“Me fortaleceu como futura liderança indígena”
A estudante Aline Assan Beleza ressalta que as ações da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar consolidaram seu desempenho como liderança indígena em sua aldeia
Aline Assan Beleza, de 17 anos, é uma adolescente indígena da Aldeia Kwatá, no município amazonense de Borba. Ela integrou o grupo com as lideranças que participaram das atividades da estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar (TSE) realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para agentes públicos locais sobre os desafios na educação escolar indígena. A iniciativa conta com a parceria estratégica da Porticus.
A estratégia Trajetórias do Sucesso Escolar tem como objetivo superar a cultura de fracasso escolar e lidar com os elementos que compõem seu ciclo no Brasil. O processo de implementação da estratégia é dividido em quatro etapas: diagnóstico, planejamento, adesão e desenvolvimento. Em termos práticos, essas etapas são complementares, contínuas e interligadas, mas também interdependentes, tendo uma lógica processual flexível, que visa superar a rigidez metodológica e temporal presente na organização pedagógica de grande parte das escolas e das redes e oportuniza um grande empoderamento de povos e comunidades tradicionais sobre a escola e o ensino ofertado.
“Participar das atividades do Trajetórias fortaleceu minha valorização pessoal como futura liderança indígena. Vi as lideranças locais falando sobre educação indígena e educação escolar indígena e como elas se conectam. Isso só possibilitou meu fortalecimento como jovem líder em entender o contexto para contribuir com a discussão”, disse Aline.
Aline, estudante do terceiro ano na Escola Estadual Indígena Ester Caldeira Cardoso, tem o desejo de se formar em antropologia ou biologia para lecionar em sua comunidade em língua munduruku. “As disciplinas da minha escola são ministradas em português e munduruku. Assim sendo, estou aprendendo a língua do meu povo para ensinar crianças e adolescentes quando me tornar uma educadora”, salienta.
Além disso, ela afirma que as discussões proporcionadas pela estratégia Trajetórias proporcionaram reflexões entre os adolescentes e jovens de Kwatá. “Refletimos sobre os procedimentos interculturais e próprios na educação escolar indígena, além dos desafios pedagógicos e de interlocução entre as redes de educação no município”, explica.
Encontro de gerações
“A educação não se limita à escola. Ela é um direito de todos e procura o pleno desenvolvimento humano por meio do processo de ensino-aprendizagem”. Essa é a fala de Adelson Rodrigues Beleza Munduruku, 50 anos, professor há mais de três décadas em Borba. Ele ensina história e geografia para estudantes de ensino médio na Escola Estadual Indígena Ester Caldeira Cardoso.
Adelson, uma das lideranças da Aldeia Kwatá, também é pai. “Tenho quatro filhos, sendo que um deles é a Aline. Ela tem sido minha companheira nas discussões em prol do fortalecimento dos nossos direitos como cidadãos indígenas”, afirma.
O professor explica que a educação escolar indígena oferece aos povos indígenas a chance de recuperar suas memórias históricas, reafirmar suas identidades étnicas, valorizar suas línguas e ciências e ter acesso aos conhecimentos técnicos e científicos da sociedade brasileira e de outras sociedades não indígenas. “Quando ocorreu o Trajetórias em Borba, incluí a Aline para que ela compreendesse a necessidade de sempre reforçar, com outras lideranças, a importância do planejamento participativo na educação escolar indígena”, declara.
Professor desde 1989, Adelson relata que não foi fácil concluir o ensino superior. “Para realizar o meu sonho, deixei minha família em Borba para estudar em Manaus por quatro anos. Tivemos muitos obstáculos, mas consegui concluir as disciplinas e me tornar um docente pela Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. Também acompanho a evolução de estudantes do ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens adultos (EJA) onde leciono. São mais de 200 alunos, entre crianças, adolescentes e adultos que, assim como eu, sonham com uma vida melhor por meio da educação, mas necessitamos assegurar seu acesso, permanência e aprendizado seja na educação básica ou na educação superior”, diz Adelson.
De acordo com Adelson, o direito à educação escolar indígena integra a Constituição de 1988 e foi regulamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional [Lei 9.394/96], assegurando às comunidades indígenas o direito à educação diferenciada, específica e bilíngue. “Além da Constituição, temos a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho [OIT] sobre Povos Indígenas e Tribais, bem como a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Assim, agradecemos a oportunidade oferecida pelo Trajetórias em nosso município de reforçar um debate baseado em princípios que buscam fortalecer e garantir uma educação escolar indígena de qualidade”, conclui.
Trajetórias de Sucesso Escolar
A estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar é uma iniciativa do UNICEF, em parceria com Secretarias Estaduais de Educação. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre os diversos indicadores que compõe a cultura do fracasso escolar no País e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso à educação, a permanência na escola e a aprendizagem desses estudantes.
O site da estratégia disponibiliza materiais pedagógicos – com as experiências didáticas –, textos, vídeos e dados relativos às taxas de distorção, abandono escolar e reprovação, com recortes por gênero, raça e localidade, que mostram as relações entre o atraso escolar e as desigualdades brasileiras.
Com o apoio da Porticus e o engajamento de organizações indígenas e quilombolas, o UNICEF tem adaptado toda essa estratégia para o contexto de povos e comunidades tradicionais.