“Precisamos fazer do grito, mobilização”

Integrante do projeto Geração que Move, Ana Acioly dá exemplo de coletividade ajudando na distribuição de cestas básicas para famílias do Parque Colúmbia

UNICEF Brasil
jovem usa avental e máscara de proteção, ela está em pé ao lado de materiais para doação
Arquivo pessoal
30 junho 2020

Nascida e criada no Parque Colúmbia, Zona Norte do Rio, Ana Acioly, 20 anos, circula intensamente pela cidade desde pequena visando melhores oportunidades de educação. Cursou o ensino fundamental em escola particular na Baixada Fluminense, por desejo dos pais em proporcioná-la uma formação de qualidade. “A prioridade da minha mãe sempre foi a educação, e ela teve a oportunidade de me colocar numa escolinha particular de bairro. Ela conseguiu me manter lá até o final do fundamental”, ressalta Ana. O longo trajeto até a escola foi enfrentado por ela, sozinha, desde o início da adolescência. “Por necessidade mesmo, porque meus pais não tinham condições de me levar”, completa ela. No ensino médio, Ana foi selecionada no concurso da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), completando os estudos em escola técnica, no bairro de Mangueira.

O vínculo educacional com instituições localizadas em regiões distantes do seu território despertou nela, há alguns anos, o desejo de contribuir com o seu bairro. Foi então que nasceu o envolvimento com o projeto Geração que Move, uma parceria do UNICEF com Fundação Abertis, Arteris, Agência de Redes para a Juventude e Viração. “Sempre estudei fora do meu bairro, isso me distanciou. Fazer parte do Geração que Move está sendo uma oportunidade de reconexão com o local onde fui criada e também de construir uma parte do meu trabalho”.

Hoje, Ana é graduanda em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense e aplica os conhecimentos do curso nos projetos da Agência. “É uma oportunidade tanto de dar retorno para a sociedade como de desenvolver minhas habilidades de produção”, reconhece a jovem.

No projeto Geração que Move, Ana está trabalhando no enfrentamento da Covid-19 e uma de suas atividades é fazer a logística de distribuição de cestas básicas às famílias do Parque Colúmbia – periferia da Zona Norte do Rio e Janeiro –, além de ir a campo realizar as entregas. Segundo a jovem, a iniciativa está proporcionando a ampliação do impacto das ações que vinha desenvolvendo no seu território.

“O Geração que Move me possibilita ser uma articuladora e trazer recursos para o bairro, dando visibilidade para ele” 

Ana Acioly, 20 anos, Rio de Janeiro

Ana destaca que o Parque Colúmbia é um bairro muito pequeno, escondido por Acari, portanto é importante investir em ações de divulgação para chamar o poder público para o enfrentamento das problemáticas locais. “O bairro é muito invisível... Por exemplo, ele só tem uma linha de ônibus. A gente fica muito à mercê dos transportes alternativos”, diz ela. Sua expectativa é de que o Geração que Move possa contribuir para disseminar informação de qualidade entre os cidadãos do seu bairro de maneira que reivindiquem seus direitos.

Hoje, devido ao impacto econômico da pandemia causada pela Covid-19, Ana já percebe indícios do “círculo de solidariedade entre os moradores”, como descreve. “A gente está consumindo mais entre a gente, movimentando o comércio local – visto que muitas pessoas perderam seus empregos – e ficando mais próximos”, diz a jovem.

Ana, pessoalmente, sentiu nos últimos meses um abalo direto nas suas finanças. Com o pai motorista de ônibus recebendo metade do salário, e a mãe, que está entre a população de risco, atuando no comércio informal, Ana se tornou a principal geradora de renda da família. “Foi uma responsabilidade que caiu pra mim de paraquedas, mesmo eu contribuindo em casa antes, eu não era a principal responsável”, conta ela. 

A jovem atua como prestadora de serviço em produtoras de arte e cultura, área na qual se descobriu após experimentar uma série de ramos desde a pré-adolescência. Na sua rotina antes da pandemia, trabalhava em escritórios no Centro da cidade, conciliando vida profissional com a graduação na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. “Ficava fora de casa das seis da manhã à meia-noite. Nunca passei tanto tempo em casa como agora”, lembra Ana.

Neste momento de quarentena, alguns dos projetos nos quais vinha atuando seguem atividade em home office. O trabalho, entretanto, se estendeu a novas funções domésticas. “Eu passo hoje o dia inteiro em casa, faço os freelas de casa, além de ir ao mercado fazer compras. Não falta tarefa”, diz ela e ressalta a necessidade do autocuidado para enfrentar o período de crise.

Quando olha para o futuro, Ana sonha com trabalhar com iniciativas que contribuam para o acesso à educação e à cultura nas periferias. A organização Produção de Cria, criada por ela recentemente, é um desses passos. Voltada à realização de projetos para “corpos não hegemônicos”, como enfatiza, não deixa dúvidas da veia ativista que a orienta. “Somos uma geração de denúncia, que sabe dos seus direitos. E a gente está com o sangue fervendo. Esse sangue quente é estratégico, precisamos fazer do grito, mobilização”, conclui a jovem.