Adolescentes e Jovens de Moçambique contribuem para Resposta Nacional às Mudanças Climáticas
“Se a nossa geração for ouvida, poderemos construir um futuro mais justo e sustentável para todos".
Beira, Sofala - Na província de Sofala, na cidade da Beira, Cleiton Adriano, de 16 anos, testemunhou a passagem de quatro ciclones (Idai, Chalane, Eloise e Freddy). Estudante da 11ª Classe na Escola Secundária Matheus de São Mutemba, sente na pele a recorrência de catástrofes naturais. O ciclone Idai ocorrido em 2019 foi o que mais impactou directamente a sua vida. “Tivemos a nossa casa parcialmente destruída, e algumas casas na minha comunidade, trazendo perdas materiais, destruição de casas, o que consequentemente gerou muita insegurança. Eu, junto de vários colegas, fiquei algumas semanas sem aulas porque as escolas foram destruídas ou serviam de centros de acomodação”, relata.
Em Moçambique, as mudanças no clima comprometem o acesso a direitos e serviços básicos como educação (70% das escolas estão localizadas em zonas de alto risco de cheias e ciclones), saúde, água potável, alimentação segura e saneamento adequado. Ao mesmo tempo, forçam o deslocamento massivo de comunidades, intensificam a desnutrição e ampliam a exposição a doenças de origem hídrica, criando um ciclo vicioso de pobreza e vulnerabilidade. Em meio a esse cenário, as crianças e jovens como Cleiton, integram um dos grupos mais afectados. Segundo dados do UNICEF, das 16 milhões de crianças em Moçambique, mais de 5,5 milhões estão em alto risco de sofrer impactos severos de ciclones tropicais. Diante desses desafios, e em alinhamento com os compromissos assumidos no Acordo de Paris, Moçambique encontra-se em processo de elaboração da sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) 3.0 (2025-2035), a ser submetida em princípio até final de 2025. Esta nova versão da NDC representa uma oportunidade crucial para incorporar de forma sistemática e eficaz as necessidades, direitos e aspirações das crianças, adolescentes e jovens na resposta nacional às mudanças climáticas.
Em todo o país, mais de 800 crianças, adolescentes e jovens participaram nas Pré-Conferências Locais sobre Mudanças Climáticas (Pré-LCOY), organizadas pela Plataforma Juvenil para a Acção Climática em Moçambique (YCAC-MOZ). A iniciativa percorreu as 10 províncias do país, com apoio do UNICEF e outros parceiros. Esses encontros serviram como espaços de diálogo participativo e seguro onde os jovens partilharam experiências, apresentaram propostas e soluções urgentes para a crise climática que o país vive.
Cleiton foi chamado a participar nas auscultações do NDC 3.0 na sua província, Sofala, e passou a perceber a importância de cada voz na busca de soluções.
“Com as auscultações da NDC 3.0 aprendi que cada voz conta e que nós, os adolescentes e jovens, podemos e devemos participar nas acções e decisões sobre o clima. Compreendi também que adaptação e mitigação não são apenas termos técnicos, mas acções concretas que precisamos de implementar no nosso dia a dia. Gostaria de ver mais investimentos em energias limpas, escolas e infraestruturas públicas resilientes a desastres e um maior envolvimento dos adolescentes e jovens nas decisões sobre o clima e o ambiente. Acredito que, se a nossa geração for ouvida, poderemos construir um futuro mais justo e sustentável para todos”, disse Cleiton.
Entre as principais recomendações dos adolescentes e jovens, estão:
- Investimento em infraestruturas resilientes (escolas, vias de acesso, centros de saúde, habitação);
- Apoio a projectos juvenis de energia limpa e reflorestamento;
- Inclusão da literacia climática nos currículos escolares;
- Reforço dos sistemas de aviso prévio com linguagem acessível para crianças e pessoas com deficiência;
- Criação de fundos climáticos para iniciativas lideradas por jovens;
- Preparação e envolvimento efectivo de adolescentes e jovens na resposta emergências climáticas;
- Garantia de protecção social adaptada a crianças e adolescentes em situação de risco.
O UNICEF e parceiros, em apoio ao Governo de Moçambique, promovem a realização destas plataformas de participação para fortalecer a participação juvenil efectiva na construção da NDC 3.0. Através destes espaços, procura-se amplificar as vozes de crianças e jovens, recolhendo as suas perspectivas e prioridades, de modo a garantir que os compromissos climáticos assumidos sejam representativos, inclusivos e sensíveis às suas necessidades específicas.
O lançamento do Processo de Revisão e Elaboração das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC3.0) de Moçambique 2026-2035 está sendo realizado desde junho último sob a liderança do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas (MAAP), para impulsionar a acção climática e acelerar a implementação de medidas de adaptação e mitigação no país.