundações e conflitos repetidos provocaram deslocamentos em massa, deixando milhões de crianças fora da escola e as crianças recém-deslocadas, especialmente as raparigas com menos probabilidades de frequentar a escola.
- Moçambique: Os ciclones Idai e Kenneth, em 2019, demonstraram que, embora milhares de salas de aula tenham sido destruídas, aquelas construídas de acordo com normas de resiliência resistiram ao impacto, destacando tanto o retorno do investimento como a dimensão das necessidades ainda não atendidas.
- Etiópia: O aumento das temperaturas e as ondas de calor mais frequentes afectam 83% das crianças e já estão a perturbar a frequência escolar, a reduzir a concentração nas salas de aula e a comprometer os resultados de aprendizagem.
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