UNICEF apela a um investimento urgente em serviços que salvam vidas de crianças, à medida que as necessidades humanitárias globais atingem níveis extremos

10 Dezembro 2025
Marcos de desenvolvimento do seu bebé no primeiro ano
UNICEF Mozambique/2025/Ricardo Franco

NOVA IORQUE/ MAPUTO – Conflitos crescentes, aumento da fome, cortes globais no financiamento e o colapso dos serviços básicos estão a elevar as necessidades humanitárias das crianças a níveis extremos em todo o mundo. Com o lançamento hoje do apelo “Acção Humanitária para as Crianças 2026” (HAC) do UNICEF, são urgentemente necessários 7.66 mil milhões de dólares para prestar assistência vital a 73 milhões de crianças – incluindo 37 milhões de raparigas e mais de 9 milhões de crianças com deficiência – em 133 países e territórios no próximo ano.

Em todas as regiões, as crianças que se encontram em situações de emergência enfrentam crises sobrepostas, cada vez mais amplas e complexas.

A intensificação dos conflitos está a causar deslocações em massa e a expor as crianças a graves violações, nos níveis mais elevados de que há registo. Os ataques a escolas e hospitais continuam sem cessar, enquanto os casos confirmados de violação e outras formas de violência sexual contra crianças aumentam de forma acentuada. Em muitas crises, tanto as crianças como os trabalhadores humanitários que tentam chegar até elas são deliberadamente considerados alvos.

“Em todo o mundo, crianças que se encontram em conflitos, desastres, deslocações e turbulência económica continuam a enfrentar desafios extraordinários”, afirmou Catherine Russell, Directora Executiva do UNICEF. “As suas vidas estão a ser moldadas por forças muito além do seu controlo: violência, ameaça de fome, choques climáticos cada vez mais intensos e o colapso generalizado dos serviços essenciais.”

O ambiente global de financiamento humanitário deteriorou-se dramaticamente em 2025. Os cortes anunciados e previstos por parte dos governos doadores já estão a limitar a capacidade do UNICEF de chegar a milhões de crianças em situação de extrema necessidade. Falhas graves de financiamento em 2024 e 2025 estão a forçar o UNICEF a tomar decisões impraticáveis. Só nos programas de nutrição, uma lacuna de 72 por cento no financiamento em 2025 obrigou a cortes em 20 países prioritários – reduzindo as metas planeadas de mais de 42 milhões para pouco mais de 27 milhões de mulheres e crianças. Na educação, um défice de 745 milhões de dólares deixou milhões de crianças em risco de perder o acesso à aprendizagem, protecção e estabilidade. Na protecção infantil, o aumento das violações coincide com a diminuição dos recursos, ameaçando programas para sobreviventes de violência sexual, crianças recrutadas ou utilizadas por grupos armados e aquelas que necessitam de apoio urgente em saúde mental e psicossocial.

“Graves falhas de financiamento estão a colocar os programas que salvam vidas do UNICEF sob enorme pressão”, disse Russell. “Em todas as nossas operações, as equipas na linha da frente são forçadas a tomar decisões impraticáveis: concentrar os recursos limitados em algumas crianças em detrimento de outras, reduzir a frequência dos serviços prestados ou diminuir intervenções das quais as crianças dependem para sobreviver.”

Ao mesmo tempo, o acesso humanitário está a ser restringido a níveis sem precedentes nos últimos anos. Em muitas emergências, o UNICEF e os seus parceiros não conseguem chegar a crianças presas atrás de linhas de frente em constante mudança, tornando essencial uma diplomacia humanitária sustentada para garantir o acesso e proteger as crianças de violações crescentes.

O UNICEF alerta que mais de 200 milhões de crianças necessitarão de assistência humanitária em 2026. Muitas vivem em crises prolongadas, deixando gerações inteiras em risco de subnutrição, sem acesso à educação, expostas a surtos de doenças e privadas de segurança e estabilidade.

