O direito ao acolhimento

Crianças que saem de seu país de origem rumo a outro, como refugiadas ou migrantes, devem ter os mesmos direitos que aquelas nascidas no país. Juskellys e Gaby descobriram isso e agora lutam para que crianças venezuelanas não deixem de seguir seus sonhos

UNICEF Brasil
Gaby e Juskellys olham para a foto sorrindo. Elas usam camisetas azuis da CDC
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

20 Novembro 2019

 

Artigo 22: Crianças refugiadas
As crianças que se mudam de seu país de origem para outro país como refugiadas (porque não era seguro para elas permanecer naquele país) devem obter ajuda e proteção e ter os mesmos direitos que as crianças nascidas nesse país.

No dia 5 de julho de 2019, debaixo de chuva intensa, Gaby Mencia, de 16 anos, cruzava com sua família a fronteira da Venezuela com o Brasil. Saindo de Anzoátegui, no norte venezuelano, os pais, o irmão e ela passaram por um caminho árduo: na metade do trajeto, o ônibus em que estavam foi roubado, e tiveram que seguir caminhando até o Brasil. Depois de uma longa semana de viagem, finalmente chegaram a Pacaraima, onde começaram a tirar seus documentos para o refúgio no País. Mais de um mês se passou, e a família seguiu para o abrigo Rondon 1, em Boa Vista, onde estão há alguns meses. “No trajeto, conhecemos várias pessoas, como a Juskellys, que também esteve no abrigo em Pacaraima”, relembra Gaby.

Em outro dia chuvoso, seis meses antes, em janeiro de 2019, Juskellys Bastardo sentia a dor no braço das quatro vacinas que tomou quando chegou a Pacaraima. Carregando uma mala cheia de livros e molhada da chuva, a menina de 17 anos havia deixado pela primeira vez o seu país rumo ao desconhecido. Mesmo assim, ao cruzar a fronteira, Juskellys só tinha uma esperança no pensamento: “Um futuro, uma oportunidade de ser alguém na vida”.

Assim como a família de Gaby, a dela também recebeu o refúgio no País. Passaram um mês na fronteira até serem transferidos para Boa Vista, onde vivem atualmente. E foi nesse trajeto que as histórias das duas adolescentes começaram a se cruzar.

O contato das duas se tornou amizade, e agora a história das duas segue seu caminho entrelaçada. Gaby e Juskellys foram escolhidas pelo UNICEF, com outros 51 adolescentes brasileiros, para participar do encontro de celebração dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) em Brasília, e levantar a voz das crianças migrantes no novo país em que vivem.  

Nova realidade, novos sonhos
As crianças que se mudam de seu país de origem para outro país como refugiadas (porque não era seguro para elas permanecer naquele país) devem obter ajuda e proteção e ter os mesmos direitos que as crianças nascidas nesse país – é o que prevê o artigo 22 da CDC. Porém, ao entrar no Brasil, Juskellys e Gaby ainda não sabiam disso.

A mudança foi repentina. Na Venezuela, Juskellys estava há apenas duas semanas de se formar no ensino médio quando foi embora.

“Foi uma surpresa deixar a Venezuela para uma nova vida. É difícil ser migrante”

Juskellys, 17 anos

Juskellys, que sempre quis se dedicar aos estudos, sonhava em ter uma profissão que a permitisse ajudar as pessoas, assim como Gaby. Elas apenas ainda não sabiam a forma como poderiam fazer isso.

No Brasil, a palavra “abrigo” muitas vezes não passou de um teto sobre suas cabeças. A adaptação às novas escolas tem sido difícil. O idioma, a cultura diferente e muitas vezes o preconceito desmotivaram as adolescentes. Mas, mesmo em meio a tudo isso, o destino das duas se cruzou e começaram a participar de diversas atividades em busca de transformar o refúgio em algo positivo.

“Lá na Venezuela, eu tinha uma rotina de casa para escola e da escola para casa, ajudar minha mãe, cuidar dos meus irmãos”, lembra Gaby. Hoje, no Brasil, junto com a amiga Juskellys, conseguiu se engajar em diferentes grupos, como teatro e canto, além de formar parte de um grupo LGBT que oferece apoio a outros adolescentes migrantes que chegam ao abrigo. Rapidamente, a resiliência das adolescentes foi reconhecida: se tornaram protagonistas.

E foi no grupo de teatro que, no dia do aniversário de Juskellys, um presente veio em forma de surpresa para as meninas. O grupo fez uma votação para escolher dois representantes que levariam a voz dos adolescentes migrantes a um encontro. De cara, os nomes mais votados foram os de Gaby e Juskellys, que logo descobriram que iriam para Brasília representando os seus panas (amigos). “Eu não conseguia acreditar. Pensei: uau, estou cada dia cumprindo o meu sonho”, alegra-se Juskellys.

um grupo de adolescentes está em uma sala com várias imagens espalhadas pelo chão. alguns adolescentes seguram pequenos cartazes com ícones com os direitos previstos na CDC
UNICEF/BRZ/Rayssa Coe

Nova realidade, novos sonhos
Apesar da longa trajetória até o Brasil, Gaby e Juskellys nunca haviam viajado de avião. Animadas e nervosas, pela primeira vez as duas voaram e chegaram a Brasília. A experiência não parou por aí. As meninas tiveram contato com adolescentes brasileiros de todos os estados e descobriram um pouco mais sobre o País em que estão. Mas, acima de tudo, conheceram e entenderam os seus direitos.

“Eu não sabia que temos os mesmos direitos que os brasileiros. Mas li nos artigos 21 e 22 da CDC, que falam sobre os direitos das crianças migrantes”, conta Juskellys, que participou ativamente das oficinas durante o encontro de adolescentes na capital.

Os 53 meninos e meninas escreveram a Carta de Brasília, um manifesto que relembra as vitórias alcançadas com a CDC nas últimas três décadas, e reforça os desafios que ainda devem ser enfrentados. Com Gaby e Juskellys, a voz das crianças migrantes não foi esquecida.

Agora mais do que nunca, as meninas sabem como podem ajudar outras pessoas. “Queremos ser ativistas pelos direitos das crianças e adolescentes migrantes. Eu não tinha achado o caminho até que encontrei UNICEF”, conta Juskellys, sorrindo. Apesar de todas as dificuldades, para ela, a nova vida como refugiada tem-na motivado cada vez mais a seguir seu sonho de trabalhar pelos direitos humanos e, por meio de sua história, mudar a de outros. “Eu já tinha essa vontade em mim, mas isso (ser migrante) foi o empurrão que faltava”.

Para Gaby, a experiência como migrante também tem potencializado sua vontade de levantar a voz, o que fez a viagem para Brasília ser decisiva: ao voltar para Boa Vista, quer ensinar às crianças migrantes sobre os seus direitos. “Quero dar palestras de motivação para crianças e adolescentes dando uma nova esperança. Dizer que podem estudar sem discriminação, que podem alcançar seus sonhos e que não devem deixar de seguir seus sonhos só porque mudaram de país. Se eu posso, eles também podem”.

Finalmente, as duas meninas se sentem acolhidas, e mais ainda: querem acolher.

Leia o manifesto na íntegra.