Do NUCA ao primeiro emprego: participação adolescente abre novos caminhos para Emily
Em Lucas do Rio Verde (MT), uma jovem de 18 anos conta como as experiências vividas no Núcleo de Cidadania de Adolescentes contribuíram para desenvolver habilidades que hoje fazem parte de sua vida profissional
Quando Emily Ferreira entrou para o Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCA) de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, ela se considerava uma pessoa tímida e fechada. Era o período de retomada das atividades presenciais depois da pandemia, e se comunicar e interagir com outras pessoas ainda era um desafio.
No entanto, foi neste espaço, que Emily começou a perceber uma mudança. Ao lado de outros adolescentes, ela participou de atividades, debates e ações sobre temas que faziam parte da realidade de sua comunidade e território, como bullying, violência contra as mulheres, participação cidadã, mobilização comunitária, vivências no território e equidade étnico-racial.
“A minha participação no NUCA contribuiu muito para a minha vida. Eu era uma pessoa muito tímida, muito fechada. Depois que entrei, comecei a falar mais e a me comunicar melhor. Foi uma grande mudança e contribuiu bastante para a minha interação social”, conta Emily.
Um espaço para aprender fazendo
Os Núcleos de Cidadania de Adolescentes são grupos de mobilização política de adolescente, onde meninas e meninos identificam desafios de seus territórios, propõem soluções e lideram ações para melhorar suas comunidades. Eles fazem parte do Selo UNICEF, iniciativa criada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que apoia municípios da Amazônia e do Semiárido no fortalecimento de políticas públicas voltadas à garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Na edição 2025-2028, 2.277 municípios de 18 estados participam da iniciativa.
Em Mato Grosso, assim como no Pará, Amapá e Tocantins, o Selo UNICEF é implementado pelo Instituto Peabiru, uma Organização da Sociedade Civil com mais de 25 anos de atuação na Amazônia e parceiro técnico do UNICEF. A parceria contribui para que municípios recebam acompanhamento e assistência técnica durante a implementação das ações previstas na metodologia do Selo UNICEF, incluindo aquelas voltadas à participação e ao protagonismo de adolescentes.
Em Lucas do Rio Verde, os próprios adolescentes estão à frente das atividades. Na edição 2021-2024, o grupo participou de ações como visita ao centro de reciclagem do município, além de debates sobre violência de gênero, cidadania e outros temas relacionados aos direitos de meninas e meninos.
“Em todo momento, eu deixava que eles tomassem a frente das atividades. Tínhamos profissionais para apoiar nas diferentes temáticas, mas os protagonistas eram os próprios adolescentes. Eram eles que organizavam e iam para as discussões”, lembra Fabiana Vaz, coordenadora na Secretaria de Assistência Social de Lucas do Rio Verde e mobilizadora do NUCA na edição 2021–2024 do Selo UNICEF.
É nessa participação prática que habilidades importantes para diferentes momentos da vida podem ser desenvolvidas. Comunicação, autonomia, pensamento crítico, responsabilidade, liderança e trabalho em equipe são exercitados quando adolescentes precisam dialogar, tomar decisões, organizar atividades e transformar suas ideias em ações.
Para Emily, uma dessas mudanças ficou especialmente evidente:
“O NUCA influenciou bastante no meu desenvolvimento. Eu era muito quieta e acabei me tornando muito mais comunicativa e proativa”, diz Emily. A adolescente também compartilhou que o seu senso de coletividade foi outra habilidade que ela aprimorou por meio do NUCA, a partir de diversas ações que exigiam o trabalho em grupo.
Das experiências no NUCA a uma nova oportunidade
Algum tempo depois, essas habilidades voltariam a fazer diferença em outro ambiente. Aos 18 anos, Emily participou de sua primeira entrevista de trabalho, para uma vaga de estágio na área de Recursos Humanos da Prefeitura de Lucas do Rio Verde.
Ela foi aprovada e hoje concilia os estudos com o estágio e reconhece nas habilidades que começou a aprimorar durante sua participação no NUCA ferramentas importantes para enfrentar aquela primeira entrevista e o seu dia a dia no trabalho: “Essas habilidades me apoiaram muito na minha primeira entrevista, porque eu consegui ter mais foco, mais comunicação e mais proatividade”, conta Emily.
Apesar da nova rotina de estudos na faculdade e estágio, Emily ainda participa de algumas atividades do Selo UNICEF 2025-2028, como o encontro estadual, que reuniu 85 adolescentes de 21 municípios de Mato Grosso para discutir políticas públicas, além de ações de mobilização comunitária.