Apesar destes desafios, o UNICEF está a adaptar a sua acção humanitária para operar de forma eficaz num cenário em constante mudança, mantendo-se firmemente ancorada nos direitos da criança e nos Compromissos Fundamentais para as Crianças em Acção Humanitária, que orientam a resposta da organização. Isto inclui:

  • Priorizar intervenções que salvam vidas e têm maior impacto;
  • Reforçar parcerias com governos e actores locais;
  • Investir em preparação, análise de riscos e acção antecipatória;
  • Reforçar a resiliência dos sistemas nacionais e fortalecer a diplomacia humanitária.

“A actual crise global de financiamento não reflecte uma diminuição das necessidades humanitárias, mas sim um fosso crescente entre a escala do sofrimento e os recursos disponíveis”, afirmou Russell. “Enquanto o UNICEF trabalha para se adaptar a esta nova realidade, as crianças já estão a pagar o preço dos orçamentos humanitários em declínio.”

O UNICEF apela aos governos nacionais, doadores do sector público e parceiros do sector privado para que aumentem o investimento nas crianças, priorizando financiamentos flexíveis e plurianuais; apoiem respostas lideradas localmente e sistemas nacionais; defendam os princípios humanitários e a centralidade da protecção; e removam barreiras que dificultam o acesso humanitário.

 

Moçambique

O agravamento dos conflitos, choques climáticos e emergências de saúde pública continuam a impulsionar necessidades humanitárias urgentes em Moçambique. Situações de deslocamento, insegurança alimentar, surtos de doenças e riscos de protecção persistem, afectando de forma desproporcional crianças, mulheres e pessoas com deficiência. Em 2026, aproximadamente 1.8 milhões de pessoas, entre as quais 1 milhão são crianças, precisarão de assistência para sobreviver.

Actualmente, 412,000 pessoas permanecem deslocadas em 20 distritos do norte do país, com necessidades críticas desde o início do conflito (53% crianças). Além disso, 510,000 pessoas regressadas (45% crianças) continuam a necessitar de apoio urgente na região. A violência contra crianças, especialmente em Cabo Delgado e Nampula, persiste e os ataques às comunidades estão a aumentar, incluindo raptos, recrutamento e utilização de menores, bem como violência sexual por parte de grupos armados. O encerramento de escolas devido a ataques impediu 50.000 crianças de frequentar as aulas.

Entre Dezembro de 2024 e Março de 2025, três ciclones sem precedentes danificaram 183 unidades de saúde, mais de 4,800 salas de aula e 36 sistemas de abastecimento de água, agravando as já significativas necessidades de infraestrutura. Em todo o país, mais de 167,000 crianças e mulheres grávidas ou a amamentar necessitam de apoio nutricional urgente, incluindo mais de 29,000 crianças menores de 5 anos que sofrem de desnutrição aguda grave, resultado da crescente insegurança alimentar que afecta 2.1 milhões de pessoas. Surtos de doenças como cólera, sarampo e mpox continuam a afectar milhares de pessoas.

Mulheres, raparigas e adolescentes continuam a enfrentar restrições no acesso a serviços sensíveis ao género. A insuficiência de informação e de oportunidades de geração de rendimento acentua a vulnerabilidade à violência baseada no género, agravando o fosso entre as necessidades identificadas e a capacidade de resposta.

O UNICEF apela a um financiamento de 58.8 milhões de dólares em 2026, com investimentos significativos necessários em água, saneamento e higiene, nutrição, educação e protecção da criança, para alcançar 1.2 milhões de pessoas, incluindo 866 mil crianças, com apoio vital e outros serviços essenciais. Sem financiamento contínuo, intervenções cruciais para a sobrevivência e protecção de milhares de crianças poderão ser interrompidas. 


Nota aos Editores:

A visão geral do Apelo e os detalhes sobre os Apelos individuais estarão disponíveis aqui: https://www.unicef.org/appeals

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