Diante da epidemia, jovens atuam em suas comunidades

Conheça a história da jovem Juliana Carmo, participante do projeto Geração que Move no Rio de Janeiro

UNICEF Brasil
foto mostra o perfil da adolescente
Arquivo pessoal
04 junho 2020

“Até minha adolescência, o Parque Colúmbia foi meu lugarzinho, eu nunca tinha saído de lá pra conhecer esse mundão”. A trajetória da jovem Juliana Carmo, hoje com 20 anos, ganha novos rumos quando, em 2014, se muda com a mãe para Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e ingressa em escola situada na Zona Sul da cidade. Atualmente moradora de Seropédica, município da Baixada Fluminense, a jovem afirma que seu coração está entre Parque Colúmbia e Honório Gurgel, territórios onde concentra sua atuação.

A inquietação de Juliana em encontrar soluções para desafios que afetam sua comunidade a acompanha faz tempo. “Me doía muito quando eu via um amigo se envolvendo ou sendo assassinado. Eu queria ser a “presidenta” do Parque Colúmbia, sempre acreditei que podia transformar o meu bairro”. Com apoio dos pais, Juliana começou a engajar-se em projetos sociais ainda na infância. Desde os 16 anos, o trabalho em projetos comunitários passou a ser opção de renda – “entre outros bicos”, diz, “pois estou sempre no corre”.

O ingresso na Escola Estadual Amaro Cavalcanti, localizada em região de grande concentração de equipamentos de cultura e lazer na Zona Sul da capital fluminense, deu novo significado à relação da jovem com a cidade. “Meu divisor de águas foi no ensino médio, quando eu descobri que fazia parte do Rio de Janeiro. Do lado da escola, havia museu, praia, biblioteca, centros culturais, muita coisa que eu não conhecia”.

Foi também no ensino médio, que percebeu as barreiras para realizar seu sonho de admissão em universidade pública na área de ciências exatas. Tornou-se então protagonista na criação de um pré-vestibular comunitário. A iniciativa contribuiu para grande aprovação de jovens da comunidade no ensino superior. “Tenho bastante orgulho disso. Sou a primeira da minha família a entrar para uma faculdade federal”.

Hoje graduanda da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Engenharia de Alimentos, Juliana Carmo reconhece que sempre quis ser cientista. O gosto pela pesquisa veio do desejo de buscar ferramentas para transformar o mundo. Ao descobrir a biblioteca do Parque Colúmbia participando de um programa social, não arredou mais o pé. “Eu queria muito estudar pra poder mudar meu bairro”.

Desde então, sua circulação pela cidade é intensa, mas sempre atravessada pelo medo de ir e vir. O risco de ser assaltada e assediada foi encarado por ela com apoio fundamental da mãe, que a conduzia diariamente até o ponto de ônibus para ir à escola. “Minha mãe falava pra levar um celular baratinho para ficar à mostra e esconder o outro, e pra sempre botar um casaco grande pra não verem meu corpo”. O medo da violência acompanha a jovem até hoje, em Honório Gurgel e também em Seropédica.

Além de pela sensação de insegurança, o acesso à cidade é marcado pela restrita disponibilidade de transporte público. O “toque de Cinderela”, expressão cunhada por seus amigos de Honório Gurgel, aponta a impossibilidade de voltar para casa após as doze badaladas. “Eu queria levar minha mãe pra ver o espetáculo da Elza, ela nunca foi ao teatro, mas não pude, porque acabava depois das onze. É complicado. Quando eu saio pra Lapa com meus amigos, a gente precisa ficar na rua até às cinco da madrugada esperando ônibus pra voltar”.

A mudança da jovem para o município de Seropédica, onde fica a Universidade em que estuda, é fruto dessa dificuldade de locomoção. Apesar do desejo de estar perto da família, o alto custo com deslocamento até a faculdade e as longas horas na estrada acabaram falando mais alto. “Para ir de onde eu morava pra minha faculdade, tinha que ir andando um bom tempo até a Avenida Brasil, ficar horas esperando o ônibus e só depois de três horas e meia eu chegava a Seropédica”.

Com as dificuldades de transporte, uma opção seria aproveitar as atividades culturais do bairro. Mas o problema é que falta essa opção. “Em Honório Gurgel, a gente não tem muita opção de lazer. A gente só tem uma praça que está bem abandonada. Existe uma rua que é vazia onde a gente faz um pagode. Na verdade, o acesso à arte em Honório é pouco maior do que em Colúmbia. Aqui há roda de rima, slam, poesia... Em Seropédica, nem shopping existe, tudo que rola é na faculdade”.

Em Honório Gurgel, Juliana faz exercício físico no “valão” perto da casa da mãe – as pessoas correm lá, andam de bicicleta, mas é um cheiro horrível. Já equipamentos de saúde os moradores de Honório encontram no entorno, entretanto, além da baixa capacidade de atendimento diante da demanda, o acesso ao hospital mais próximo é dificultado pela falta de conexão entre os meios de transporte público. “Aqui a gente não pode ficar doente”, Juliana conclui.

Em 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus, Juliana começou a participar do projeto Geração que Move, desenvolvido pelo UNICEF em parceira com a Fundação Abertis e a Arteris, no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio, o projeto é realizado com a Agência Redes para Juventude, enquanto em São Paulo a parceria técnica é com a OSC Viração.

Na primeira fase do projeto, 20 adolescentes no Rio de Janeiro, entre eles Juliana, estão participando de encontros virtuais para discutir os desafios vividos por outros jovens e adolescentes em suas comunidades. Juntos, produzem conteúdos digitais para mobilização de mais jovens, além de protagonizar ação concreta de apoio a famílias lideradas por jovens, com a distribuição de itens de higiene e cestas básicas.

Com essa experiência, Juliana descobriu realidades mais duras que a sua no seu próprio território. “Estou vendo como há muita gente desesperada para poder comer. Eu sabia que existia, mas não tão próximo. Acabo me sentindo uma privilegiada simplesmente por ter água, saneamento, acesso à internet”. Com o projeto, Juliana quer contribuir para produzir informação de qualidade para outros jovens de sua comunidade e estimulá-los a se engajar na luta em prol da redução das desigualdades. “Nós podemos nos mover sim. Eu acredito no poder dessa mobilização”.