UNICEF acompanha no Recife estratégias para prevenir violências e melhorar o atendimento a crianças
Agenda reuniu iniciativas que aproximam comunidade, escola, serviços públicos e sistema de Justiça na proteção de meninas e meninos.
Recife, 13 de agosto de 2026 – O UNICEF acompanhou, entre os dias 10 e 11 de agosto, estratégias desenvolvidas no Recife para prevenir violências contra crianças e adolescentes, melhorar a articulação entre os serviços da rede de proteção e reduzir a revitimização de vítimas e testemunhas. A programação reuniu lideranças comunitárias, adolescentes, gestores públicos e profissionais das áreas de educação, saúde, assistência social, segurança pública, sistema de Justiça e Conselhos Tutelares.
A visita teve como objetivo conhecer experiências desenvolvidas nos territórios, ouvir desafios apontados por comunidades e profissionais e acompanhar iniciativas que ajudam a organizar a resposta pública quando uma criança ou adolescente sofre ou testemunha violência. Entre os temas discutidos estiveram violência armada, violência sexual, participação de adolescentes, Busca Ativa Escolar, implementação da Lei da Escuta Protegida e atendimento integrado a vítimas e testemunhas.
Participaram da agenda Javier Carlos, assessor sênior de Proteção à Criança do UNICEF, e Haithar Ahmed, chefe de Proteção à Criança do UNICEF no Brasil. A visita foi acompanhada pela chefe do escritório do UNICEF para os estados de Pernambuco, Alagoas e Paraíba, Immaculada Prieto; pela Oficial de Proteção contra as Violências do UNICEF para o Nordeste, Corinne Sciortino; e pela equipe local do UNICEF.
Diálogo com lideranças comunitárias
No território do Ibura, a equipe participou de uma roda de conversa com lideranças comunitárias e representantes de organizações sociais que atuam na defesa dos direitos de crianças, adolescentes, jovens e mulheres. Durante o encontro, foram compartilhadas experiências sobre as diferentes formas de violência presentes nos territórios, entre elas violência armada, racismo, violência de gênero e sexual, recrutamento de crianças e adolescentes pelo tráfico de drogas e violações relacionadas à falta de acesso a serviços e oportunidades.
Os participantes também destacaram a importância das organizações comunitárias na criação de redes de apoio e de oportunidades para crianças e adolescentes, por meio de ações de educação, cultura, esporte, formação cidadã e defesa de direitos. Ao mesmo tempo, apontaram os limites da atuação comunitária diante de problemas que dependem de políticas públicas e de respostas articuladas do Estado.
A agenda também permitiu discutir formas de ampliar a participação comunitária nas estratégias desenvolvidas pelo UNICEF no Recife e aproximar as demandas dos territórios das políticas públicas.
Adolescentes falam sobre proteção, oportunidades e o Ibura que querem
Ainda no Ibura, representantes do UNICEF participaram de uma roda de conversa com adolescentes do projeto Ibura que Cuida, iniciativa do UNICEF, em parceria com o Centro Mulheres do Cabo, que trabalha temas relacionados à prevenção das violências, saúde mental, participação cidadã e fortalecimento de redes de apoio.
Os adolescentes falaram sobre os desafios de crescer em um território frequentemente associado apenas à violência e sobre a necessidade de ampliar oportunidades, espaços de acolhimento e iniciativas que reconheçam os talentos existentes na comunidade.
“O importante não é focar nos pontos negativos e sim pensar na solução para eles e em como chegar nessa solução, especificamente nos jovens”, afirmou João Lopes, de 17 anos. Para ele, adolescentes precisam participar das iniciativas desenvolvidas em seus territórios e atuar também na comunicação com outros jovens. “É adolescente para adolescente, linguagem entre pares”, explicou.
Os jovens também apresentaram materiais desenvolvidos durante as atividades do Ibura que Cuida. Entre eles está o jogo educativo “Sinais”, criado para ajudar adolescentes a reconhecer violações de direitos, identificar sua gravidade e conhecer serviços que podem ser acionados para buscar proteção.
Busca Ativa Escolar e prevenção das violências
A relação entre educação e proteção também esteve no centro da agenda. No Compaz Paulo Freire, representantes do UNICEF conheceram a experiência da Busca Ativa Escolar no Recife, realizada de forma articulada entre diferentes áreas da gestão municipal. O encontro contou com a presença do secretário de Cidadania e Cultura de Paz do Recife, Rafael Arruda; da secretária executiva de Cidadania e Cultura de Paz, Gabriela Moura; do secretário executivo de Gestão de Rede da Educação do Recife, Glaydson Alves da Silva Santiago; e de profissionais da educação, saúde, assistência social e do Compaz.
