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A natureza como sala de aula em Canguaretama, no Rio Grande do Norte

Com o projeto Educação Baseada na Natureza, adolescentes de Canguaretama, pequeno município do Rio Grande do Norte, se conectam com o meio ambiente a partir do seu território, tendo professores como aliados

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UNICEF
03 novembro 2025

Desde criança, Lara Silva, de 13 anos, cultiva uma relação especial com a natureza. Tudo começou com as idas ao sítio da avó, que é agricultora familiar e está sempre rodeada por árvores e animais: por amor e por sobrevivência, já que até hoje vive do que planta. Essa afinidade com o meio ambiente foi aguçada, em 2024, durante uma das atividades da sua escola: o plantio de mudas de árvores na cidade onde mora, Canguaretama, município do Rio Grande do Norte com pouco mais de 30 mil habitantes. Ações como essa levaram a escola a desenvolver dois projetos de educação socioambiental: Barco Escola e Horta da Escola, desenvolvidos a partir da iniciativa Entre no Clima por uma Educação Baseada na Natureza, liderada pelo UNICEF.

“Na infância, eu praticamente morava lá no sítio da minha avó. Eu era bem pequenininha e ia para a alta (roçado) junto com ela. E até hoje ela leva a agricultura como uma forma de se manter, ela vende milho, feijão… Então foi por causa dela que comecei a gostar da natureza”, explica Lara, estudante do 8º ano da Escola Estadual 4 de Março. Ela é uma das estudantes que participam dos programas de educação socioambiental da escola, fortalecidos pela adesão dos professores às formações do projeto Educação Baseada na Natureza, que visa preparar e mobilizar crianças, adolescentes e jovens brasileiros para serem agentes de transformação e regeneração ecológica, tendo a educação como parte fundamental desse processo.

Diretora da Escola Estadual 4 de Março e entusiasta da educação pública, Késsia Pessoa já consegue identificar resultados concretos no comportamento dos estudantes desde o início do projeto. “A gente vê, sim, a diferença: a escola mais limpa, mais cuidada, os alunos com essa consciência sobre o reaproveitamento do lixo, porque tudo isso vai ter um impacto muito importante lá na frente”, destaca a gestora, que é autora do livro Uma Escola que Sente: Narrativas Reunidas.

mural escolar onde se lê Mural do Meio Ambiente
UNICEF/BRZ/Praia Filmes

“É incrível o quanto eles interagem diretamente com o meio ambiente, o quanto eles têm um pensamento responsável, sustentável. Se você destacar qualquer embalagem, qualquer papel que eles perceberem no chão aqui na escola, eles questionam, eles estão ativos, atentos mesmo. Eles ficam realmente protagonistas”, salienta Júnior Oliveira, professor de Geografia da Escola 4 de Março.

Outro responsável pelo entusiasmo dos estudantes com a iniciativa é João Balbino, professor de Geografia, um dos que lideram as esperadas aulas de campo, promovendo o contato prático entre os estudantes e a natureza. “Só de sair daquela rotina de sala de aula e se aprofundar, adentrar nesse mundo, eles ficam fascinados, eles se empolgam muito”, relata o docente. “Essa semente de sensibilização está sendo plantada, e isso modifica o comportamento dos nossos alunos”, acrescenta. A Escola 4 de Março tem 392 alunos do 6º ano ao ensino médio, incluindo as turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Joaquim Gomes, de 14 anos, estudante do 8º ano, traduz as aulas de campo como um despertar para a diversidade da natureza e uma sensação de pertencimento ao lugar onde vive. “A parte que eu mais gosto são as aulas de campo. Quando nós vamos para lá, podemos observar tudo aquilo, a partir da explicação do professor, e pensar de uma forma totalmente diferente, pensar que lá existe vida, que lá é a casa de milhares de espécies”, diz. “Eu percebi que Canguaretama tem um grande tesouro guardado dentro dela, que é a sua natureza. Quando fazemos uma ação aqui, não estamos afetando só o ambiente de Canguaretama, estamos afetando o mundo todo”, complementa.

