ACREDITE! VOCÊ TEM O PODER DA MUDANÇA.
Click to close the emergency alert banner.

“Não existe distância para efetivar direitos”

A trajetória de Janaína, no Maranhão, e o sonho de um futuro com mais oportunidades para crianças e adolescentes quilombolas

-
UNICEF
20 outubro 2026

Por muito tempo, a bicicleta foi a ponte entre Janaína Mendonça e seus sonhos. Ainda menina, ela saía de casa no Quilombo Ariquipá, em Bequimão (MA), e percorria cerca de 12 quilômetros para chegar à escola, na sede do município. Essa rotina se iniciou aos 7 anos, quando Janaína perdeu a mãe, que era empregada doméstica, e deixou São Luís para morar com os avós.

Na época, a comunidade não tinha energia elétrica nem escola. Foi ali que encontrou o colo e a força que marcaram sua trajetória para sempre. Os avós, que não sabiam ler nem escrever, tornaram-se seus maiores exemplos. Apesar das dificuldades, repetiam para ela e seu irmão uma frase que Janaína guarda até hoje, já com 36 anos: "Vocês nunca vão parar de estudar", conta. 

Emocionada, ela recorda os primeiros anos após chegar à comunidade:

mulher posa em frente a parede pintada

A infância foi marcada por aprendizados duros. Ir para a roça fazia parte da rotina das famílias e do cotidiano das crianças da comunidade. "A roça era quase um castigo para a gente. Se não ajudasse nos afazeres, ia para a roça. Eu tentava me acostumar, mas não era aquilo que eu queria. Eu queria estudar", diz.

Com o passar dos anos, Janaína também passou a compreender os sacrifícios silenciosos feitos pelos avós para que ela e os irmãos permanecessem na escola. A saudade da mãe também acompanhava muitos momentos da infância. "Às vezes meus avós deixavam de comer para que a gente pudesse comer. E eu percebia isso. Quem perde uma mãe sabe que não é fácil", relata.

Mesmo diante das dificuldades, Janaína nunca deixou de acreditar na educação. Foi nela que encontrou a possibilidade de construir novos caminhos e honrar o esforço daqueles que a criaram.

A descoberta da luta coletiva

Na adolescência, Janaína começou a participar de movimentos sociais voltados à defesa dos direitos das comunidades quilombolas. Foi nesse espaço que encontrou seu propósito.

"O movimento social abriu muitas portas para mim. Foi ali que comecei a me posicionar, a entender meus direitos e a buscar minha ancestralidade", afirma. 

Em 2010, passou a integrar oficialmente o movimento quilombola de Bequimão e viu de perto as conquistas alcançadas pela mobilização das comunidades. "Ver tantas conquistas por meio do movimento me deu ainda mais vontade de lutar pelos direitos que muitas vezes são negados para a gente. Eu queria ajudar minha comunidade, sair para buscar melhorias e voltar para contribuir com o meu povo", fala.

Também atuou por seis anos como professora na própria comunidade, ajudando crianças e adolescentes a enxergar na educação uma ferramenta de transformação.

Hoje, Janaína cursa Licenciatura em Educação Quilombola pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), e desde 2024, ocupa o cargo de secretária municipal de Igualdade Racial de Bequimão. Em breve, será a segunda pessoa graduada de sua família, ao lado do irmão.

mulher e filho olham um para o outro e posam para foto
UNICEF/BRZ/Letícia Chaves

O que eu não tive, quero oferecer aos meus filhos

Mãe solo de quatro filhos, de 19, 14, 8 e 7 anos, Janaína vê na própria família os resultados das mudanças que chegaram às comunidades quilombolas ao longo dos anos. Diferentemente do que aconteceu com ela, seus filhos estudam dentro da própria comunidade, em uma escola pública que atende da educação infantil ao ensino fundamental.

"Eu quero dar para os meus filhos o que eu não tive enquanto criança. O pouco que eu tive foi a educação, e é isso que eu tento passar para eles", diz.

Ela costuma repetir uma mensagem que ouviu dos avós e que agora atravessa outra geração.

"Vocês precisam valorizar a educação. Quando se é pobre já é difícil. Quando se é negro é mais difícil ainda. E quando se é quilombola, os desafios são maiores. Então a prioridade de vocês tem que ser estudar”, conta.

Mas o sonho vai além da formação acadêmica. "Eu sempre digo para eles: estudem e retornem para a comunidade de vocês. Que vocês possam dar visibilidade para a nossa comunidade e ajudar outras pessoas."

Quando os direitos chegam mais perto

Ao olhar para trás, Janaína percebe o quanto a realidade mudou desde sua infância. Hoje, ela destaca que serviços que antes exigiam longos deslocamentos passaram a chegar aos territórios quilombolas. A vacinação é realizada nas comunidades e nas escolas. Ações de saúde, assistência social, alimentação e educação passaram a estar mais próximas das famílias.

Para ela, essas políticas fazem toda a diferença na vida das crianças e adolescentes.

