Proteger o coração da Amazônia é proteger nossas crianças e jovens
Capacitações em comunicação, monitoramento e sistematização de denúncias ajudam comunidades indígenas do Vale do Javari a fortalecer a proteção territorial e a garantia de direitos de crianças e jovens
No Vale do Javari, uma das maiores terras indígenas do Brasil, proteger a floresta significa muito mais do que vigiar rios e fronteiras. Significa garantir que milhares de crianças indígenas possam continuar crescendo em segurança, cercadas pelos recursos naturais que sustentam a vida de seus povos há gerações.
Para Bushe Matis, liderança indígena do povo Matis, a proteção do território é uma missão coletiva. Durante anos, ele acompanhou de perto os desafios enfrentados pelas comunidades do Vale do Javari diante da presença de invasores, da pesca ilegal, garimpo ilegal, do narcotráfico, tráfico de armas e de madeira e de outras ameaças que pressionam a região. A TI fica na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. "Hoje a gente consegue proteger melhor para que esses problemas cheguem cada vez menos às aldeias", conta.
Esse trabalho ganhou novo impulso com o fortalecimento da Equipe de Vigilância da UNIVAJA (EVU), apoiada pelo projeto Fortalecimento de Sistemas de Alerta Rápido e Repostas aos Crimes Ambientais relacionados à Mineração Ilegal do Ouro em Territórios Indígenas (SAR-TI), uma iniciativa implementada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com financiamento da União Europeia por meio do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (Echo, na sigla em inglês) e do Ministério de Assuntos Estrangeiros e Cooperação Internacional da Itália (MAECI).
Tumi Matis/Coletivo Vozes do Javari
Ao longo do projeto, iniciado em 2024, lideranças indígenas, comunicadores e integrantes das equipes de vigilância participaram de capacitações voltadas para comunicação, monitoramento territorial e sistematização de denúncias. O objetivo era fortalecer a capacidade das próprias comunidades de registrar, organizar e encaminhar informações sobre ameaças identificadas no território.
Antes, muitas denúncias chegavam aos órgãos públicos sem detalhes suficientes para gerar respostas rápidas. "O que acontecia era que a gente dizia que tinha visto um pescador ou um invasor. Mas faltavam dados, informações qualificadas. Hoje a gente consegue mostrar onde foi, quem foi, como aconteceu. A informação chega pronta para que os órgãos possam agir", explica Bushe.
A mudança tem gerado resultados concretos. Segundo ele, a formalização das denúncias ajudou a ampliar o diálogo e a cooperação com instituições como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Polícia Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). "Avançou muito. O governo tem atendido mais porque agora existe uma informação organizada e qualificada", afirma.
O fortalecimento da vigilância também tem um impacto direto na vida das crianças e adolescentes indígenas. Ao impedir invasões e atividades ilegais, as equipes ajudam a preservar rios, florestas e territórios que garantem alimentação, saúde e proteção às comunidades. "Isso traz proteção para o nosso povo. Para que não tenha mais invasão dentro da região e para que as pessoas possam viver em paz. Automaticamente, a gente também protege os povos isolados que vivem lá dentro", diz Bushe. O Vale do Javari tem a maior concentração de indígenas isolados do mundo.
Mas os desafios permanecem enormes. No coração da Amazônia, o Vale possui uma extensão territorial gigantesca, cortada por rios e áreas de difícil acesso. Muitas vezes, os vigilantes precisam percorrer longas distâncias para monitorar pontos vulneráveis da floresta. "Como proteger uma área tão grande? A logística é muito cara, as distâncias são enormes e a equipe enfrenta riscos todos os dias", explica Jaime Mayruna, recém-eleito coordenador da UNIVAJA.
Integrante do povo Mayuruna, Jaime assumiu a coordenação da organização em 2026 e pretende dar continuidade ao trabalho iniciado nos últimos anos. "Eu não quero destruir nada do que foi construído. Quero fortalecer ainda mais as parcerias e ampliar o apoio às comunidades", afirma. Para ele, o projeto representa mais do que um apoio técnico. É uma ferramenta que fortalece a autonomia dos povos indígenas na defesa de seus próprios territórios.
Enquanto os desafios continuam surgindo, Bushe acredita que o caminho está na união entre comunidades, organizações indígenas e parceiros.
Tumi Matis/Coletivo Vozes do Javari
"A gente sabe que as ameaças não vão desaparecer. Por isso precisamos estar preparados para defender nosso território. E cada parceiro que soma nessa caminhada ajuda a fortalecer essa proteção."
Na segunda maior Terra Indígena do Brasil, onde vivem povos indígenas e grupos em isolamento voluntário, a vigilância territorial vai além da proteção da floresta. Ela ajuda a garantir que crianças e adolescentes possam crescer com seus direitos preservados, em um território seguro para as próximas gerações.