A trajetória dela também ajuda a mostrar como espaços de participação adolescente podem gerar aprendizados que ultrapassam as próprias atividades do grupo. Para Fabiana, que acompanhou os adolescentes por 4 anos, esse avanço se torna visível com o passar do tempo: “Muitos jovens passaram pelo NUCA nesse período. Os que permaneceram tiveram grandes oportunidades. Muitos estão estagiando hoje na Prefeitura Municipal, outros estão em empresas privadas do município”, relata.
Participar também é exercer um direito
A experiência de Emily faz parte de uma mobilização que alcança milhares de adolescentes em diferentes territórios do País. Na atual edição do Selo UNICEF, 2025–2028, mais de 58,8 mil adolescentes participam dos NUCAs, como pode ser visto no painel interativo Panorama do Perfil dos NUCAs, disponibilizado pelo UNICEF. Dos 2.277 municípios inscritos no Selo UNICEF, 2.020 já criaram seus núcleos. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, as ações realizadas pelos adolescentes já haviam mobilizado mais de 1,3 milhão de pessoas.
Os NUCAs também refletem a diversidade das adolescências brasileiras. Entre os participantes desta edição, 32.250 são meninas e 26.462 são meninos, e a maioria é negra: 37.804 adolescentes se declaram pardos e 8.832, pretos. Os núcleos contam ainda com 2.385 adolescentes quilombolas e 1.421 indígenas, reunindo diferentes identidades, pertencimentos e realidades em espaços onde adolescentes podem exercer seu direito à participação e contribuir para transformar suas comunidades.
Os temas trabalhados incluem saúde, prevenção às violências, equidade étnico-racial, direitos das meninas, orçamento público e participação política, mudanças climáticas e transição da educação para o mundo do trabalho.
Além de promover atividades, os NUCAs buscam assegurar que adolescentes possam exercer seu direito à participação e contribuir com as políticas públicas de seus municípios.
“O NUCA é um espaço de participação e, principalmente, de protagonismo adolescente. Quando está ativo e atuante, o município ganha ao debater políticas públicas voltadas para adolescentes e jovens”, explica Adriano do Egito, especialista em mobilização de adolescentes e equidade étnico-racial no Instituto Peabiru.
Thaissa Scerne, da área de Desenvolvimento e Participação de Adolescentes do UNICEF Brasil, destaca que essa participação permite que as propostas partam das próprias realidades vividas por meninas e meninos: “A importância é que esse processo seja construído pelo próprio protagonismo dos adolescentes e traga as realidades enfrentadas por cada menina e menino dentro dos municípios”, afirma. As propostas construídas pelos adolescentes podem contribuir para o fortalecimento das políticas públicas e para a garantia de seus direitos.
Novos caminhos
Para Emily, o que começou como um espaço para participar, conhecer pessoas e conversar sobre questões de sua comunidade acabou deixando aprendizados que ela levou consigo para outras áreas da vida.
Agora, ao olhar para a própria trajetória, ela tem um recado simples para outras meninas e meninos: “Participem! É um projeto incrível, em que você aprende muita coisa. É ótimo para o seu desenvolvimento. Você vai fazer amizades e aprender sobre muitos assuntos”, acredita Emily.
A história de Emily mostra como, quando adolescentes encontram espaço para participar, colocar suas ideias em prática e desenvolver suas habilidades, podem transformar as comunidades onde vivem e construir novos caminhos para o próprio futuro.
Sobre o Selo UNICEF
O Selo UNICEF é uma das maiores iniciativas de fortalecimento de políticas públicas do País. Na última edição (2021-2024), 933 municípios dos 2.023 que foram mobilizados pelo programa receberam a certificação. Isso representa a melhoria de indicadores-chave relacionados à infância e adolescência nestas localidades, como imunização, permanência de crianças na escola e prevenção de violências.
A edição atual, que segue até 2028, já atingiu número recorde de adesões, com 2.277 cidades de 18 estados participando da iniciativa: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais (norte do estado), Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins. A iniciativa reconhece o esforço dos municípios na promoção, realização e garantia dos direitos de crianças e adolescentes.
Para o Selo UNICEF, nacionalmente, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Equatorial Energia, com a parceria de RD Saúde, por meio das marcas Raia e Drogasil, e com o apoio da Energisa e, no estado de Mato Grosso, com a parceria estratégica da Rumo Logística. Além disso, o UNICEF tem XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.





