“As energias positivas estão voltando”

Vitor Hugo Araújo, de 17 anos, estava pensando em desistir dos estudos até começar a avançar por meio do Programa Travessia Amapá, parceria do estado com o UNICEF

UNICEF Brasil
Foto mostra um adolescente em uma sala de aula vazia. Ele está de pé, apoiando-se em uma carteira escolar.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss
27 maio 2022

A primeira vez que Vitor Hugo Araújo repetiu na escola, estava no 6º ano. “Derrotado” é a palavra que ele usa para descrever como se sentiu naquele momento. Nos dois anos seguintes, recebeu a mesma notícia. O sentimento permanecia, mas ele parecia estar se acostumando. “Das outras duas vezes, me senti derrotado, mas já estava levando normal”, lembra o estudante de 17 anos. Desmotivado para seguir estudando, o adolescente já estava com três anos de atraso escolar e pensando em desistir até que, em 2021, recebeu a notícia de que a Escola Estadual Sebastiana Lenir, onde estuda, em Macapá, implementaria o Programa Travessia Amapá – uma parceria da Secretaria de Educação do Amapá com o UNICEF, para enfrentamento da distorção idade-série.

A notícia chegou primeiro ao seu pai, por meio do grupo de WhatsApp da escola. “Falaram sobre o Programa no grupo, convocaram os pais para uma reunião, aí o papai já me falou. De primeira eu achava que era alguma gincana”, ri Vitor. “Mas depois que fui entender direito que era um programa para nos ajudar a dar um passo gigante”, conta. Com a volta às aulas presenciais, o estudante, que estava no 7º ano, entrou para a turma do Programa e conseguiu começar a recuperação da sua aprendizagem. Isso porque, por meio de novos métodos de ensino, professores e professoras da escola passaram a trabalhar de forma diferenciada com as turmas de estudantes em atraso escolar.

“Fizemos um plano de aula separado para as turmas, específico, em que um tema seria abordado em todas as disciplinas”, explica Lidiane Marques, professora e então coordenadora do Programa Travessia Amapá na escola Sebastiana Lenir. “Por exemplo, escolhemos o tema revolução industrial, e a partir daí vimos como cada disciplina se encaixava. Foi assim que a gente chegou a alguma conclusão para tentar fazer a aula diferenciada de que os estudantes precisam. O livro, o regular, não estava surtindo efeito, tanto que muitos ficaram retidos nos anos passados na mesma série”, diz.

Foto mostra uma mulher em um corredor de uma escola. Ela está caminhando e olhando para o lado.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

Com isso, professores começaram a aplicar em sala de aula o uso de jogos, apresentações com cartazes e atividades práticas que abordassem os conteúdos com os estudantes. Além disso, a coordenadora organizou um diário de bordo de professores, em que eles podiam anotar e compartilhar as suas dificuldades e acertos nesse processo.

Para chegar até as metodologias e a implementação nas escolas, a Secretaria de Educação do Amapá realizou ao longo de 2020 avaliações diagnósticas, que levaram à escolha de sete escolas-piloto em três municípios e a formações com professores e oficinas. “A construção foi uma parceria. O UNICEF participou de todo o processo, orientando quanto à metodologia e às possibilidades de arranjos pedagógicos que poderíamos fazer. Foi um processo bem participativo, dinâmico e respeitando muito a realidade do Amapá”, explica Neurizete Nascimento, secretária de Educação do Amapá.

Em 2021, o programa começou a ser implementado pelas escolas-piloto. “O principal é a satisfação dos estudantes e o engajamento dos professores. As escolas já compreenderam a necessidade de ter esse olhar diferenciado para esses estudantes, que não eram vistos”, diz Neurizete.

Foto mostra um adolescente em pé ao lado de uma mulher sentada. A mulher está escrevendo em um caderno e o adolescente está olhando o que ela escreve.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

A professora Lidiane conta que, durante as formações, professores e professoras podiam realizar uma troca de experiências com educadores de outros estados, que traziam boas práticas e métodos de ensino diferentes para ser utilizados na sala de aula. “Eu achei bem bacana o Programa porque ele abre essa oportunidade de termos um olhar mais humanizado para os alunos”, conta Lidiane. “Cada aluno aprende de uma forma diferente. Mesmo na turma regular, vemos que os alunos têm uma diferença no aprendizado. Nas turmas do Travessia, tínhamos que ter mais atenção nisso. E era muito clara a especificidade de cada um”.

Assim, os estudantes do Travessia Amapá na escola Sebastiana Lenir tiveram a oportunidade de avançar até dois anos nos estudos.

Com felicidade, por meio do Programa e com o apoio do pai, Vitor Hugo conseguiu passar de ano, sem dependências, e chegou ao 8º ano. Agora, o estudante se sente pronto para avançar, e sonha em cursar design, ser fotógrafo e editor de vídeos. “As energias positivas estão voltando. [O Programa Travessia Amapá] está me ajudando muito, muito mesmo. E isso tá me deixando motivado para estudar”, diz Vitor. E deixa um recado: “Nunca desistam dos seus objetivos, se você tem um objetivo, corra atrás. E não se sinta desmotivado porque se sente derrotado. Com a sua derrota, você aprende mais e segue em frente”, conclui.

Foto mostra um adolescente em frente a uma grade onde está pendurado um banner do projeto Travessia.
UNICEF/BRZ/Nay Jinknss

Sobre a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar
A estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar é uma iniciativa do UNICEF, em uma parceria estratégica com Instituto Claro e B3 Social, além de outros parceiros, para o enfrentamento da cultura de fracasso escolar no Brasil. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre a distorção idade-série e o fracasso escolar no País, e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso à educação, a permanência na escola e a aprendizagem desses estudantes.

O site da estratégia disponibiliza materiais pedagógicos – com as experiências didáticas –, textos, vídeos e dados relativos às taxas de distorção, abandono escolar e reprovação, com recortes por gênero, raça e localidade, que mostram as relações entre o atraso escolar e as desigualdades brasileiras.