Aprender começa com o acolhimento
Em Pacaraima, uma iniciativa do UNICEF fortalece a inclusão de crianças indígenas migrantes por meio do apoio de uma socioeducadora indígena
“Mamãe, você não vai acreditar quem estava na minha sala hoje”, conta, entusiasmado, Roderick Valentín, de 9 anos. Ele se referia a Olívia Jimenez, socioeducadora indígena que passou a integrar parte da rotina escolar de dezenas de crianças, promovendo aprendizados e acolhimento entre indígenas, migrantes e brasileiros em Pacaraima, município que faz fronteira com a Venezuela. Em 2025, o município tinha 36% da sua população composta por pessoas vindas do país vizinho.
Nas escolas, onde sempre foi comum haver estudantes venezuelanos devido a proximidade com a fronteira, as salas de aula ganharam cada vez mais a sonoridade do espanhol e de línguas indígenas, como o Warao. Foi nesse contexto que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), por meio do seu parceiro implementador, a AVSI Brasil, identificou a necessidade de apoiar a rede pública de ensino através das iniciativas de educação para crianças e adolescentes migrantes, especialmente indígenas.
“Já tive alunos que não falavam nada em português e nem espanhol, apenas sua língua materna indígena. Como um aluno que chega assim na escola vai aprender?”, diz Olívia. Em quase três anos apoiando a iniciativa, ela desenvolveu formas de auxiliar estudantes que falam pouco ou nenhum português ou espanhol a se sobressair nos estudos, acolhendo-os e aproximando-os também de outras crianças, como no caso de Roderick. Ao promover esse acolhimento, a iniciativa contribui para que crianças e adolescentes se sintam parte da comunidade escolar, o que favorece sua permanência na escola e reduz o risco de abandono.
Olívia recorda que em seu primeiro contato com a turma de Roderick, o comportamento do menino chamou sua atenção. Ele não se envolvia com as outras crianças, se sentava nos fundos da sala e não interagia nas aulas.
“Nos meus momentos com a turma, eu promovia leituras em grupo com contos tanto do Brasil, como da Venezuela. Passei a envolvê-lo, chamá-lo para ler os contos comigo, a participar com as outras crianças. Foi quando ele começou a perder o medo”, lembra.
Em casa, a mãe de Roderick, Rutzelis Ramos, acompanhava o desenvolvimento do filho, que ao chegar da escola, atualizava a mãe.
“Roderick me contou que Olívia estava apoiando a professora em sua escola. Ele ficou feliz em vê-la pois a conhece desde que era mais novo, quando chegamos aqui no Brasil”, disse. “Então ele passou a me contar sobre como a Olívia estava o ajudando. Ele dizia: ‘Mamãe, hoje a Olívia nos fez cantar’ e ‘mamãe, Olívia leu contos para a gente hoje’, e eu percebi o quanto aquilo o deixava feliz”.
“Eu tinha muito medo de que as pessoas não o aceitassem por ser indígena e por não falar o idioma. Mas sei que hoje ele está seguro, porque ele se sente assim. E ter um representante indígena dentro de sala de aula ajuda nisso”, explica Rutzelis, mãe de Roderick. “Me emocionou um dia que ele chegou em casa e disse ‘mamãe, estou começando a entender as palavras. Olívia está me dizendo o que as palavras em português significam’”.
Em alguns meses, Roderick passou a interagir mais nas aulas e com os outros alunos, e está mais confiante.
“Roderick é um aluno especial. Sua mudança foi grande, e por isso quis falar sobre ele. Hoje vejo ele muito mais sorridente, muito mais próximo”, descreve Olívia. “Para mim, é uma felicidade acolher crianças que muitas vezes chegam sem muita perspectiva ao Brasil, que acham que não vão aprender. Quero mostrar para elas que elas conseguem”.
Para apoiar estratégias de educação e acolhimento em Pacaraima, o UNICEF tem como parceria estratégica da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês).
Sobre o Projeto de Integração Intercultural Indígena
O Projeto de Integração Intercultural Indígena, desenvolvido pelo UNICEF em parceria com a AVSI Brasil tem fortalecido o acesso, a permanência e a aprendizagem de crianças e adolescentes indígenas migrantes, especialmente das etnias Warao, Eñepá e Pemon, em Pacaraima. Com uma abordagem intercultural que reconhece e valoriza a diversidade cultural, linguística e os direitos dos povos indígenas, a iniciativa tem apoiado a rede municipal de ensino na construção de ambientes escolares mais inclusivos, acolhedores e preparados para responder às necessidades específicas dos estudantes indígenas.
As atividades desenvolvidas incluem dinâmicas de quebra-gelo, contação de histórias, rodas de conversa, atividades lúdicas e mediação intercultural, promovendo a interação entre estudantes indígenas e não indígenas, o fortalecimento da convivência escolar e a valorização das identidades culturais. Além do trabalho direto com as crianças e adolescentes, a socioeducadora oferece suporte contínuo aos professores na adoção de estratégias pedagógicas culturalmente sensíveis, contribuindo para reduzir barreiras linguísticas e culturais e fortalecer práticas educativas inclusivas.
Ao longo dos três anos de implementação, o projeto atendeu diretamente mais de 600 crianças e adolescentes indígenas venezuelanos, além dos impactos relevantes para a educação no município. O projeto fortaleceu as capacidades da rede municipal de ensino para promover uma educação intercultural, ampliou o acolhimento e a participação dos estudantes indígenas na vida escolar, fortaleceu o vínculo entre escolas, famílias e comunidades indígenas e contribuiu para a redução de situações de discriminação e exclusão.