Colecionador de vitórias
Acesso a pré-natal de qualidade e a oportunidades de desenvolvimento integral afasta Asafe dos índices de mortalidade infantil e abre caminhos para o futuro
Asafe Misael, de 2 anos e 8 meses, gosta de conversar, ama animais de estimação, especialmente gatos e peixes, torce pelo Santa Cruz Futebol Clube e adora nadar. Sabe contar de 1 a 10, conhece as cores, as formas geométricas e as letras do alfabeto. Ele vive em um ambiente familiar humilde, no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife (PE), um dos 32 territórios mais vulneráveis da capital pernambucana. Mas Asafe foi na contramão das estatísticas. Apesar de nascer prematuro, sobreviveu. Não teve sequelas. Vem crescendo rodeado de cuidados e amor. É um menino fisicamente saudável e emocionalmente sadio.
A mãe de Asafe, Alexsandra Pereira de Lima, 22, é uma das nove mil mulheres atendidas pelo programa Mãe Coruja desde 2017, iniciativa desenvolvida pela Prefeitura do Recife, com o apoio do UNICEF, como atividade integrante da Plataforma dos Centros Urbanos (PCU). Já grávida e sem informação alguma sobre a importância do pré-natal, ela encontrou, na sua rua, uma equipe do Mãe Coruja que tinha ido visitar uma vizinha e passou também a ser acompanhada. Participou do curso Partejando, que trabalha a conscientização da violência obstétrica, os direitos da mulher e da criança no parto e a importância da amamentação para garantir a segurança nutricional na primeira infância.
Mesmo com o pré-natal de qualidade, incluindo até coleta de sangue semanal para controle do surto de microcefalia na época da sua gravidez, Alexsandra começou a sentir contrações na 33ª semana de gestação. E Asafe nasceu de parto natural. Ele precisou ficar um período na incubadora, mas seu desenvolvimento aconteceu naturalmente após a alta, desconsiderando o alerta feito por médicos sobre a possibilidade de sequelas cognitiva, motora ou física. O acesso aos serviços e estímulos adequados superaram qualquer dificuldade.
Olhar integral do nascimento ao desenvolvimento
Após o nascimento de Asafe, Alexsandra continuou assídua no programa e participou de oficinas de motricidade e de um curso de “brinquedista”. Ao longo desses três anos, ela também teve a oportunidade de aprender sobre escrita e contação de histórias infantis, o que resultou num livro escrito por ela para o filho. Por fazer parte do Mãe Coruja, Asafe também tem acesso a aulas de natação em um centro comunitário num bairro próximo.
“Isso traz muitos benefícios para ele, como a questão da confiança, autoestima e independência. Sou muito grata ao Mãe Coruja porque as pessoas que trabalham nesse projeto me fizeram entender a importância, na vida de meu filho, de me doar para a maternidade”, enfatiza. A história de Alexsandra e Asafe poderia ter seguido um caminho diferente. Apesar de ter tentado engravidar algumas vezes anteriormente, quando o teste de gravidez deu positivo, o momento parecia não ser oportuno. O marido estava desempregado e Alexsandra tinha acabado de ser aprovada em uma entrevista de emprego.
Os planos de volta ao trabalho precisaram ser adiados. E, quando o garoto nasceu, eles resolveram adiar ainda mais para que ela pudesse se dedicar de forma exclusiva nesses primeiros anos. Ela conta que recebeu o apoio do marido, que chegou a acompanhá-la em algumas das vivências do projeto. “Amamentei meu filho até 1 ano e 2 meses. Só parei porque adoeci e precisei ficar internada. Quando saí do hospital, ele não quis mais. Ele se alimenta bem, come verdura, fruta e está com o peso controlado. Também mantenho as vacinas em dia”, conta a mãe.
A coordenadora do Mãe Coruja Recife, Cláudia Soares, ressalta que Alexsandra representa a tradução do cuidado de forma integral. “Ela continua acompanhando o filho, uma criança bem estimulada, porque a mãe teve acesso a como trabalhar de forma correta”, reforça. Desde 2017, o Mãe Coruja atendeu mais de oito mil crianças na primeira infância. Esse olhar para o cuidado integral de meninas e meninos está diretamente relacionado à parceria entre Prefeitura do Recife e UNICEF por meio da adesão, em 2017, à Plataforma dos Centros Urbanos.
Além de o programa Mãe Coruja, outras iniciativas vêm sendo desenvolvidas pela Prefeitura do Recife, envolvendo diferentes secretarias municipais, em busca de garantir os direitos de crianças e adolescentes mais afetados pelas desigualdades dentro de cada cidade. Ao fazer parte da PCU, o município passa a acompanhar, junto com o UNICEF, a evolução de indicadores relacionados a quatro agendas prioritárias: promoção dos direitos da primeira infância, enfrentamento da exclusão escolar, promoção de direitos sexuais e direitos reprodutivos de adolescentes e enfrentamento de homicídios.
Educação entre pares no enfrentamento da sífilis
Dados do Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde, entre 2007 e 2018, indicam que a capital pernambucana registrou quase oito mil casos de sífilis adquirida, mais de dois mil casos em gestantes e quase cinco mil casos da forma congênita, quando é transmitida da mãe para o filho. Foi dentro dessa perspectiva que o programa municipal, com apoio do UNICEF, passou a promover o projeto de multiplicadoras Mãe Coruja na Prevenção da Sífilis Congênita.
“Nós formamos 58 mulheres que estão realizando rodas de conversas em suas comunidades sobre a importância de se prevenir a sífilis, de que forma acontece essa prevenção, o que é a sífilis congênita e como ela pode afetar o bebê. Essa ação também tem como objetivo reduzir a mortalidade infantil, um dos indicadores da Plataforma de Centros Urbanos”, explica Cláudia Soares, coordenadora do programa. Mais de 540 rodas de conversas já foram realizadas nos 32 bairros com maior incidência da infecção.
Alexsandra Lima é uma das mulheres multiplicadoras de informação para combater a sífilis no Recife. “Eu já promovi 90 palestras para um público diverso. Participam mulheres, homens, gestantes. Recebo um material de apoio e uma ajuda de custo para esse trabalho. Além de ser importante pra mim neste momento, enquanto cuido do meu filho, ainda atuo na disseminação de informação para o controle da doença em nossa cidade”, orgulha-se a mãe de Asafe.