O direito às raízes

Toda criança tem direito a usar seu próprio idioma, cultura e religião. Rosane Martins, 16 anos, do povo indígena puyanawa, luta para que outros adolescentes queiram resgatar esse direito do seu povo

UNICEF Brasil
Rosane sorri, olhando para a frente. Ela usa pintura indígena no rosto e vários colares e pulseiras étnicos.
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

20 Novembro 2019

 

Artigo 30: Cultura, idioma e religião das minorias
As crianças têm o direito de usar seu próprio idioma, cultura e religião – mesmo que não sejam compartilhados pela maioria das pessoas no país em que vivem.

O tewte* pendurado no pescoço e o vipuki* no rosto de Rosane Martins, de 16 anos, reafirmam suas origens. “Fui eu mesma que fiz, sou uma das artesãs da aldeia”, fala com orgulho. A adolescente é parte do povo indígena puyanawa, que significa gente do sapo grande, situado a 17km do município de Mâncio Lima, no Acre. “Nosso povo foi sofrido no passado. Tivemos nossa cultura praticamente destruída e hoje estamos tentando resgatá-la”, conta. Com apenas 16 anos, Rosane busca reviver a história de seu povo e levar esse legado para outros adolescentes da própria comunidade.

Como protagonista na aldeia, foi uma dos 53 adolescentes selecionados em todo o Brasil para construir um manifesto em celebração aos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, e foi até Brasília para representar as crianças indígenas.  

A vida na aldeia
O artigo 30 da Convenção sobre os Direitos da Criança prevê que toda criança tem direito à sua crença, à sua religião e ao seu idioma, mesmo que esses não sejam compartilhados pela maioria no país em que vivem. Porém, essa ainda não é uma realidade em muitas comunidades minoritárias. “Nossa aldeia é como uma cidade. Todo mundo fala português, a casa de quase todo mundo é de alvenaria com telhado de alumínio”, diz Txukukayti – nome de Rosane na língua puyanawa, que significa flor de jardim.

Apesar disso, a vida da adolescente é diferente da maioria da aldeia. Filha de um dos líderes, cresceu com o direito à sua cultura latente na família. Seus pais estão entre as primeiras pessoas que tiveram o pensamento de resgatar a cultura puyanawa por meio da espiritualidade, trabalhando para resgatar a música, a história e a arte do passado.

Tanto assim que é moradora da única casa de palha da comunidade, mantida por seu pai, que almeja manter a tradição.

“Nossa casa é de palha com patioba e tábua, e todo mundo acha bonita. Meu pai quis manter e mostrar a cultura. Justamente, por isso, ela é uma das mais visitadas da aldeia”

Txukukayti, 16 anos

Cursando o 2º ano do ensino médio, Rosane estudou a vida inteira na escola indígena da sua comunidade. Para ela, a sua escola é bastante representativa da cultura do povo puyanawa, começando por ter “estrutura de desenho indígena e ser toda de tábua”, como descreve. Além disso, festividades culturais como o aniversário da aldeia, posse do cacique e Dia do Índio são momentos especiais para os alunos. “Nos reunimos pra fazer homenagens à aldeia, à terra, à floresta, ao cacique, e a nós mesmos”.

Lá, ela estuda todas as disciplinas regulares e também a língua puyanawa. O idioma chegou a ser praticamente extinto – com as crianças aprendendo apenas português –, mas, com o recente resgate da cultura na aldeia, a educação da língua nativa foi garantida nas escolas e as novas gerações agora têm contato com ela desde cedo. “É muita coisa pra aprender, é como aprender um novo idioma: basta se dedicar. Eu ainda estou aprendendo, mas sei bastante porque tento desde criança”, conta Rosane. 

Entre tantas atitudes, é assim que Txukukayti luta e se dedica a mostrar para outros adolescentes a importância de manter a cultura de seu povo. E essa representatividade a levou longe: foi da aldeia à capital federal.

vários adolescentes estão de lado para a câmera, eles olham para a frente, falando alguma coisa. o foco da foto está na adolescente Rosane, que tem o rosto com pinturas étnicas de seu povo indígena
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

Da aldeia à capital
Fora do Acre pela primeira vez,  a adolescente viajou a Brasília representando sua cultura, suas tradições e para dizer: crianças indígenas também têm voz.

Chegar à capital foi uma surpresa. “Tudo é diferente daqui pra lá. Barulho de carros, clima diferente, conhecimento novo e gente nova”, diz. Apesar das diferenças, Rosane estava motivada em participar do encontro promovido pelo UNICEF com 53 adolescentes do Brasil inteiro. Cada um levou sua voz para construir a Carta de Brasília, manifesto resultado de três dias de imersão, que celebra os 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança, mas também lembra dos desafios que ainda devem ser enfrentados.

“O assunto do encontro me chamou atenção, porque a criança é o futuro da sociedade. Ela que vai crescer e ser a liderança. É uma oportunidade única”, se alegra.

Mesmo antes de conhecer a CDC, Rosane já reconhecia seu direito de manter sua cultura, expressar sua religião e usar seu idioma. Agora, a volta para casa será uma reafirmação do compromisso com a cultura puyanawa. Lá na aldeia, toda essa alegria é compartilhada pelos pais, que, felizes, incentivaram a filha a levar a sua cultura até a capital, representando tudo aquilo em que ela acredita e pelo que luta. “Disseram que era apenas o começo”, sorri, esperançosa. E é.

Leia o manifesto na íntegra.

*tewte significa colar na língua indígena puyanawa e vipuki é o nome da pintura feita no rosto.