Daniel mais perto do ensino médio, em busca de seus sonhos

Com o apoio da escola, em Boa Vista (RR), o adolescente está revertendo o atraso escolar, aprendendo bastante, e já faz planos para ingressar no ensino médio na idade certa

UNICEF Brasil
um adolescente em sala de aula aponta para alguma coisa. ele está sorrindo
UNICEF/BRZ/João Laet
08 janeiro 2021

* Fotos tiradas antes do início da pandemia de Covid-19.

O sorriso solto de Daniel Wendel, de 14 anos, se abre na sala de aula. Em casa, em Boa Vista, Roraima, com o avô e o irmão, a atitude tímida prevalece. Mas é só chegar à escola que o adolescente se solta. Participativo, senta na primeira fila e responde animado às orientações da professora, que coloca questões no quadro e propõe: “vamos responder todos juntos?”. A turma, bastante engajada, discute em conjunto as questões de língua portuguesa, e Daniel aproveita esses momentos para tirar dúvidas.

O adolescente e seus colegas fazem parte de uma turma voltada a quem está em atraso escolar. É a chamada turma de correção de fluxo. Nela, os estudantes têm acesso a uma metodologia pensada com base nas dificuldades e potencialidades de cada um dos meninos e meninas em atraso escolar para que possam avançar nos estudos, cursando dois anos escolares de forma combinada.

A Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, onde Daniel está, reúne cerca de 160 estudantes em seis turmas de correção de fluxo. Ela é uma das quinze escolas selecionadas pela Secretaria Estadual de Educação para a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar, iniciativa do UNICEF em parceria com o Instituto Claro.

Entre os 160 estudantes, 160 histórias de atraso escolar. No caso de Daniel, a oportunidade de avançar nos estudos significou uma esperança depois de um momento difícil.

um idoso e um adolescente estão em uma cozinha. o senhor está sentado e o menino está em pé ao lado dele.
UNICEF/BRZ/João Laet

Diferentes fatores levam ao atraso escolar
Na casa da família de Daniel, o avô sempre incentivou o menino a seguir estudando em todas as circunstâncias. Antonio Izidoro, que já criou 18 filhos, cuida também de Daniel “desde 24 horas de nascido”, como ele mesmo diz. Antonio estudou até o 3º ano do ensino fundamental, mas quis um futuro diferente para os netos, e, por isso, sempre priorizou a educação.

Porém, no 5º ano do ensino fundamental, a trajetória do Daniel tomou um rumo inesperado, quando passou por um momento delicado ao perder a mãe. De repente, a escola ficou em segundo plano. “Ele ia pra escola, mas voltava. Depois, ficou alguns dias sem ir. Chegava lá, começava a dormir, aí vinha embora para casa”, relembra o avô. Foi um momento difícil para a família, que refletiu no rendimento escolar do menino, e resultou em reprovações.

Ao chegar à Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante, em 2019, Daniel estava com dois anos de atraso escolar. Avaliando a situação, a escola decidiu colocá-lo na turma de correção de fluxo, em que ele teria mais chance de avançar. Apesar da surpresa inicial, Daniel viu uma nova porta se abrir. “Eu gostei, porque minha idade estava avançada. Se eu fizesse uma série só, na turma regular, continuaria atrasado”, conta o adolescente.

E o esforço trouxe resultados. Na sala, com outros estudantes de idades próximas e com trajetórias diversas, o sorriso e a participação tomaram conta de Daniel. O avô notou a mudança, e acredita que o neto passou a se engajar mais nas atividades propostas pela escola.

A percepção do avô é confirmada pelos resultados que o adolescente vem alcançando. Em 2019, ele foi aprovado. E, em 2020, ingressou numa nova turma do programa. Assim, chegará ao ensino médio, com aprendizagens significativas para que possa continuar estudando e junto aos colegas de sua mesma idade. É tudo do que ele precisa para seguir seus sonhos. “Minha matérias preferidas são ciências e geografia, porque eu gosto de descobrir o mundo e o corpo humano. Eu quero ser bombeiro ou cirurgião bariátrico”, diz ele, sorrindo.

Um novo olhar para a escola
A história de Daniel é uma em meio a tantas diferentes realidades dentro das turmas que estão desenvolvendo propostas específicas para o enfrentamento da distorção idade-série. E esse olhar – voltado para a construção de um currículo que permite que todos aprendam com significado e no qual professores e estudantes são coautores das atividades – é a visão que o UNICEF e a Secretaria de Educação de Roraima propõem às escolas com a estratégia Trajetórias de Sucesso Escolar.

Fruto da parceria do UNICEF com o Instituto Claro, a estratégia tem como foco o enfrentamento da cultura de fracasso escolar no Brasil. O objetivo é facilitar um diagnóstico amplo sobre a distorção idade-série no País – quando um estudante está com dois ou mais anos de  atraso escolar – e oferecer um conjunto de recomendações para o desenvolvimento de políticas educacionais que promovam o acesso, permanência e aprendizagem desses estudantes. A proposta é contribuir com as redes públicas de ensino para que desenvolvam propostas e metodologias adequadas à realidade local, às necessidades e potencialidades desses estudantes.

Em Roraima, turmas de correção de fluxo já existem há pelo menos uma década. Agora, com o apoio do UNICEF, a Secretaria Estadual de Educação oferta formação e apoio aos educadores, aprimorando o trabalho. “Quando o Trajetórias de Sucesso Escolar traz formações para os professores, eles percebem, por exemplo, a importância de analisar os aspectos sociais do aluno. E isso faz com que tenham outro olhar na sala de aula”, explica Leonilto Manoel, diretor da Escola Estadual Professor Severino Gonçalo Gomes Cavalcante. É um esforço de conjunto, voltado ao direito de aprender de cada estudante, sem exceção.