Percurso formativo fortalece planejamento e didática escolar

A percepção dos estudantes é mais sensível porque há um esforço do corpo de professores, alinhado à metodologia do projeto Educação Baseada na Natureza, para decodificar essa educação socioambiental e trazê-la para a realidade cotidiana dos estudantes. “Na sala de aula, nós temos discutido os principais problemas que afetam o nosso município e que acabam impactando a rotina dos estudantes”, ressalta Júnior Oliveira, professor de Geografia da Escola 4 de Março. “E os alunos e suas famílias vivenciam tudo isso e estão dentro dessa realidade, no dia a dia, mas muitas vezes eles vão se acostumando com aquela rotina, então há a necessidade de a escola mostrar e discutir com eles para que lutem por melhorias para eles e para a comunidade como um todo”, reflete.

João Balbino exemplifica essa conexão com a teoria e a vida prática: “Os dejetos que saem das casas dos estudantes são canalizados para o rio, então eles entendem que aquele rio antes era fonte de vida, de lazer, e hoje é impróprio para banho. Então isso vai gerando uma conscientização”, atesta. 

estudantes andando em fila ao lado de barco em área verde estudantes
UNICEF/BRZ/Praia Filmes
turma de adolescentes e professores posam para foto em área externa turma
UNICEF/BRZ/Praia Filmes

Entre os principais problemas ambientais de Canguaretama estão o crescimento urbano desordenado, que gerou a ampliação do consumo e, consequentemente, do lixo e da poluição; o avanço da carcinicultura e da agroindústria; e a poluição dos rios e do mangue.

Lara confirma a tese da mudança de postura em relação à educação ambiental e garante que o aprendizado da sala de aula foi levado para casa. “Costumo falar com meu irmão, porque ele jogava lixo na rua. E eu passei a dizer para ele: olha, não pode, porque é errado poluir o nosso planeta, isso pode causar coisas ruins para a gente”, diz.

Para apoiar as equipes escolares no desenvolvimento e fortalecimento de práticas pedagógicas por uma Educação Baseada na Natureza, o UNICEF disponibilizou às escolas trilhas formativas, planos de aula e outros materiais pedagógicos. Todo o material formativo foi produzido a partir dos aprendizados nas escutas realizadas nos territórios. “As trilhas formativas vieram para contribuir com o planejamento e o currículo da escola. Elas trouxeram um conteúdo a mais para os professores, e bem diverso, para que a gente possa implementar não só na escola, mas no dia a dia da comunidade”, avalia a diretora Késsia Pessoa.

A opinião é corroborada pelo professor João Balbino. “As trilhas formativas ajudaram consideravelmente a implementação do projeto. Sem elas, não teríamos, muitas vezes, um norte por onde começar, o que realmente poderíamos atingir, o que realmente a gente queria, a que ponto a gente vai chegar”, aponta.

Os percursos formativos têm como meta alcançar quatro mil professores até a conclusão do projeto, em 2026. São três trilhas, com duração de 10 horas cada, para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental. Além disso, 620 gestores escolares já foram capacitados em eventos presenciais. Em março, o Rio Grande do Norte sediou, em Natal e Mossoró, duas formações, com oito horas de duração cada, voltadas a coordenadores pedagógicos escolares e gestores da Secretaria Estadual de Educação. Um novo ciclo será realizado até o fim do ano.

Além das trilhas formativas, foram produzidos cinco episódios do podcast Deixa que eu Conto “Vozes da natureza – Cuidando do Planeta”, que busca conectar as crianças pequenas com os elementos da natureza, e o Guia de participação de estudantes no enfrentamento da crise climática. Com atividades em andamento no Distrito Federal e Rio Grande no Norte e nas cidades de Salvador (BA) e Recife (PE), o projeto Entre no Clima por uma Educação Baseada na Natureza é uma iniciativa do UNICEF, em parceria estratégica com a Neoenergia, por meio do Programa de Eficiência Energética da ANEEL. O projeto conta com a parceria institucional e de implementação do Instituto Alana.

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