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“Me fortaleceu como futura liderança indígena”

A estudante Aline Assan Beleza ressalta que as ações da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar consolidaram seu desempenho como liderança indígena em sua aldeia

UNICEF Brasil
Foto mostra uma adolescente olhando para a câmera
UNICEF/BRZ/Michael Dantas
10 outubro 2023

Aline Assan Beleza, de 17 anos, é uma adolescente indígena da Aldeia Kwatá, no município amazonense de Borba. Ela integrou o grupo com as lideranças que participaram das atividades da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE) realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para agentes públicos locais sobre os desafios na educação escolar indígena. A iniciativa conta com a parceria estratégica da Porticus.

A estratégia Trajetórias do Sucesso Escolar tem como objetivo superar a cultura de fracasso escolar e lidar com os elementos que compõem seu ciclo no Brasil. O processo de implementação da estratégia é dividido em quatro etapas: diagnóstico, planejamento, adesão e desenvolvimento. Em termos práticos, essas etapas são complementares, contínuas e interligadas, mas também interdependentes, tendo uma lógica processual flexível, que visa superar a rigidez metodológica e temporal presente na organização pedagógica de grande parte das escolas e das redes e oportuniza um grande empoderamento de povos e comunidades tradicionais sobre a escola e o ensino ofertado.

“Participar das atividades do Trajetórias fortaleceu minha valorização pessoal como futura liderança indígena. Vi as lideranças locais falando sobre educação indígena e educação escolar indígena e como elas se conectam. Isso só possibilitou meu fortalecimento como jovem líder em entender o contexto para contribuir com a discussão”, disse Aline.

Aline, estudante do terceiro ano na Escola Estadual Indígena Ester Caldeira Cardoso, tem o desejo de se formar em antropologia ou biologia para lecionar em sua comunidade em língua munduruku. “As disciplinas da minha escola são ministradas em português e munduruku. Assim sendo, estou aprendendo a língua do meu povo para ensinar crianças e adolescentes quando me tornar uma educadora”, salienta.

Além disso, ela afirma que as discussões proporcionadas pela estratégia Trajetórias proporcionaram reflexões entre os adolescentes e jovens de Kwatá. “Refletimos sobre os procedimentos interculturais e próprios na educação escolar indígena, além dos desafios pedagógicos e de interlocução entre as redes de educação no município”, explica.
 

Encontro de gerações

Uma adolescente e seu pai posam para a foto. Atrás deles há árvores e construções.
UNICEF/BRZ/Michael Dantas

“A educação não se limita à escola. Ela é um direito de todos e procura o pleno desenvolvimento humano por meio do processo de ensino-aprendizagem”. Essa é a fala de Adelson Rodrigues Beleza Munduruku, 50 anos, professor há mais de três décadas em Borba. Ele ensina história e geografia para estudantes de ensino médio na Escola Estadual Indígena Ester Caldeira Cardoso.

Adelson, uma das lideranças da Aldeia Kwatá, também é pai. “Tenho quatro filhos, sendo que um deles é a Aline. Ela tem sido minha companheira nas discussões em prol do fortalecimento dos nossos direitos como cidadãos indígenas”, afirma.

O professor explica que a educação escolar indígena oferece aos povos indígenas a chance de recuperar suas memórias históricas, reafirmar suas identidades étnicas, valorizar suas línguas e ciências e ter acesso aos conhecimentos técnicos e científicos da sociedade brasileira e de outras sociedades não indígenas. “Quando ocorreu o Trajetórias em Borba, incluí a Aline para que ela compreendesse a necessidade de sempre reforçar, com outras lideranças, a importância do planejamento participativo na educação escolar indígena”, declara.

Professor desde 1989, Adelson relata que não foi fácil concluir o ensino superior. “Para realizar o meu sonho, deixei minha família em Borba para estudar em Manaus por quatro anos. Tivemos muitos obstáculos, mas consegui concluir as disciplinas e me tornar um docente pela Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. Também acompanho a evolução de estudantes do ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens adultos (EJA) onde leciono. São mais de 200 alunos, entre crianças, adolescentes e adultos que, assim como eu, sonham com uma vida melhor por meio da educação, mas necessitamos assegurar seu acesso, permanência e aprendizado seja na educação básica ou na educação superior”, diz Adelson.

De acordo com Adelson, o direito à educação escolar indígena integra a Constituição de 1988 e foi regulamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional [Lei 9.394/96], assegurando às comunidades indígenas o direito à educação diferenciada, específica e bilíngue. “Além da Constituição, temos a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho [OIT] sobre Povos Indígenas e Tribais, bem como a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Assim, agradecemos a oportunidade oferecida pelo Trajetórias em nosso município de reforçar um debate baseado em princípios que buscam fortalecer e garantir uma educação escolar indígena de qualidade”, conclui.

Trajetórias de Sucesso Escolar
A estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar é uma iniciativa do UNICEF, em parceria com Secretarias Estaduais de Educação. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre os diversos indicadores que compõe a cultura do fracasso escolar no País e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso à educação, a permanência na escola e a aprendizagem desses estudantes.

O site da estratégia disponibiliza materiais pedagógicos – com as experiências didáticas –, textos, vídeos e dados relativos às taxas de distorção, abandono escolar e reprovação, com recortes por gênero, raça e localidade, que mostram as relações entre o atraso escolar e as desigualdades brasileiras.

Com o apoio da Porticus e o engajamento de organizações indígenas e quilombolas, o UNICEF tem adaptado toda essa estratégia para o contexto de povos e comunidades tradicionais.