"Não existe distância para efetivar direitos."

Entre as transformações que mais a emocionam está a participação do filho de 14 anos no Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA) do Selo UNICEF, que descobriu o coletivo enquanto participava de uma das atividades ao lado da mãe.

No início, ele era tímido. Hoje, Janaína já percebe mudanças. "Essa convivência com outros adolescentes faz a criança pensar no futuro, no que ela quer para a vida. O exemplo de outros adolescentes acaba incentivando. Começou a despertar nele esse interesse em estudar, em participar. Hoje ele fala dos sonhos dele, do que quer fazer quando terminar a escola”, relata.

mulher sorri enquanto lê livro
UNICEF/BRZ/Letícia Chaves

Um futuro construído por muitas mãos

Para Janaína, as transformações vividas por Bequimão são resultado da luta histórica das comunidades quilombolas, do compromisso do poder público e de iniciativas que colocam crianças e adolescentes no centro das políticas públicas. 

Um dos exemplos que ela destaca é a Semana do Bebê Quilombola, criada em 2013 e posteriormente transformada em lei municipal.

“Quando uma criança nasce durante a Semana do Bebê, ela é considerada um ‘bebê prefeito’. Ela recebe simbolicamente a chave do município e a família passa a receber apoio, com a entrega mensal de itens de higiene para ajudar nos cuidados da criança”, explica.

A iniciativa mobiliza diferentes secretarias para levar serviços diretamente a todas as comunidades quilombolas do município, com vacinação, atualização do Cadastro Único, acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), oficinas, palestras e atividades voltadas para a primeira infância e para as famílias. Entre as ações, também estão a entrega de kits de higiene para bebês, atividades de educação quilombola, fortalecimento da agricultura familiar e a distribuição de alimentos produzidos pelas próprias comunidades para a merenda escolar.

O município de Bequimão já participou de diferentes edições do Selo UNICEF, e em 2022 recebeu o projeto-piloto para o fortalecimento de direitos de meninos e meninas quilombolas.

“Foi um avanço muito grande. Antes eu não via iniciativas específicas voltadas para a educação quilombola. Hoje já existem oficinas, formações e espaços de discussão que ajudam a valorizar a identidade das nossas comunidades.”

Para Janaína, tudo isso tem um significado especial.

“Hoje as comunidades também contribuem diretamente para a alimentação escolar. Muitos dos alimentos que chegam às escolas, como hortaliças, verduras e outros produtos da agricultura familiar, são produzidos pelos próprios quilombos. Isso fortalece a geração de renda nas comunidades e valoriza o trabalho das famílias locais. A Secretaria de Igualdade Racial tem um papel muito importante nesse processo, porque ajuda as comunidades a conhecerem melhor seus direitos e a se fortalecerem para reivindicar aquilo que lhes é garantido enquanto comunidades quilombolas”, conta.

Ao olhar para sua própria trajetória, ela reconhece o longo caminho percorrido desde a menina que chegou ao quilombo sem mãe, sem energia elétrica e sem escola na comunidade.

Hoje, ela vê seus filhos estudando perto de casa, adolescentes quilombolas ocupando espaços de participação e políticas públicas chegando cada vez mais perto das famílias.

E é justamente nessa transformação que encontra esperança.

Porque a menina que um dia pedalou quilômetros para estudar agora ajuda a abrir caminhos para que outras crianças e adolescentes quilombolas tenham acesso aos seus 

Em Bequimão, o cumprimento das entregas previstas no município contribuiu para fortalecer ações e políticas públicas voltadas diretamente às comunidades quilombolas do município, que também conquistou a certificação na edição 2021–2024 do Selo UNICEF. 

A experiência gerou aprendizados importantes sobre a implementação de políticas públicas que considerem as especificidades dos territórios e de suas populações, e contribuiu para o para o fortalecimento dessa agenda na edição 2025–2028 do Selo UNICEF, inclusive com o lançamento do Guia de Equidade Étnico-Racial, que orienta os municípios na construção de políticas públicas que respeitem as especificidades e garantam os direitos de crianças e adolescentes indígenas e quilombolas.

Sobre o Selo UNICEF

O Selo UNICEF é uma das maiores iniciativas de fortalecimento de políticas públicas do País. Na última edição (2021-2024), 933 municípios dos 2.023 que foram mobilizados pelo programa receberam a certificação. Isso representa a melhoria de indicadores-chave relacionados à infância e adolescência nestas localidades, como imunização, permanência de crianças na escola e prevenção de violências.

A edição atual, que segue até 2028, já atingiu número recorde de adesões, com 2.277 cidades de 18 estados participando da iniciativa: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais (norte do estado), Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins. A iniciativa reconhece o esforço dos municípios na promoção, realização e garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

Para o Selo UNICEF, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Equatorial Energia e Rumo Logística, com a parceria de RD Saúde, por meio das marcas Raia e Drogasil, e com o apoio da Energisa. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.