“Como educadora, procuro soluções para a desnutrição de nossas crianças”

Junto com a área de saúde, a professora ianomâmi Carlinha Santos tenta reverter a desnutrição crônica das crianças que vivem na Aldeia Maturacá (AM)

UNICEF Brasil
Mulher indígena, com pinturas no rosto, está em um descampado, na aldeia. Ela olha para a câmera.
UNICEF/BRZ/Elisa Meirelles

29 Outubro 2019

“Meu nome é Carlinha Lins Santos, sou da etnia ianomâmi e vivo na Aldeia Maturacá, no Amazonas. Sou professora e leciono na escola estadual da aldeia e na educação infantil. Como educadora, estou junto com a saúde para procurar soluções para a desnutrição de nossas crianças.

A população de Maturacá está aumentando, e a doença está aumentando. Essa é a nossa preocupação. O UNICEF e a Fiocruz fizeram um pesquisa com crianças de até 5 anos. Foi um desejo do povo ianomâmi. [O estudo revelou que 81,2% das crianças ianomâmis menores de 5 anos têm baixa estatura para a idade (desnutrição crônica), 48,5% têm baixo peso para a idade (desnutrição aguda) e 67,8% estão anêmicas].

Essa pesquisa nos mostrou que a desnutrição está relacionada com uma mudança de alimentação. Hoje, a dependência está no arroz, no macarrão e nos enlatados. Antigamente, se a criança morria, era pelos espíritos maus, não pela doença. A comida que a gente comia era cogumelo, caranguejo, peixe e carne. Hoje, faltou arroz, café... para cidade, fazer compra. Isso está atrapalhando muito a saúde da criança. As mãe, especialmente as mais novas, não têm consciência de que, na nossa cultura, existem vitaminas vivas, puras. Da cidade, vem frango cheio de hormônio.

É muito importante valorizar a cultura que nós temos, a tradição.

Hoje, as mais velhas nos orientam, deixando o costume para a juventude. Isso é muito importante. Essa cultura ajuda muito com a desnutrição.

Vimos que a desnutrição aparece, principalmente, em filhos de mães novas, de 12, 14, 15 anos. Essas mães não têm orientação e não sabem como cuidar da alimentação das crianças. Por isso, nós, educadores, fazemos formação com elas para falar sobre as comidas, o que faz mal, o que não faz mal.

A pesquisa nos ajuda nesse sentido. É importante ter informações do laboratório, do estudo, mostrando que é realmente a comida que está fazendo mal. Com a pesquisa, as mães vão acreditar mais do que só com os professores falando. Quando a informação é do laboratório, todos calam, querem ouvir, têm mais atenção, e vão ter mais cuidado. Este será o resultado da pesquisa: atrair as mulheres, a juventude, por meio de cursos, capacitações e palestras.

Com ajuda, é possível conscientizar essas mães. Sozinhos, nós não vamos conseguir, mas, em parceria, sim. Esse é o anseio das comunidades. Para as crianças de Maturacá, espero que tenham boa saúde, tanto sucesso e pouca morte. Vamos colocar a mão juntos, nos unir, e com certeza conseguiremos.”


Sobre a pesquisa
Para entender as determinantes sociais da desnutrição de crianças ianomâmis menores de 5 anos, e contribuir com a busca de soluções para o problema, o UNICEF realizou uma pesquisa, em parceria com Fiocruz, Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição (Cgan) do Ministério da Saúde, e a Fundação Nacional do Índio (Funai).

A pesquisa teve como foco o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami e foi realizada nas aldeias do Polo Base de Auaris, em Roraima, e do Polo Base de Maturacá, no Amazonas. Os dados mostram que 81,2% das crianças menores de 5 anos pesquisadas têm baixa estatura para a idade (desnutrição crônica), 48,5% têm baixo peso para a idade (desnutrição aguda) e 67,8% estão anêmicas.