"Tivemos casos de violência doméstica muito próximos, por isso, a importância de falar sobre isso."

Kauanne Patrocínio, 16 anos, faz parte da companhia de teatro EmQuadro, em São Paulo, e quer levar peças sobre empoderamento feminino para escolas públicas e espaços de convivência jovem.

UNICEF Brasil
Foto de rosto da adolescente Kauanne Patrocínio. Atrás um painel com vários desenhos.
UNICEF/BRZ/Fernando Martinho

08 Janeiro 2019

“Eu e meus colegas já fazíamos parte do grêmio estudantil e vimos na escola um acesso mais fácil para chegar aos jovens, principalmente às meninas, por meio do teatro. Decidimos elaborar, então, uma peça sobre violência doméstica. Nós tivemos casos de violência doméstica muito próximos, que causaram grande impacto na nossa vida, por isso, vemos a importância de falar sobre isso e queremos disseminar para mais jovens.

A Cia. EmQuadro foi criada a partir desse diagnóstico. Nós vimos que tínhamos uma potência, com todas as coisas que aprendemos no nosso bairro, com a ONG Viração, o UNICEF, nos espaços que nos empoderaram como jovens. Percebemos que precisávamos atingir mais pessoas com a nossa verdade, contando um pouco sobre a nossa realidade.

Queremos trabalhar com as meninas numa atuação concreta. Queremos caminhar junto com elas, como outras pessoas fizeram conosco. Estender a minha ideia sobre o que é violência, ouvindo outras pessoas, e ver como isso afeta principalmente nossas famílias.

duas adolescentes estão em pé, no meio de uma sala. atrás há dois quadros.
UNICEF/BRZ/Fernando Martinho

Nós entendemos que o teatro é a nossa arte. Passamos ideias e experiência por meio de uma cena, que o espectador pode ter vivido e se identifique. Ninguém vai questionar você sobre aquilo, mas você vai se perguntar a partir de uma provocação da performance.

Para desenvolver a peça sobre violência doméstica, reunimos um grupo de mulheres de nossa família. Entendemos que precisamos abordar o tema com muita sensibilidade, porque se trata de uma relação de ser humano para ser humano. Percebemos que, quando enxergamos algum familiar, também precisamos enxergá-lo como ser humano, uma pessoa que tem sentimentos, por isso, a história dele precisa ser ouvida. Nós entendemos que cada pessoa viveu uma situação própria e tem um ponto de vista. Por isso, não queremos passar ideias genéricas na performance. Queremos atingir nosso público, contando a verdade de cada pessoa e mostrando as problemáticas que nós, mulheres, vivemos.

adolescente está sentada entre outros adolescentes, ela aplaude.
UNICEF/BRZ/Fernando Martinho

Queremos escutar as meninas e mostrar que o teatro é uma ferramenta de interpretação da nossa sociedade. Nós mesmas nos empoderamos muito quando criamos a companhia. Vemos no teatro uma solução para que as vozes das meninas não sejam apagadas pelo machismo estrutural.

Como cidadãs, nossa voz precisa ser ouvida, e nossos anseios também, porque, independente de ser um problema individual, ele atinge o coletivo. Estamos fazendo mudanças. Conseguimos mostrar que a revolução não é utópica, mas que ela pode acontecer por pequenos atos. Somos jovens e vivemos tudo isso que dizemos. Não estamos falando pelos outros e sim por nós mesmos, pelos nossos problemas do dia a dia”.

São Paulo, janeiro de 2019