“Sou capaz de aprender qualquer coisa, mas eu não sabia disso antes”
Em São Luís (MA), Andreina Vitória, de 17 anos, uniu química e informática em projeto escolar e agora se prepara para voos mais altos
Na paisagem urbana de São José de Ribamar, no Maranhão, entre as ruas do Residencial Turiúba, vive uma adolescente que carrega no nome o que se reflete na sua trajetória: Andreina Vitória. Aos 17 anos, ela já entende que avançar na vida vai muito além de conquistas pessoais.
É também sobre resistir, representar e inspirar. E ela tem feito exatamente isso. Andreina cresceu em um território onde as dificuldades do cotidiano muitas vezes sufocam os sonhos da juventude.
“Onde eu moro é um lugar bastante perigoso. Por isso, a minha família é a minha base. É onde encontro apoio e incentivo todos os dias para estudar e correr atrás do meu futuro”, conta com firmeza.
Andreina é estudante do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) São Luís – Unidade Cohab, onde cursa o Técnico em Informática. Ela encontrou na educação um caminho possível, real e potente para transformar sua própria realidade e inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. Entre redes de apoio, professores atentos e oportunidades transformadoras, ela passou a compreender que sua trajetória tem valor, e tem impacto em sua comunidade.
Um projeto que despertou mais que talentos
O marco dessa transformação veio com o convite da professora Lorena para participar do projeto Educa STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), uma iniciativa do UNICEF e parceiros que conecta juventude e ciência, educação e território.
“Eu conheci o projeto através da minha professora. Ela me explicou, e eu decidi experimentar, viver essa oportunidade. Eu queria aprender coisas que eu nunca tinha experimentado, me desafiar mesmo.”
No início, tudo era novo: os colegas, os espaços, os termos técnicos, os laboratórios. Mas logo Andreina sentiu algo diferente: acolhimento.
“A minha primeira sensação foi de estar em família. Foi uma conexão leve, natural, que nos permitiu conversar, aprender e desenvolver juntos.”
Andreina mergulhou na experiência de criar um protótipo tecnológico voltado para o monitoramento inteligente da acidificação dos oceanos, unindo química, Arduino (plataforma para criar protótipos eletrônicos), sensor de pH e Internet das Coisas (IoT). A solução proposta permitia medir a acidez da água em tempo real, enviando os dados automaticamente para uma plataforma online, desenvolvendo uma ferramenta com potencial para apoiar pesquisas ambientais e ações educativas sobre os impactos da poluição hídrica. Mais do que os conteúdos técnicos, ela aprendeu sobre sua própria capacidade.
“O que mais me marcou foi ver o resultado do nosso protótipo funcionando. As conexões deram certo. A gente entendeu as substâncias, viu tudo se encaixar. Aquilo me mostrou que eu sou capaz de aprender qualquer coisa. Eu não sabia disso antes.”
Tecnologia, sonhos e a ciência do possível
Durante o processo, Andreina aprendeu que desenvolver um projeto não é só sobre entender fórmulas ou conectar fios. É sobre colaboração, escuta, paciência e resiliência. É sobre não desistir na primeira dificuldade, sobre seguir mesmo quando tudo parece complicado demais. E ela seguiu.
“Eu me vejo como uma pessoa muito determinada, sonhadora. Eu gosto de sinceridade, de ser amiga e companheira. Mas o que mais me define mesmo é a determinação. Quando coloco algo na cabeça, eu vou atrás todos os dias.”
Essa força não surgiu do nada. Ela vem de sua base: a família.
“A minha maior inspiração é a minha mãe. Ela é muito batalhadora, não desiste nunca, mesmo com todas as dificuldades. Meu pai também é inspiração, pela inteligência, pela determinação. Mas é a minha mãe que me move.”
E esse movimento não para. Nos momentos de lazer, Andreina gosta de ir à praia, sentir a brisa do mar, praticar vôlei e reencontrar a leveza. Mas é na escola, nos projetos e nas descobertas científicas que ela encontra sentido, propósito e pensa em seu projeto de vida e no futuro.
Pertencer e inspirar: o poder do coletivo
Uma das experiências mais marcantes para Andreina foi o contato com os educadores e coordenadores do projeto.
“Quando eu vi aquelas pessoas que fazem parte da cúpula do STEAM, os professores e educadores que atuam diretamente com ciência e tecnologia, eu senti vontade de ser como eles um dia. Eles são inspiração. Eles mostraram que a gente também pode estar lá.”
Ver outras pessoas ocupando lugares de protagonismo, ensinando com afeto e respeitando os saberes do território, fez com que Andreina reconhecesse seu próprio lugar. A menina do Turiúba entendeu que também pode ser referência, também pode inspirar como seus professores.
“O projeto me ajudou a olhar para mim mesma. Eu aprendi que sou capaz de coisas que nem imaginava. Hoje, eu quero continuar aprendendo. Quero seguir na área da ciência, talvez bioquímica. Quero crescer. Mas quero também voltar e contribuir com quem vem depois.”
Juventude que transforma territórios
Histórias como a de Andreina reforçam o que tantos já sabem, mas ainda precisa ser dito: a juventude periférica é potência. Com oportunidades, estímulos e reconhecimentos, elas florescem, ocupam espaços e transformam realidades.
O projeto STEAM foi um desses espaços para Andreina. Mais do que um curso ou uma atividade extracurricular, foi um lugar onde ela pode ser ela mesma, testar seus limites, errar, tentar de novo e, finalmente, se descobrir capaz, trabalhando de forma colaborativa.
“Eu aprendi sobre mim mesma que sou capaz de desenvolver qualquer coisa. Esse projeto me mostrou isso. Foi gratificante.”
Histórias como essas demonstram que é urgente fortalecer políticas públicas, projetos educacionais, parcerias e iniciativas que coloquem os jovens no centro — como protagonistas do presente e arquitetos do futuro.
Andreina é futuro. E o futuro é agora.
Entre fios, fórmulas, planilhas e substâncias químicas, Andreina descobre o mundo, e se descobre nele. Cada experimento, cada cálculo e cada tentativa revelam mais do que resultados: revelam possibilidades. O que antes parecia distante agora está ao alcance das mãos. O que um dia soou impossível, hoje se traduz em certeza: com tempo, coragem e oportunidade, tudo floresce.
Nos olhos dela, o brilho da curiosidade; nas mãos, a vontade de construir algo maior. O laboratório se torna extensão de seus sonhos, e a sala de aula, um campo fértil de invenções. O conhecimento, antes abstrato, ganha vida no cotidiano, na comunidade, nas conversas, nos projetos.
Seu sorriso tímido se mistura à segurança de quem já compreendeu que pode, e deve, ir além. Ela não caminha sozinha. Atrás dela, há uma geração inteira que desperta cedo, carrega cadernos e esperanças, e desafia o destino com a força de quem acredita em futuros possíveis. Porque no Turiúba, o futuro não é promessa: é construção diária. E Andreina é uma de suas cientistas.
STEAM na Educação de São Luís (MA)
Em parceria com o Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) e a Secretaria de Educação do Maranhão, o UNICEF, por meio da iniciativa 1 Milhão de Oportunidades (1MiO), desenvolve ações que visam aprimorar continuamente a incorporação da abordagem STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), na educação.
Para suas iniciativas de apoio a garantia do direito à Educação de qualidade e oportunidades de acesso ao trabalho decente para adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, o UNICEF conta com uma parceria estratégica global com o Grupo BMW e com a parceria local com Instituto Equatorial e Beiersdorf - Casa de NIVEA e Eucerin.