Durante o encontro, profissionais relataram que a infrequência pode ser o primeiro sinal visível de situações mais complexas. Problemas de saúde, dificuldades econômicas ou trabalho infantil podem aparecer inicialmente como justificativas para a ausência, mas a atuação da rede pode identificar outras situações de vulnerabilidade e violência que exigem acompanhamento de diferentes políticas públicas.
A integração com o Compaz ampliou essa capacidade de acompanhamento nos territórios. Além de identificar crianças e adolescentes fora da escola, o equipamento pode mobilizar atividades de esporte, cultura e outros serviços para as famílias, fortalecendo a proteção para além da matrícula escolar.
Formação intersetorial fortalece implementação da Lei da Escuta Protegida
No segundo dia da visita, representantes do UNICEF acompanharam uma formação de profissionais da rede de proteção sobre o Protocolo Integrado de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência do Recife, construído a partir da Lei Federal nº 13.431/2017 e da articulação entre saúde, educação, assistência social, segurança pública, sistema de Justiça, Conselhos Tutelares e sociedade civil. Lançado em setembro de 2025, o protocolo organiza os fluxos de atendimento no município e busca evitar que crianças e adolescentes sejam revitimizados.
A opção do município foi também realizar as formações de maneira integrada, territorializada e intersetorial. Em vez de capacitar separadamente profissionais de cada política pública, representantes dos diferentes serviços de um mesmo território participam juntos das atividades, conhecem os respectivos papéis e discutem os caminhos que devem ser percorridos quando uma violência é identificada.
A turma acompanhada pela missão foi a sétima de oito realizada dentro dessa estratégia. A formação tem 16 horas e trabalha conceitos como escuta especializada, depoimento especial, revelação espontânea e os fluxos específicos e integrados de atendimento.
Durante o encontro, Javier destacou a importância de conhecer não apenas os avanços, mas também as dificuldades ainda enfrentadas pela rede, como os obstáculos para identificar, acompanhar e garantir acesso aos serviços a crianças e adolescentes em maior situação de vulnerabilidade. Haithar ressaltou que a escuta das experiências locais contribui para discussões realizadas em âmbito nacional, por meio do diálogo com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e com o Ministério da Justiça e Segurança Pública sobre desafios relacionados à implementação da Lei da Escuta Protegida.
Atendimento integrado a vítimas e testemunhas de violência
A agenda foi concluída com uma visita ao Centro Integrado da Criança e do Adolescente (CICA), onde representantes do UNICEF conheceram serviços do sistema de Justiça e de segurança pública voltados ao atendimento de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Representantes do Tribunal de Justiça de Pernambuco, Ministério Público, Defensoria Pública e Polícia Civil apresentaram experiências relacionadas ao acolhimento das vítimas, à escuta e ao depoimento especial e à articulação entre os diferentes órgãos do sistema de garantia de direitos.
Entre as iniciativas apresentadas esteve o CEAVida, serviço especializado de atenção às vítimas implantado no Tribunal de Justiça de Pernambuco. O serviço realiza acolhimento, orientação sobre processos e encaminhamentos para saúde, assistência social e outras políticas públicas. O atendimento contempla tanto vítimas diretas quanto familiares afetados por situações de violência, independentemente de haver ou não processo no Tribunal.
A missão também conheceu a experiência do Depoimento Acolhedor, metodologia utilizada em Pernambuco para a realização do depoimento especial de crianças e adolescentes. O serviço funciona no Estado desde 2010, antes mesmo da aprovação da Lei Federal nº 13.431/2017, e utiliza espaços específicos para que crianças e adolescentes não precisem prestar depoimento em uma sala de audiência convencional.
A visita permitiu discutir avanços e desafios para ampliar o atendimento especializado, fortalecer a integração entre as instituições e garantir que crianças e adolescentes encontrem uma rede preparada para acolher, proteger e responder às diferentes formas de violência.
Desafios exigem respostas integradas
Ao longo dos dois dias, os diálogos com adolescentes, lideranças comunitárias e profissionais da rede evidenciaram a intensidade e a complexidade das violências que afetam a vida de crianças e adolescentes. Os relatos mostraram como diferentes violações podem se sobrepor ao longo de uma mesma trajetória e como fatores estruturais, entre eles desigualdades, racismo, violência armada e dificuldades de acesso a serviços e oportunidades, podem comprometer o desenvolvimento pleno de meninas e meninos. Em Pernambuco, por exemplo, foram registradas 2.101 vítimas de violência sexual contra crianças e adolescentes somente em 2023.
A agenda reforçou a necessidade de investimento contínuo em estratégias permanentes e integradas de prevenção e resposta às violências, articulando poder público, sistema de Justiça, serviços da rede de proteção, organizações e lideranças comunitárias e famílias. Para o UNICEF, esse trabalho deve ser construído com a participação dos próprios adolescentes, garantindo espaços de escuta e diálogo para que suas experiências, necessidades e propostas contribuam para políticas e ações voltadas à sua proteção.