Ativismo, com cuidado e afeto

Morador da Pavuna, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Cesar Varella compartilha a realidade do jovem periférico no Brasil

UNICEF Brasil
25 junho 2020
foto de rosto do jovem. ele olha para a câmera com os olhos semicerrados
Arquivo pessoal

Cesar Varella, 21 anos é nascido e criado no bairro da Pavuna, localizado na periferia da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Atua no Complexo do Chapadão com o projeto Geração que Move, uma iniciativa do UNICEF, em aliança global com a Fundação Abertis e Arteris, e parceria técnica da Agência Redes para Juventude e Viração. Amante das artes desde pequeno, atuou em diversas iniciativas de cultura e educação. Formou-se no ensino médio, em escola estadual do seu bairro, e hoje é aluno do curso de Letras, na UniRio, e faz também parte de um coletivo de teatro, além de trabalhar como produtor cultural. Entre as muitas atividades que desenvolve, a luta contra o racismo é o ponto comum que dá sentido às suas ações.

"Todas as habilidades que eu adquiri com o tempo foram voltadas para essa luta contra o racismo"

Cesar Varella, 21 anos, Rio de Janeiro

César sente o racismo na pele desde a adolescência, quando começou a socializar por outras regiões da cidade, em cursos de teatro. "Foi aí que eu comecei a frequentar cidade", lembra ele. Nesse período, arriscou-se a conquistar espaço em outras instituições do Rio no intuito de desenvolver sua formação. "Não foi fácil enfrentar as diferenças sociais, mas a gente que é preto não pode se dar ao luxo de ter vergonha", enfatizou ele.

Os desafios de ser negro também batem à porta no seu próprio território e afetam o direito de ir e vir. No trajeto da estação de metrô até sua casa, César teme a iminência de sofrer violência pelo "medo da criminalização da vítima preta", como descreve. Embora a caminhada pelas ruas do bairro o exponha a esse risco, a alternativa de fazer o trajeto em mototáxi parece ainda mais perigosa. "Quando eu percebi que era o segundo corpo preto em uma moto, comecei a repensar essa estratégia. Até na locomoção eu sou privado de direitos", diz César.

A mobilidade, entretanto, marca o cotidiano do jovem. Por estudar na Zona Sul e estar envolvido com diversos projetos culturais, "o metrô é o lugar onde passo a maior parte do meu tempo", afirma ele. Esse tempo, contudo, é bem ressignificado, tornando-se espaço para atividades de estudo e criação. O uso constante do metrô se desdobrou, inclusive, na idealização do projeto Estação Pavuna, voltado para a valorização de artistas independentes que estavam privados de se apresentar nos vagões. Do contato frequente com eles durante as viagens, César percebeu que muitos provinham também da Pavuna e que, portanto, fazia sentido se articularem para a realização de um evento nesse território. "No evento aconteceu uma coisa incrível que foi uma mistura de manifestações e linguagens, desde o rap ao funk, ao passinho, e no final virou um grande baile funk", relembra o jovem com orgulho.

"A roda de rap foi o que mais colou aqui", diz. A Arena Pérola Negra é um dos únicos pontos de acesso à cultura do bairro. A carência de oportunidades – não apenas de arte, mas também de trabalho e educação – faz da Pavuna "um bairro dormitório", segundo o jovem. "As pessoas não tinham que migrar para ter acesso à arte", diz ele, defendendo a necessidade de criação de polos culturais locais. Essa luta está sendo encampada por César com apoio fundamental da Agência de Redes para Juventude, instituição que ele integra há três anos com projetos e que é parceira do Geração que Move. A Agência desempenha, para César, um papel importante na aglutinação de produtores de cultura do território e, pessoalmente, o impulsionou a desenvolver sua vocação ativista e a ampliar sua rede de contatos.

O ativismo que César vem trabalhando em suas ações ganha, hoje, novo impulso com a participação no Geração que Move. "Acho que é o ativismo mais bonito que eu tenha feito até hoje, porque ele está do lado do cuidado e do afeto", reflete o jovem. Ele destaca que auxiliar no enfrentamento da crise causada pelo coronavírus, por meio da doação de itens básicos, é contribuir para a preservação da vida da população. "Hoje, ter acesso a comida e material de higiene é ter direito à vida. Eu me sinto contribuindo para amenizar a situação que os meus estão passando neste momento", ressalta ele. O jovem destaca que as ações vão além de entregar bens a quem precisa, pois as cestas são particularizadas de acordo com as demandas de cada família, incluindo a doação de livros específicos às crianças.

A pandemia desencadeada pela Covid-19 vem impactando também a vida pessoal de César, em particular sua carreira. Derrubou trabalhos que tinha em andamento, além de desafiá-lo a repensar como seguir atuando nas áreas que escolheu. "Teatro e educação, pra mim, é presença, é olho no olho", diz ele, apontando as dificuldades de se adaptar ao uso das tecnologias digitais. A sobrevivência do teatro à crise que se instaurou é motivo de grande preocupação do jovem. Diante do horizonte incerto, a vontade de contribuir para mudanças sociais tem sido combustível para César. "Penso em, quando me formar, voltar para o bairro onde atuo e dar aulas. Eu saí daqui e estou devolvendo mudanças para este território, é o mesmo sentimento que eu tenho participando do GeraMove", conclui o jovem.